Pura milonga

Presente nos países da pampa sulina, seja em danças de pares enlaçados, seja como ritmo para acompanhar payadas e narrativas, a milonga tem modos de expressão muito diversos. Gênero poético, acompanha gauchos há tempos e carrega uma história ligada à filosofia do modo de vida campeiro mais simples. Para desvendá-la, conversei com Raul Ellwanger, músico e pensador do nosso chão.

 

Ilustração: Haron Alves

“Milonga é um gênero poético-musical-filosófico típico da pampa da bacia do Prata. Filosofa sobre as penas do campeiro pobre, sem-terra, vítima do fazendeiro e do delegado, do chamado gaúcho, quando essa palavra ainda era pejorativa. Ritmo lento, soturno, quase falado, muito emotivo, individualista, com forma poética bem estabelecida. Quase sempre em modo menor, sempre com síncope obrigatória no sexto grau menor”, começa definindo Ellwanger. O músico e compositor porto-alegrense, autor, dentro outros clássicos, de “Pialo de sangue”, descreve sua própria história como “pura milonga”. Pois este fazer musical, que passou por transformações com o correr dos anos, em sua raiz é uma expressão cultural daqueles que menos tem voz – mas que cantam.

 

PALAVRA AFRICANA

Melunga, palavra de derivação africana, tornou-se “milonga” por volta de 1829, que significa “muitas palavras”. “No Rio de Janeiro e na Bahia, se diz ‘mirongueiro’ de quem é ‘enrolador’”, diz Raul, citando “Tonga da mironga do kabuletê”, de Vinicius de Morais. “Em Porto Alegre, se diz ‘milongueiro’, ‘cheio de milongas’. Nas cidades da bacia do Prata, ao sul, designa também o baile para dançar tango e milonga arrabalera, que é outro gênero diferente da milonga campeira. Se convida: ‘vamos a uma milonga?’”. Nas trovas de Bartolomé Hidalgo, recolhidas nas trincheiras de Montevidéu nos anos 20 do séc. XIX, já se vê a milonga, que se tornou um ritmo integrador da cultura musical dos três países pampianos – Argentina, Uruguai e Brasil, onde é típico do Rio Grande do Sul.

 

PELOS CAMINHOS

Registros apontam que surgiu na Andaluzia espanhola a partir da habanera cubana, que, por sua vez, veio de ritmos africanos. Na Europa, passou por alterações e voltou às Américas com os colonizadores. Popularizou-se no final do séc. XIX nos subúrbios de Montevidéu, Uruguai, e Buenos Aires, Argentina. Lá, foi absorvida pelo tango, mas sobreviveu como gênero musical independente cantado ao violão. “Em Montevidéu e Buenos Aires, é dança popular, às vezes estilizada para turistas, confundida com o tango”, conta Raul.

“A estrutura harmônica é ‘europeia’, de harmonia convencional. As melodias por graus conjuntos, ou mesmo melismáticas, são andaluzas, portanto europeias e berberes/muçulmanas. Creio também que a ‘filosofia’ típica de suas letras melancólicas tem a ver com o criollo mestizo, com sangue predominantemente guarani e charrua, com a tristeza do oprimido. O baixo levado numa síncope sobre o sexto grau menor é tipicamente andaluz”, explica. Na cultura gaucha, compartilhada entre os países platinos, a milonga ocupa uma posição importante “como expressão filosófica e poética, além de musical”, diz Ellwanger. “De uma franja da população, a dos desvalidos, com a pobre ferramenta de um rústico instrumento (a vihuela). Veja-se o Martín Fierro (livro de José Hernández), com suas sextilhas clássicas.”

 

NO RIO GRANDE

No RS, ela chega através de diferentes povos – brancos, negros, nativos. Raul acredita que deve ter se disseminado antes da era do rádio. “Na era discográfica, não foi muito popular. Era música galponeira, de relaxamento no fim do dia. Meu avô missioneiro, e o pai do Jerônimo Jardim também, tocavam milonga: com só dois dedos em cada mão, com só dois acordes. Bastava. Foi, e é, uma linguagem da fronteira oeste com a Argentina e da fronteira sul com o Uruguai”.

Ao chegar ao estado, o gênero passou por uma variação, adquirindo, pode-se dizer, características misturadas às regionais. “Nos primeiros 60 anos do séc. XX, o interior do estado escutava as rádios argentinas. Imaginemos o boom do tango e da milonga arrabalera influenciando os músicos. Então aqui, e só aqui no RS, surgiu uma forma musical rápida, dançante, alegre, em modo maior, com letra animada: tudo ao contrário da milonga campeira, mas descendente da milonga arrabalera portenha (que é muito rápida, usada para exibições dos bailarinos, tem letras pícaras, pode ter modo maior, não obriga o uso da síncopa no sexto grau). Eu mesmo tenho ‘Milonga’, no disco ‘Gaudério’, que eu subtitulo como ‘limpa banco’ (para dançar). Mas a confusão está feita.”

Assim, o gênero passou a ter estilos e modos de expressão abertos, como explica Raul: milonga campeira, lenta e meditativa, típica de payadas e histórias cantadas; milonga arrabalera, vivaz e urbana na Argentina, e milonga rio-grandense, que anima bailes, intercalando passos de polca com o de marcha – o famoso “dois e um” no contexto da dança gaúcha de salão, como dança de pares independentes e enlaçados, de ritmo binário.

 

ARRABALERA, CAMPEIRA, RIO-GRANDENSE

“A milonga arrabalera é chamada ‘mãe’ do tango, assim como a campeira é a ‘avó’. Esta entrou na cidade pelos subúrbios, galpões, prostíbulos, dançada de modo lascivo por gente pobre e de maus costumes. Seu símbolo é o compadrito de navalha e o lenço no pescoço, ou a moça com a perna trançada ao parceiro, apertando seu púbis – como o samba, ‘golpe de púbis’, sambê. Por isso é ‘arrabalera’, suburbana, de arrabalde. Seu desfrute como lazer, seu encanto coreográfico e sua funcionalidade no galanteio foram chegando ao centro, às elites, que só a admitiram depois que fez sucesso no vodevil parisiense.” Ele sugere comparar “El arriero”, de Ataualpa Yupanqui, com “Farolito”, de Julio Sosa – são diferentes.

Raul destaca, na milonga campeira do estado, o nome de Noel Guarany como o mais consistente. Aqui, a milonga é importante enquanto raiz – “uma raiz profunda, como a umidade que se espalha por toda a base de um lote”. Com as características básicas do gênero, é até pouco visível hoje, mas ressurge em novos formatos, muitos fazendo reverência à milonga campeira. Raul cita sua “Quero te ver liberdade”, do primeiro “Musicanto”, e “¿Que se passa?”, no disco “Paralelo 30” de Bebeto Alves.

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