Porto Alegre como patrimônio imaterial

Entre os mais antigos, sempre há um clima de nostalgia na cidade, especialmente quando envolve o Centro Histórico, uma das regiões que mais sente a degradação urbana e a baixa qualidade dos chamados equipamentos públicos que compõem o seu mobiliário urbano — e, principalmente, o seu patrimônio arquitetônico. Mesmo considerando-se que são outros tempos, muitos concordam que a cidade perdeu muito do seu glamour e charme.

 

CENTRO HISTÓRICO, por Emílio Chagas

Até os anos 1960, a Rua da Praia, nome popular da Rua dos Andradas, por exemplo, era considerada talvez a mais charmosa da cidade. Nela ficavam pontos muitos marcantes, como as suas tradicionalíssimas lojas, a exemplo da antiga Sloper, ou o muito lembrado Café Ryan, sem falar da antiga Editora e Livraria do Globo, que reunia intelectuais de peso da cidade, como os escritores Erico Verissimo, Dyonélio Machado e o poeta Mario Quintana. A rua, desde os seus primórdios, era um dos mais conhecidos pontos de “footing” de Porto Alegre, onde eram feitos os passeios a pé, especialmente das “moças casadoiras” de uma provinciana Porto Alegre. Muita coisa mudou de lá para cá, principalmente o espaço urbano, que expulsou o romantismo e os tempos mais ingênuos. Mas o que faltou? Afinal, grandes centros europeus conseguem manter as suas cidades por décadas sem consideráveis mudanças geográficas que afetem a personalidade e as suas principais características.

 

A valorização dos nossos bens

O historiador Gunter Axt, que recentemente lançou o livro “Porto Alegre — Tradição e arte em receber”, faz algumas reflexões neste sentido. Ele lembra que o Grande Hotel, na primeira metade do século XX, era uma referência arquitetônica e simbólica das mais significativas na paisagem local. Ainda sobre hotéis, lembra o Plaza São Rafael, que, avalia, quando surgiu, “era um colosso, considerado um dos três melhores e mais modernos hotéis cinco estrelas do país”. Lembra, ainda, o Clube dos Caçadores como o mais importante cassino e cabaré do Sul do Brasil: “Tão espetacular que deu origem, mais tarde, aos grandes cassinos do Rio de Janeiro, como o da Urca. Em Porto Alegre, nos anos 1930, nasceu, em restaurantes, o churrasco, iguaria que conquista o mundo. O nosso Mercado Público é um dos endereços do gênero mais pitorescos e interessantes do mundo! Engraçado que as pessoas saem por aí e se embevecem com mercados púbicos em cidades europeias e esquecem do que está ali na esquina: toda vez que levo um estrangeiro ao Mercado Público, a pessoa fica enlouquecida com o espetáculo de cheiros, sabores, cores, em meio a uma arquitetura neoclássica charmosíssima”.  Para o historiador, o que falta é a valorização dos nossos patrimônios locais. E investimentos. Acha lamentável, por exemplo, que até hoje não exista um estacionamento subterrâneo no entorno do Mercado.

 

Porto Alegre de ontem e hoje

Possivelmente, com medidas urbanas desse tipo, a cidade pudesse conviver com o seu passado, sem o que muitos chamam de “passadismo”, ou nostalgia do passado. “Depende da perspectiva do seu olhar. Na sequência de eventos do Fórum Social Mundial, há poucos anos, a cidade se encheu de visitantes como nunca antes e a sua imagem progressista e acolhedora se projetou no mundo inteiro”, afirma o historiador. Ele lembra também a efervescência do Bom Fim dos anos 1980, que fez dele “um dos mais pulsantes bairros undergrounds do mundo”. E também a década anterior, quando a Avenida Independência concentrou a vida cosmopolita cultural de Porto Alegre. O centro da cidade, na sua avaliação, entre os anos 1930 e 1950 foi um lugar de personalidade única, considerando a arquitetura eclética, a população multicultural, “cheio de um glamour meio europeu, meio platino, meio brasileiro”.  Indo mais longe, a Porto Alegre dos anos 1950 era uma usina de conjuntos musicais, típicos da época. Em tempos de Feira do Livro, outro marco referencial dos mais importantes da capital, as evocações e lembranças são muitas. E, também, as inevitáveis comparações que, infelizmente, são amplamente desfavoráveis aos tempos atuais.

 

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