Prédios históricos da UFRGS, imponência e riqueza arquitetônica

 Centro Histórico, por Emílio Chagas 

Prédios históricos da UFRGS, imponência e riqueza arquitetônica

“O campus central da UFRGS tem uma grande importância histórica para a cidade. Até o final do século XIX a área fazia parte dos antigos Campos da Várzea, ou Campos da Redenção, um local onde os rebanhos de gado eram trazidos para a cidade para abastecimento”, explicou o professor Claudio Calovi no início do passeio Viva o Centro a Pé, que teve como objeto de visitação três prédios históricos da UFRGS: o Observatório Astronômico e as faculdades de Direito e Medicina. Tudo começou em 1900 com a inauguração do antigo edifício da escola de Engenharia. A partir daí uma série de edificações começaram a ser construídas nessa área subtraída da atual Redenção, ou Parque Farroupilha.

Os prédios estão situados na região das ruas João Pessoa com André da Rocha. A primeira era o chamado caminho da Azenha, uma espécie de saída da cidade para a zona de chácaras e propriedades rurais. Na altura onde hoje está o viaduto Loureiro da Silva ficava a Muralha Farroupilha, que protegeu a cidade durante a Guerra dos Farrapos. Ao lado, a Santa Casa, que ficava “fora” da cidade para evitar contaminações, situada em um ponto mais alto em razão da ventilação, essencial para a melhora das condições de salubridade. Neste cenário surge, então, o prédio da Engenharia, em 1898, um projeto assinado pelo primeiro diretor da instituição, o engenheiro João Pereira Parobé. Ao lado também surgiu o prédio do Instituto Júlio de Castilhos, que sofreu um incêndio na década de 50. O edifício permanece, mas toda a ornamentação foi perdida.

 

Observatório Astronômico, Castelinho e Château

Observatório Astronômico da UFRGS

Eles formam um conjunto de prédios projetados pelo engenheiro-arquiteto gaúcho Manoel Itaqui. Na época umas das especializações que os engenheiros podiam fazer no último ano do curso era arquitetura. Começaram a ser construídos em 1906 e concluídos em 1908. O Château serviu muito tempo como atelier, carpintaria, forjas e oficinas, recursos para a indústria que se desenvolvia então. Já o Castelinho abrigava atelier de mecânica e funcionava como zona de aulas práticas. Os dois prédios servem também para criar uma perspectiva para o mais importante deles, que é o Observatório. “Além dos estudos dos astros e fenômenos celestes, servia para a previsão do tempo, com a intenção de fazer cartas metereológicas”, explicou Calovi. O prédio apresenta uma fachada bastante elaborada, com motivos florais. Segundo o professor, ilustra o ecletismo, mostrando uma combinação de estilos. Mas, a originalidade é que os estilos não são diretamente ligados a nenhum outro do passado. “Ou seja, o Itaqui inventou uma série de motivos, as colunas não são colunas clássicas, propriamente dito, possui contrafortes laterais, e os motivos florais, lembram um pouco da arquitetura medieval portuguesa, com as janelas curvilíneas lembrando o art-noveau, um edifício bastante inovador”, resume Calovi. O Observatório foi projetado porque o governador Borges de Medeiros comprou na França os telescópios e outros equipamentos. Hoje no local funciona um setor de transferência de tecnologia.

 

Detalhe do interior da Faculdade de Direito

  Faculdade de Direito

 Um dos mais tradicionais do antigo campus universitário, o prédio foi construído à semelhança do Palácio de Estrassburgo, na Alemanha, porém, em escala menor. Além disso, o da cidade alemã tem dois pátios internos, enquanto o da nossa faculdade tem um menor, na área central. Foi construído pelo arquiteto alemão Hermann Otto Menschen, que veio para cá e se estabeleceu por muitos anos. Formado em Munique, fez também o prédio da Alfândega, onde atualmente funciona a Receita Federal. No início do século XX o mercado da construção civil era dominado pelos alemães, assim como outras importantes atividades, como a malha ferroviária gaúcha. O prédio tem um térreo com pedras brutas, chamado de piso rusticado, que dá uma ideia de solidez, sustentando um segundo pavimento mais leve, onde existem colunas decoradas com motivos florais. Na entrada se destaca um volume que avança, criando uma espécie de avarandado e dá acesso ao prédio. Dentro encontramos um primeiro lance, a escadaria principal, acesso ao térreo e um segundo lance com vitrais e esculturas. No segundo pavimento encontra-se o balcão que se projeta ao espaço, em direção à frente da faculdade. E acima do balcão, uma cúpula de quatro gomos, bastante elegante, que marca o centro do edifício, dando-lhe um ar de palácio. O professor Calovi ainda destaca as colunas coríntias, com capitel e o saguão com um altíssimo pé direito, que, aliado com as escadarias e vitrais, cria uma sensação de grandiosidade.

 

Professor Calovi e Medicina aos fundos

Fotos: Emílio Chaga

Faculdade de Medicina

Um dos prédios mais monumentais da UFRGS, foi projetado por Theodor Wiedersphan, um dos mais importantes arquitetos alemães da época, responsável por vários outros prédios históricos da cidade. A entrada principal é uma espécie de cilindro, localizado bem na esquina com duas alas que se projetam para as avenidas Luiz Englert e Sarmento Leite. A entrada principal possui três portas, com colunas de ordem jônica, com volutas de cada lado, monumentais. “No resto do edifício são colunas menores e a entrada principal apresenta motivos rústicos na base, janelas curiosas, com motivos de ordem delicada, com um bloco de pedra rústico no segundo pavimento e no terceiro, um motivo totalmente delicado – uma transição do mais rude e sólido que sustenta o resto, até o mais delicado no topo. As alas têm uma terminação diferente”, explica o professor. O prédio foi iniciado em 1912 e completado depois da Primeira Guerra, ou seja, retomado em 1919 e concluído em 1924. Foi um período de perseguição aos alemães, uma das razões porque Wiedersphan não pôde concluir a obra, que levaria cúpulas, como a dos prédios do MARGS e do Memorial do RS, nas duas alas. No interior do prédio sente-se também as restrições que o período impôs: enquanto a entrada e o salão nobre são suntuosos, riquíssimos em detalhes, escadarias com primeiro e segundo lance em mármore, o segundo hall e corredores são extremamente simples e despojados. Embora com grande imponência e luminosidade, principalmente. O prédio foi erigido pela construtora de Rudolph Ahrons, responsável também pela construção da Faculdade de Direito e uma das maiores do começo do século XX, marcando a influência alemã na arquitetura da cidade.

 

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