Pinacoteca Ruben Berta Preservando arte, arquitetura e memória

Centro Histórico, por Emílio Chagas

Pinacoteca Ruben Berta

Preservando arte, arquitetura e memória

Com direito a uma procissão de artistas e apoiadores da arte conduzindo 25 banners com reproduções de pinturas do seu acervo, foi finalmente aberta a Pinacoteca Ruben Berta. Um belo casarão restaurado na emblemática Duque de Caxias, umas das ruas fundacionais da cidade, passará a abrigar obras de Di Cavalcanti, Portinari e Lasar Segall, entre outros mestres da arte.

 

Embora não exista registro da construção (o último é de 1890), calcula-se que o casarão tenha sido erigido por volta de 1850. Em estilo eclético, como muitas casas da época, passou por reformas, abandonando o estilo colonial do início, para ganhar ares mais cosmopolitas mais tarde. Tinha apenas um pavimento, ganhando um porão em 1870, quando a rua foi rebaixada, onde agora  funcionará um pequeno auditório e uma área destinada à conservação dos quadros. Era uma residência, que depois foi abandonada – a última moradora doou a propriedade para o Exército, que não se interessou em ocupá-la, repassando o imóvel para a prefeitura. Restaurado pelo Programa Monumenta, foi entregue à cidade e à comunidade artística, abrigando o acervo doado pelo jornalista Assis Chateaubriand, o Chatô, então um grande colecionador de arte do Brasil. Foi ele também quem doou o acervo do MASP, Museu de Arte de São Paulo. Os quadros foram transportados pela Varig, na época dirigida por Ruben Berta, morto em 1966 e amigo de Chatô – daí a origem do nome da pinacoteca.

 

O restauro do casarão

 

A casa, diz o arquiteto Luiz Merino Xavier, tinha um jardim na sua lateral, varanda, escadas e cozinhas anexas nos fundos. A área nobre (sala de estar)  localizava-se na frente e os dormitórios, onde hoje funciona a parte administrativa da pinacoteca, na parte superior. Uma belíssima porta, seguida de uma escadaria de mármore, levava para a então sala de visitas, hoje uma área privilegiada da pinacoteca. O acervo ficou muito tempo guardado no MARGS, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, e depois no porão da prefeitura. “Uma das surpresas que a gente encontrou nesta casa, e que alterou completamente o projeto de paisagismo do pátio, foi a descoberta de uma cisterna quando se fez a escavação arqueológica do pátio, uma estrutura redonda, uma raridade, a única existente em Porto Alegre”, revela Merino. Em cima do domo da cisterna existe um salão de tijolos de quatro metros de altura, muito bem acabado, que guardava água da chuva, recolhida do telhado por um cano para molhar o jardim e garantir o abastecimento da casa. “Isso mostra que a casa é anterior a 1870, quando a hidráulica foi instalada na praça da Matriz, em 1872”, calcula o arquiteto.

 

A memória de uma época

 

Uma das atrações do espaço será o café, ao lado da escada de acesso para o agradável pátio, que nos seus fundos terá uma área para programação de exposições. O piso original, de ladrilhos hidráulicos, foi refeito, assim como recuperados os gradis. “Foram investidos mais de R$ 2,5 milhões e muitos anos de obra”, informa Merino. Outra aspecto interessante, destaca ele, foi o lixo encontrado. “Naquela época não se recolhia o lixo, que era colocado no fundo dos pátios. Foram encontradas bonecas, caquinhos de porcelana, louças e até um cachimbinho de cerâmica, típico das pretas velhas escravas. Isso mostra que foi uma casa da época da escravidão. Na verdade, é mais do que uma pinacoteca, sendo também uma fonte de reflexão e informação”, avalia o especialista. Dentro deste espírito, revela, deverá ser construído um pequeno memorial com painéis contando um pouco da história desse patrimônio. A restauração, informa o arquiteto, foi bem meticulosa, para manter todos os materiais originais, com reboco a cal, técnica que não se usa mais no Brasil. Merino destaca também a fachada, reformada em  1916, para o estilo francês: “Ninguém mais queria casa com cara portuguesa e todas as famílias mais ricas quiseram fazer o estilo das casas francesas. Assim, a casa ganhou colunas e um belíssimo balcão de ferro, bombé, onde as pessoas se debruçavam”.

 

Uma viagem no tempo

 

O local estará acessível à visitação regular do público, com entrada franca, para apreciação dos quadros que compõem a pinacoteca. Na sede atual, poderão ser exibidos em maior número e em melhores condições. Lá ficarão expostos quadros de artistas de referência histórica como Pedro Américo, modernistas como Portinari e estrangeiros como o holandês Jeronimus van Diest — autor de “Realma”, de 1673, uma das mais antigas pinturas em arquivo público no Rio Grande do Sul. Com elevador para cadeirantes, o prédio, cujo restauro levou seis anos, teve suas cores definidas para fugir do “padrão chamado amarelo-restauração, ou amarelo-patrimônio”, como explica Merino. “Ficamos na sobriedade do cinza, com um jogo de cena bem escuro para marcar os detalhes e um cinza claro de fundo. Isso vai contribuir para que envelheça menos e resista mais à ação da poluição”. Merino também está otimista com a perspectiva da volta do bonde. “Ele saía do Mercado, passava pelo Gasômetro, subia a Duque e descia a Vigário José Inácio. Serão bondes originais que a Carris está restaurando, dois para começar. Um meio de transporte que nunca deveria ter sido desativado, como nas principais cidades européias”. Sem dúvida, um belo e cultural passeio: pegar o bonde para visitar a pinacoteca com o seu valioso acervo artístico.

                                                                                                                                                    

A Pinacoteca Ruben Berta reúne um acervo de 125 obras de artistas brasileiros e estrangeiros. Entre eles se encontram nomes como Pedro Américo, Di Cavalcanti, Portinari, Allen Jones, Alan Davie e Tomie Ohtake. Fica localizada na Rua Duque de Caxias, 973, no Centro Histórico. Visitações de segunda à sexta, das 9h às 18h.

 

Fotos: Emílio Chagas

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