Personagens

Personagens

 

 Uma das mais consagradas seções do Jornal do Mercado, Personagens registrou importantes relatos de bravos e pioneiros mercadeiros, protagonistascentrais da história do Mercado Público. Veja:

 

Jorge Alberto Bueno de Oliveira,Vovô: O Mercado é minha segunda casa

     71 anos, boa parte deles vivida na  noite de Porto Alegre e no Mercado Público. Um dos mais conhecidos garçons do Mercado, Jorge Alberto Bueno de Oliveira, o Vovô, como é conhecido, teve idas e vindas. No Gambrinus está desde 1966, ao lado de Zezinho, outro conhecido garçom, com 40 anos de casa. Foi levado para o restaurante por Antonio de Melo, o falecido dono, de quem se considerava um irmão. “Nunca foi patrão, era um amigo. Tranqüilo e bonachão”. Diz que não teve e não tem inimigos. “Se tiver quero que apareça”, brinca. O conselho para quem quer seguir a profissão dele é simples: “Tem que gostar do que faz, atender bem o cliente, bater um bom papo, nunca dar as costas para ele. Tem que ser ágil, esperto, atento quando o cliente está entrando. Se não for assim, nem adianta querer começar.” 

 

 

 

 

 

 

 

Manuel Carvalhal: O Mercado faz parte da minha vida.

     Chegou com 17 anos no Brasil, vindo de Portugal. Como muitos imigrantes, veio com a Carta de Chamada, direto para o Mercado, para trabalhar no Café Municipal. Este é o “brincalhão responsável” Manuel Celestino Azevedo Carvalhal, 66 anos, nascido em Benavente, cidade a 45 km de Lisboa.  No Mercado sempre foi muito bem visto e com o apoio da família. Esteve na diretoria da ASCOMEPC pelo menos em três gestões, como secretário, tesoureiro e vice -presidente. “Sempre tive um espírito de coletivismo, sindicalista. O Mercado faz parte da minha vida, sou daquelas pessoas que onde vai sempre procura os mercados públicos para ver como é o comércio. Um shopping não me atrai tanto como o mercado, onde a comercialização é mais simples e mais bonita que um shopping todo cheio de luzes, sofisticado”, compara. 

 

 

   

 

 

Cláudio Costa da Silva: Temos que ter orgulho de ter uma banca no Mercado.

     Ele viveu os tempos das primeiras peixarias, passou por reformas, mudanças de ramo de negócios, cresceu e amadureceu no Mercado. Com o esforço construiu amizades, patrimônio e, principalmente, uma boa família. Por tudo isto, tem muito orgulho e gratidão ao Mercado, onde começou com 10 anos de idade. A peixaria não foi por acaso; o pai primeiro foi pescador, depois abriu outra peixaria na antiga “Coréia”, onde ficavam os que vendiam peixes em mesas de pedra. E o peixe era pescado pela própria família, vindo da Lagoa Mirim, Tapes, Jaguarão e São Lourenço. O pai tinha barco de pesca e teve até quatro caminhões para transportar o pescado. Cláudio, que foi um exímio fileteador, posteriormente mudou duas vezes de ramo de negócio: trabalhou com verdura e frutas e finalmente instalou sua flora, onde está até hoje.

     

 

 

 

Vilson José Boca: Quero curtir a vida, sem esquecer do Mercado.

     Com a proibição do trabalho infantil, hoje o menino Vilson não teria entraria no Mercado, em 1954, com 10 anos para fazer os pesados serviços nas bancas por onde passou. “Com 11 anos eu levantava um saco com 60 kg de mantimentos. Comecei na Banca 14. Começava às seis da manhã e ia até às oito da noite”. Passou por muitos lugares no Mercado, mas sua história é marcada pela Banca do Holandês, onde trabalhou grande parte da sua vida. O Mercado era ainda de chão batido e a entrada das bancas com lonas amarradas com cordinhas. “Ninguém mexia em nada”, garante. Depois que saiu da Banca do Holandês, ficou oito meses fora e quando voltou foi para o Empório 38, onde está há três anos. “A saudade dos fregueses não me deixou ficar em casa. Adoro trabalhar nesta banca. Sou conhecido em vários lugares, os clientes me apertam a mão, chamam pelo nome”.

 

 

 

   Arnildo Marqui:  O Mercado é uma extensão da casa da gente. 

