João Fernades da Costa: Um especialista em tirar chope

João Fernandes da Costa: Um especialista em tirar chope

Ele se diz um especialista em tirar chope – 47 anos atrás do balcão. Trabalhou desde os 14 anos, “com responsabilidade”, gosta de frisar. Saiu da escola e se “agarrou  no rabo de uma enxada e de um arado”, trabalhando na agricultura com azeitona, batatas, fazendo enxertos de árvores. João Fernandes, o conhecidíssimo João Português, o timoneiro – mor do centenário Bar Naval, conta a sua história.

     Chegou ao Brasil em 1958 e foi trabalhar no restaurante de um irmão na Cristóvão Colombo. Um ano depois já estava no Café Soberano no Mercado Público. Também trabalhou no bar Três Forquilhas, antes de se estabelecer no Naval em 1961. Lembra da famosa história da proibição de vender bebidas de álcool em 1963/64 por conta de um projeto de lei do vereador Say Marques, que visitando a feira noturna no entorno do Mercado viu uma garotada dizendo alguns palavrões. Felizmente a insana lei não durou muito: como o local, assim como o Chalé da Praça XV, era muito freqüentado por magistrados começou a ser relaxada. Até que um dia  João fechou o Naval. A partir daí entrou em ação o assessor jurídico da Prefeitura que levou o assunto para o então prefeito Alceu Collares, que por sua vez mandou abrir as portas. E sugeriu a João que fizesse um abaixo assinado junto com outros colegas do Mercado que estavam também sendo prejudicados. 

     João orgulha-se de ter preservado a história do Naval, quando na reforma mudou muito pouco o bar e sempre manteve o centenário bar com suas características próprias e originais. Destaca também a sua atuação na briga contra a SUNAB que não queria que o preço do carreto não entrasse nas despeças da bebida, apesar de nem todos os donos de bar do Mercado cumprirem o acordo de cada um não cumprir a determinação. Outro episódio que João lembra e gosta de frisar é sobre a tentativa de demolição do Mercado. Quando ele ouviu uma notícia na Rádio Guaíba, no Repórter Esso, que 20 gaúchos que residiam no Rio de Janeiro que, quando souberam que iam demolir o Mercado se reuniram e foram a Brasília. Ali João teve a certeza de que o Mercado não seria mais demolido. “Aqui, até então, ninguém havia feito nada – nem vereador, nem deputado, nem ninguém”, afirma. E diz mais: “Pode dizer aí que hoje o Mercado só está tombado como um patrimônio graças a essa atitude desses porto-alegrenses residentes no Rio de Janeiro. E nenhuma empresa publicou nada.”

“O Naval é hoje um pedaço da história do Mercado”

     “O Mercado tem sido a minha vida. Criei minhas filhas aqui dentro, casei. Me sinto hoje realizado e feliz por tudo isto que vivi aqui.” Para ele o respeito vale mais que o dinheiro e a palavra vale mais ainda. “Se eu der a minha palavra não precisa assinar. Sempre a honestidade acima de tudo. Isto eu ensinei para as minhas filhas e minha patroa”, diz.  Sobre os 47 anos de Bar Naval, completados dia 1º de abril,  o velho português diz que tem muitas alegrias, mas que o maior prazer foi ter preservado um pedaço da história do que é hoje o Naval. Ele acha que o Mercado deveria ter sido restaurado e não transformado, como também lhe disse há poucos dias um jovem freqüentador no balcão do Naval. Também cita o exemplo de um conhecido que disse que não ia mais ao Mercado, porque lá “só encontra vento”.  Ele acha que uma 1/4 parte do Mercado está ocioso, e “está às moscas”. Lembra que antes em cada portão trabalhavam quatro comerciantes. “A banca central que era histórica, por que tiraram? Aquela parte onde acontece a Feira Escolar, que só é ocupada umas 10 vezes durante o ano, o resto é sempre vazio. O espaço das bancas? Não tem um depósito para guardar as mercadorias, cinco pessoas já enchem cada uma banca e o resto tudo vazio.” A parte superior também, para ele, também está ociosa. Em síntese, o velho Timoneiro acha que a reforma tirou a essência do que era o Mercado. Por isto ele gosta de repetir: “Eu preservei um pedacinho do Mercado, porque tive pressão e oferta para modificar isto aqui. Se eu tivesse aceitado, o Naval não seria mais o Naval, seria como todos que estão”.

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