Por que só no inverno?

Enquanto falávamos sobre a cerveja tipo Bock na edição passada, o chef Felippe Sica lembrava a tradição do Mocotó, prato que por essas bandas só é admitido no auge do inverno. Também trouxe receitas de quiche que são garantia de sucesso na mesa.

 

BURGOMESTRE, por Sady Homrich

Concordo com o chef Sica! A gauchada criou regras sem fundamento para alguns pratos e bebidas. Na minha família, de origem pelotense, o mocotó era obrigatório no Dia das Mães, em meados do outono, preparado magistralmente pela vó Hilda.

Confesso que, na infância, achava injusto que ela tivesse dois dias de trabalho para festejar justamente uma data em sua homenagem!  Eu sempre dava um jeito de sair de casa por causa do cheiro do mondongo cozido, depois de ajudar a abrir e ralar os cocos que iriam se transformar na sobremesa. Mas, na hora do almoço, estava a postos observando os mais velhos elogiando a iguaria com a boca lilás graças ao vinho de mesa “Ao Mérito”, de qualidade bastante duvidosa…

Então sugiro acompanhar o mocotó com uma cerveja da tradição germânica, criada em mosteiros nos rigorosos invernos europeus, ainda mais encorpada que as Bocks: as Doppelbocks, com mais malte e teor alcoólico. A primeira menção oficial desse estilo foi da bávara Paulaner, com o nome Salvator, dado pelos monges para o seu “pão líquido”. Hoje há mais de 200 registros com a terminação “ator” (ator) para esse estilo no escritório alemão de patentes.

Seu aroma é repleto e remete a malte tostado, frutas secas, uva passa e ameixa. Possui corpo médio a médio-alto, com leve aquecimento da boca; o paladar complexo lembra frutas escuras e amêndoas graças a uma maturação mais longa, com toque de café no final. Pela tradição, a primeira garrafa só é aberta quando ocorre o solstício de inverno, dando início a Starkbierzeit, temporada onde noites mais longas permitem que cervejas fortes possam ser mais bem apreciadas.

Para impulsionar e garantir essa harmonização, todo ano meu amigo Franck e eu vamos ao Mercado buscar os ingredientes para re-editar a receita pelotense de mocotó, apenas para os fortes, no Espaço Gourmet do Apolinário Bar, onde o bucho, a tripa e a pata são exemplarmente limpos de véspera, antes de ir para a panela com linguiça, paio e feijão branco.  Nessa receita não entram cebola, alho nem tomate. Cada um com sua pimenta. Não tem segredo, só sabor!

Assim como os vinhos, cada ano é único para a Doppelbock. Não perca a oportunidade de degustar a “Safra Inverno/2016”. Segue minha indicação de alguns rótulos nacionais:

 

  • Abadessa Emigrator (7,2% alc) – Pareci Novo/RS;
  • Barco Viúva Negra (7,2% alc) – Forquilhinha/SC – ouro em Blumenau 2015;
  • Alenda Raucheizen Doppelbock (7,7%alc) – Morro Reuter/RS – com malte defumado de trigo;
  • Urwald Doppelbock (7,8% alc) – São Vendelino/RS;
  • Bamberg Bambergerator (8,2%alc) – Votorantim/SP.

 

Essa coluna é dedicada a Darcy Souza de Oliveira, o Paulo Naval, que durante 50 anos anunciou com sua voz possante o “Violento Mocotó” do antigo Bar Naval.

 

Apesar de gostar de mocotó e Doppelbock o ano todo, bom inverno!

 

Abraço do Burgomestre

SADY HOMRICH

Que a fonte nuuuunca seque!!!

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