Pesca solidária: todos no mesmo barco

Os pescadores organizados em pequenas e médias associações e cooperativas, buscam a criação de uma rede para se qualificar e enfrentar  com mais estrutura o mercado. Defendem uma gestão compartilhada e acordo de pesca para conter práticas predatórias e garantir o negócio do setor.

O nome do projeto é longo, talvez sinalizando a distância do caminho que ainda tenha que ser feito para atingir seus plenos objetivos: Ações para Consolidação da Rede Regional de Comercialização Solidária do Pescado no Sul do Rio Grande do Sul. O projeto é tocado por uma equipe multidisciplinar, formado por uma pedagoga, um agronômo e um tecnólogo em gestão ambiental, no caso, Ederson Silva, que atua como consultor do projeto. A proposta é reunir pequenas e médias associações de pescadores, cooperativas e montar uma rede para trabalhar, principalmente, a comercialização. Este é o foco central, diz o consultor. Algumas iniciativas já estão em curso. Por enquanto a rede tem como mercado certo, o Governo Federal através do Programa Fome Zero. Mas também buscam o chamado “mercado convencional”. A cooperativa foi fundada em 2003. O campo de atuação não poderia ser mais propício: a região, em Rio Grande, que concentra o maior número de pescadores, de indústrias e também de atraves-sadores. “Existe uma forma de comer-cialização informal que atrapalha bastante e isso acaba dificultando bastante o trabalho das cooperativas”, diz. O fato é que querem de uma forma organizada se inserir no mercado. As associações variam de 300 a 20 associados. O movimento surgiu em 2000, com o RS Pesca, programa do governo estadual da época. Eram políticas públicas incentivando os pescadores a se organizarem para entrar no mercado, facilitar o acesso e o escoamento da produção, como informa Márcio Morales, agrônomo, também envolvido no projeto. Aponta que o grande objetivo era sair do atra-ves-sador, um intruso na cadeia da pesca, que atua principalmente na flutuação entre demanda e oferta da produção. Diz Márcio: “Dependendo da safra, se for grande a oferta, o preço cai. O pescador não tem gelo, não tem como processar, não tem como comer-cializar e aí tem que entregar para o atravessador”.

Enfrentando um mercado competitivo
A partir disto, surgiu a necessidade das cooperativas. E mais, montar uma rede, fazendo a interrelação entre elas. Outra questão séria é do fluxo da produção, que apresenta uma grande variação – problema que a indústria enfrenta com facilidade, pela sua capacidade de escalonamento da produção. Porém, a idéia da rede é contra-atacar disputando a consciência do consumidor que, ao consumir o produto oferecido por ela vai estar consumindo um peixe com mais qualidade e com mais segurança  por ser um produto da pesca artesanal (e legal), com procedência, inspeção e controle de origem. Isto permite encurtar a distancia entre quem está pescando e o consumidor, ao contrário da grande indústria que trabalha em raios muito maiores, raciocina Éderson, reconhecendo, contudo, que a maior dificuldade é manter um preço competitivo. “A consciência do pescador tem que ser analisada num contexto histórico. Antes pescava, ia salgando o peixe e vendia no período da entressafra e aproveitava os subprodutos, oleo do bagre, óleo de peixe. A partir da entrada do parque industrial, passou a haver a necessidade de ter escala na pesca. A indústria passou a demandar o pescado além do que o ambiente suporta”, diz Eder-son. Aí, segundo ele, é que surge a figura do atravessador, que compra para a indústria que, por sua vez passou a pressionar para pescar. Para dar contar desta demanda vale tudo, intensificando-se as práticas predatórias.

Oficinas de conscientização ambiental

    Mas a “rede” não está parada. “A gente tem trabalhado na questão ambiental, com oficinas e formação do pessoal para quem entendam por que não tem peixe. É preciso que entendam que é por causa do sistema que foi implantado”, diz Ederson. Dá como exemplo a bacia de captação da Lagoa dos Patos, onde os efluentes e poluentes foram dizimando os peixes. E também da Lagoa Mirim, onde a drenagem feita pelos arrozeiros também teve os mesmos resultados desastrosos para a pesca e ao meio ambiente. Também o sistema de pesca industrial aumentou seu poder de fogo, com embarcações de grande porte, com grande capacidade de autonomia para ir mais longe e enfrentar temporais, podendo passar de 15 a 20 no mar. Mesmo assim, com a escassez do peixe na costa devido à pesca predatória, entraram na Lagoa com mais de 50 barcos, informam. O que falta? Controle, fiscalização, gestão, afirmam. E descartam a piscicultura como alternativa. “Isto é assinar o atestado de incompetência da gestão. O ambiente se recupera. É preciso um processo de gestão compartilhada, acordo de pesca. Teoricamente hoje a gestão é compartilhada, mas na prática é centralizada. O IBAMA fiscaliza e decide como pode e onde pode”, diz Ederson.

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