     Ele começou quase que por acaso no Mercado Público, em meados da década de 60. Mas o acaso, na verdade, se revelou um destino. Como ele mesmo diz, quem entra e gosta, nunca mais sai. Ele próprio, aposentado, já poderia estar em casa. Mas pelo amor, paixão, convivência com o Mercado e décadas de balcão, quando fez clientes que se transformaram em amigos, Arnildo Marqui, 60 anos, continua a trabalhar. Está no Mercado desde os tempos em que muitos clientes pediam as mercadorias em alemão, principalmente na Banca 43 e do Holandês. Para os novos recomenda muita responsabilidade e convicção de querer trabalhar. “Ele representa o meu sustento, o meu lazer e tudo o que eu tenho foi o Mercado que me deu”, diz o guerreiro.

 

 Deolino Gueno, uma vida dedicada ao Mercado. 

     Nascido em 1931, este lajeadense relembra muito bem toda a sua longa trajetória de mais de 50 anos de Mercado. Muito trabalho, como não podia deixar de ser, assim como amizade e solidariedade. “O Mercado era uma irmandade, um ajudava o outro. Hoje é cada um por si”, afirma. Tem muita gratidão pelo MP. Foi com ele que criou sua família de cinco filhos, frutos do seu casamento com sua esposa Edy, desde 1958.  Das lembranças, recorda das boas relações patrão/empregado, de amanhecer e anoitecer no Mercado, da freguesia dos “grandes” nas bancas 43 e do Holandês (“os armazéns eram mais o povão”), de carregar ranchos e mais de 300 cestas no natal na Banca 14, dos incêndios, dos bailes com os amigos, da boemia do Treviso, das primeiras peixarias e do balcão de pedra.

 

   Leoci Pereira, o Tio Hélio, 64 anos:Pra mudar, não tem idade.

     “O Mercado para mim é minha segunda casa. Acho que todos os mercadeiros, 90% da vida deles é aqui dentro. Qual tempo que eu fico na minha casa? Só o domingo. E isso há muitos anos, desde que eu estou no MP, assim como muitos outros. Então o cara tem que adorar o Mercado para estar aqui”, diz ele, que levanta todos os dias às 5, chega às 6 horas e sai às 19h30. Mas já pega mais leve.  Para ele o Mercado é feito de lutadores, sem hora para trabalhar. “90% do pessoal do Mercado, sem medo de errar, vem de família pobre. Se fizeram aqui e tem que agradecer ao Mercado, mas é muito trabalhoso”.

 

 Dessa Kolesar, a Madrinha do Mercado 

     Ela veio da Croácia, em 1959, com apenas 21 anos, a filha Jasna nos braços, sem saber falar português, para trabalhar direto no Mercado Público. Claro, estranhou muito o novo lugar e novo país, mas logo rendeu-se ao seu estilo de vida. Aqui teve mais duas filhas, Cláudia e Fernando, e assimilou os novos costumes, inclusive das religiões africanas. Dona da Flora Kolesar, ela diz: “Aqui não te olham de uma maneira diferente se você não é brasileiro. O importante é respeitar e não tem discriminação no Brasil. Por isto me apaixonei. Reconheço, sou muito grata, o Brasil é de um coração deste tamanho. Se souber conversar com um ladrão ele é capaz de até chorar contigo”, avalia.

 

  Oscar Endres: Vou sentir mais saudades dos clientes do que da loja.

     Nos 57 anos de Mercado, ao contrário de outros que estão há décadas no Mercado, Oscar Endres começou e terminou sua carreira num único lugar, a sua querida Banca 43, uma das pioneiras em especiarias no Mercado Público. Chegou em 1954, aos 21 anos. Casado com Dona Tília há 51 anos e com 78 anos, ele está em fase de transição, passando o bastão para uma nova geração. Seu único desejo é que sua clientela de amigos continue sendo bem tratada. Sobre a chegada das especiarias, ele conta: “As pessoas começaram a conhecer produtos importados e passaram a pedir. Os importadores aumentaram muito o fluxo de mercadorias importadas e com preços competitivos”.  Entre estes produtos, vinhos argentinos, presunto Parma, Serrano, geléias, sardinhas portuguesas e espanholas, chás, filé de anchova, azeites italianos, portugueses, arenque holandês, etc.

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