Personagens

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Carlos Jenecy: barba, cabelo e bigode no Mercado, há 50 anos

 

Muitos talvez não saibam que o Mercado possui uma barbearia, principalmente os que não passam do primeiro piso. Mas ela está lá, há mais de 50 anos, nos chamados “altos do Mercado”. Tempo suficiente para o barbeiro Carlos já ter visto muitos clientes perderem ou embranquecerem os seus cabelos. Prestes a se aposentar, ainda fica até 10 horas “em pé, na volta da minha cadeira”, como diz. Já cortou o cabelo de muita gente famosa, políticos como Olívio Dutra e jogadores de futebol. Só para se ter uma idéia da fidelidade dos seus fregueses, uma vez um deles passou um ano e meio na Bahia, sem nunca ter cortado o cabelo. Quando voltou, foi direto na barbearia de Carlos Jenecy.

 

Ângelo Bessa de Souza, Padaria Copacabana: O Mercado foi a minha universidade

 

O jovem português chegou ao Brasil com 17 anos, enviado pelos pais para que não fosse para as guerras portuguesas nas colônias africanas – de onde muitos jovens voltavam mutilados, com malária ou mortos. Trabalhando em padaria, o garoto pegou no pesado, sábados, domingos e até feriados. Lembra dos bons tempos, não só do Mercado, mas de Porto Alegre também, com seus bondes e uma movimentada vida noturna. Hoje, com mais de 50 anos de Mercado, sente-se realizado, embora ache que atualmente exista mais rivalidade. “Antes havia mais confraternizações, convívio, aniversários e casamentos. Acho que existia mais união”, afirma.

 

 

Reni João Groff, Rancho Gaúcho – Tudo o que a gente tem, deve agradecer ao Mercado

 

De Gramado Xavier para o mundo do Mercado. Depois de um dia inteiro de viagem, em 1958 aportou no Mercado, de onde nunca mais saiu nos 50 anos seguintes. Sempre trabalhando com erva mate, João se consolidou no Rancho Gaúcho, depois de décadas de muito trabalho. O que gostava mesmo, diz, era de atender os clientes. “Sou quieto, mas na hora da venda não escapava ninguém. Difícil alguém sair sem levar alguma coisa”, diz. E, para aumentar a renda, também tinha uma fruteira no antigo Mercado Livre, trabalhando da uma da tarde às 10 da noite, uma das razões pela qual não pôde estudar. “O que aprendi foi atrás do balcão”.

 

 

José Antônio Pires da Silva, Restaurante Havana – Minha vida é dentro do Mercado

 

Sua história é semelhante a de muitos outros no Mercado: começou cedo, trabalhando com o pai de origem portuguesa. O início, porém, foi com o Café Progresso, um café especial, considerado muito bonito na época, que existia no Mercado. Anos mais tarde, o Zé do Havana, como é mais conhecido, partiu para o negócio próprio, comprando o Havana, com o então sócio Alcino Loureiro. Dos tempos antigos, lembra que o porto era bem ativo, e o ponto não era muito familiar. “Mas nada perigoso, era até mais tranqüilo que hoje. Não se via um pivete com arma na mão, era só batedor de carteira”, recorda.

 

 

 

José dos Santos Loureiro, Bar e Restaurante Santa Cruz – O Mercado foi a primeira casa dele

 

A história dele é semelhante a de muitos portugueses no Mercado: chegou cedo, com pouco mais de 20 anos e uma vida de muito trabalho. No caso do jovem José, tudo foi muito rápido: de cozinheiro logo passou para a parte da frente do restaurante e, em seguida, já era sócio. Infelizmente, depois de três infartos, ficou preso a uma cadeira de rodas, com dificuldades de falar, o que é uma lástima: certamente teria uma rica história para contar. Mesmo assim, o JM resgatou parte das suas vivências no Mercado, com o auxílio da sua esposa Matilde e de um dos filhos, Marcos.

 

 

  

Ildo Pozzebom, Açougue Pozzebom – O Mercado foi uma escola de vida para mim

Ele veio para o Mercado em 21 de julho de 1980. “No outro dia já estava trabalhando”, diz, orgulhoso. Ildo acabou vindo para o Mercado por insistência de Luiz Salami, mercadeiro que trouxe muitos outros para o Mercado. Sempre trabalhando com açougue, o jovem da cidade de Progresso, logo também progrediu, passando a ter o seu negócio próprio. Era a época dos açougues em grande número no Mercado – mais de 20, contra os sete de hoje. Atribui à queda dos números aos supermercados e aos muitos açougues que foram abrindo nos bairros da cidade. O Mercado, para ele, hoje está melhor, mais limpo e seguro.

