“Privatizar o Mercado Público seria um crime contra a cidade”

O jornalista, editor e escritor, sócio da Editora Libretos, ao lado da designer gráfica Clô Barcellos, afi rma-se como um novo memorialista da cidade, tendo publicado uma série de livros que documentam e resgatam a sua história contemporânea. O último é “20 relatos insólitos de Porto Alegre”, história que vem colecionando há algum tempo – dramas, tragédias, “algum humor, algum romance”. O autor também escreveu o livro que relata a história completa do Mercado Público.

 

Foto: Letícia Garcia

“Meu trabalho é pura narrativa, com elementos de jornalismo, pesquisa histórica e um pouco de literatura. Portanto, situa-se em uma área um pouco incerta para se definir. A motivação é basicamente contar histórias a partir da escrita”, inicia. A proposta de resgatar histórias da Cidade, uma das marcas da sua trajetória como escritor, foi quase por acaso, garante. Diz que estava reunindo elementos para escrever um livro sobre a Legalidade, que seria de ficção. Como não conseguiu, resolveu escrever textos relacionados ao assunto, que foram publicados no livro “Porto Alegre, agosto 61”. A partir de então, uma história foi puxando a outra e os livros, saindo. Em relação aos tempos antigos e atuais vivenciados pela cidade, faz um breve comparativo de épocas: “A gente tem uma ideia romântica do passado e uma ideia cruel do presente. Talvez não seja nem uma coisa nem outra. Do ponto de vista de personagens, sim. Havia muitos característicos, especialmente nas áreas da cultura, da política, dos movimentos populares. Neste sentido, Porto Alegre perdeu muito de sua personalidade e de suas referências”. Lembranças do Centro Histórico? “Obviamente, a Rua da Praia, mas tenho lembranças inesquecíveis do Cais, de visitar os navios que ancoravam. Por isso, participo da resistência ao projeto que pretende implantar shopping centers, espigões e megaestacionamentos no Cais, o que seria uma descaracterização completa deste espaço tão importante da história e da cultura da cidade. ”

 

CENtRO HISTÓRICO, ESQUECIDO E DEGRADADO

Filho do jornalista Carlos Rafael Guimaraens (1926- 1987), considerado um grande cronista da cidade, Rafael cita outros nomes que considera importantes do gênero, os quais admira: “O primeiro, e talvez mais importante, é o Coruja, mas são muitos: Achylles Porto Alegre, Athos Damasceno Ferreira, Carlos Reverbel, Nilo Ruschel, Sérgio da Costa Franco, meu pai. É difícil destacar, porque a gente sempre acaba esquecendo alguém. Hoje, não temos muitos cronistas na acepção do termo. A crônica ficou um festival de vaidades”, resume. No trabalho da preservação da memória portoalegrense, acredita que temos instituições muito importantes, principalmente o Museu de Comunicação Hipólito José da Costa. No entanto, afirma, o acervo de jornais do nosso Musecom está se deteriorando a olhos vistos. Seria necessário, segundo ele, um grande investimento para realizar a tão sonhada digitalização deste acervo. E destaca também outros espaços importantes, como o Museu Joaquim Felizardo, o Arquivo Histórico Moysés Vellinho, o Memorial do RS, o Arquivo Público do RS, que conservam seus acervos em bom estado. Pesquisador e frequentador destes espaços, alguns no Centro Histórico, vê esta região importante para a memória da cidade degradada e mal cuidada, “esquecida pelo poder público há vários anos”.

 

MERCADO, O “PALÁCIO DO POVO”

O livro sobre o Mercado Público é um dos seus trabalhos mais importantes. “Ele nasceu de uma ideia do falecido Zeca Moraes (José Luiz Vianna Moraes), que foi, como secretário da SMIC, o grande responsável pela restauração do Mercado na década de 1990. Infelizmente ele não viveu para ver o livro pronto. Tenho muito orgulho deste trabalho, que compartilho com os fotógrafos Marco Nedeff e Ricardo Stricher, o grande ilustrador Edgar Vasques e a editora Clô Barcellos. Tive acesso a muitos documentos preservados no Arquivo Moysés Vellinho, da prefeitura, e recebi todo o apoio das pessoas que se envolveram diretamente na restauração. A editora está buscando formas de fazer uma nova impressão.” Sobre o Mercado, que define como “o palácio do povo”, Rafael vê nele um símbolo arquitetônico de resistência cultural. Sobre a proposta do atual prefeito de privatização do espaço, diz que ainda não sabe bem o que significa: “Na verdade, as bancas são privadas e a prefeitura mantém a responsabilidade sobre sua administração e manutenção, como espaço público que é. Na minha opinião, seria um crime contra a cidade se a prefeitura transferisse a administração do Mercado para a iniciativa privada, o que significaria uma perda de controle público sobre suas atividades”. Seus próximos projetos? “Ainda é cedo para falar, não tem nada certo ainda”, diz ele.

 

COMENTÁRIOS