 

 

 

  

Deomiro Salami, Restaurante Mamma Julia – Eu não sabia nem o que era cidade

 

“Se o trabalho matasse, eu estaria morto”, diz o bravo Deomiro, que teve uma trajetória muito movimentada no Mercado, passando por várias bancas e ramos de atividade. Enfrentou grandes dificuldades, como a reforma do Mercado, quando se sentiu prejudicado nas mudanças de realocação dos espaços das bancas. Também os períodos de escassez da carne e da rigorosa vigilância da SUNAB, a famigerada Superintendência Nacional de Abastecimento. Mas, com persitência e trabalho, venceu. Morando em um sítio em Guaíba, numa confortável casa, com açude, piscina, plantas, cheirinho do mato, diz que deveria ter parado há muito tempo. O Mercado? “Significa tudo o que sou e tenho hoje”, resume.

 

 

Arnélio de Paoli, Agropecuária De Paoli – No Mercado, só tenho amizades

 

Ele está no Mercado desde 1959, de Boqueirão do Leão, onde andava a cavalo e ia nos bailes nas domingueiras. Com vontade de crescer, logo já tinha sociedade na Banca 46. E daí em diante, não parou mais. Encorajado pela esposa Gladis, começou uma vida empreendedora no Mercado, comprando bancas, trabalhando com secos e molhados, fruteira, artigos religiosos, açougue, até se decidir, finalmente, pelo o atual ramo, agropecuária. No início vendia até animais, porco, galinha, rato branco e outros. Hoje, limita-se à ração para cães e gatos, uma das primeiras no gênero, tanto no Mercado, como na cidade.

 

 

 

Fiorindo Alves de Miranda, Banca 40- Uma vida no Mercado

 

O lajeadense de 19 anos veio para Porto Alegre em 1965, trazido por amigos. Começou na banca 44, que era de Manoel Martins, também proprietário da lendária Banca 40 – para onde Fiorindo foi mais tarde, em 1979. E lá ficou, até hoje. “Era fila, da manhã à noite”, recorda. Mais ou menos, como é hoje, principalmente nas estações mais quentes onde todos vão atrás dos sorvetes, saladas de frutas e caldos. Convivendo com clientes famosos e anônimos, ele é uma espécie de “faz tudo”, participando e acompanhando todos os processos. Para ele, o Mercado é parte da história de Porto Alegre.

 

 

 

 

Paulo Roberto B. Rodrigues, Armazém do Mercado – O Mercado hoje é um shopping, perto do que era

 

Trazido pelo pai, que era um paleteador de carne no Mercado, Paulo passou por açougues, até chegar no ramo dos então chamados secos e molhados. Não tem dúvidas de dizer que o Mercado estava no seu destino. Quatro décadas depois, acha que o Mercado está muito melhor, mais bonito, organizado e limpo – perto do que foi. “Antes era uma buraqueira, lixo atirado pelos cantos, com ratos e gatos à noite”. Aos 59 anos, diz: “Minha vida está toda aqui dentro. Gosto de estar onde tem público. Quando estou em casa, no fim de semana, fico louco, querendo que chegue logo segunda-feira”.

 

 

 

Cezar Brandão, Propesca: Comecei e vou terminar no Mercado

 

Assim como muitos, ele veio para o Mercado através de um amigo, quando os tempos eram mais informais. Dos velhos tempos, lembra ainda do antigo Mercado Livre, que estava sendo demolido. E do grande movimento, muito maior do que hoje, na sua opinião. Trabalhou, praticamente, a vida toda com peixe, ensinando o ofício a muita gente, inclusive irmãos. Acha que hoje o Mercado está mais light, modernizado, parecendo um shopping. Depois de 40 anos, não pensa em parar. “Se sair daqui não sei fazer mais nada. Comecei no Mercado sem filho. Hoje sou pai, avô, tenho minha casinha própria e meus filhos com saúde, cheguei a um bom patamar”.

 

Fotos: Fabício Scalco e Letícia Garcia

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