Pedro Ortaça – Canto missioneiro

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Para o mês dos gaúchos, nada mais nobre do que trazer a história de um dos troncos missioneiros da música regional. Ao lado dos colegas Cenair Maicá, Jayme Caetano Braun e Noel Guarany, Pedro Ortaça transformou a visão sobre a música gaúcha nos anos 60 ao valorizar temas como a identidade e a raiz missioneira, as injustiças sociais e os costumes nativos, marcando a consolidação da “música da terra” no estado.

Fotos: Letícia Garcia

“Comecei a agarrar uma guitarra aos 12 anos”, conta Ortaça. “Meu avô Quintino tocava muita cordeona e minha mãe também tocava gaita de oito baixos, de botão. Este dom vem de natureza, e a gente nasce com o amor pela querência. Então procuro passar na música a nossa cultura do Rio Grande do Sul, nossas raízes, as coisas lindas da nossa terra, o que faço com muito amor e carinho”. Com 15 CDs na carreira e um DVD gravado em terras missioneiras – passando por sua cidade São Luiz Gonzaga, além de São Borja, Santo Ângelo e São Miguel das Missões, em especial as ruínas de São Miguel –, Pedro Ortaça hoje sobe aos palcos com o mesmo canto e a mesma convicção de 50 anos atrás. 

 

Timbre de Galo

Mais de 120 músicas ganharam o estado na voz de Ortaça. Entre elas, as conhecidas “Timbre de Galo”, “Décima do Sorro”, “Bailanta do Tibúrcio”, “Campeando o Boi Barroso”e “Guasca”, que carregam seu clamor pela valorização dos costumes nativos. “E importantes são os poetas, componho junto com eles”, salienta. “Muitos já partiram desta querência, grandes poetas que enriqueceram a cultura do Rio Grande do Sul através de suas poesias e músicas. Tive a honra de ser parceiro de José Hilário Retamozo, Jayme Caetano Braun, Aparício Silva Rillo, Vaine Darde, Carlos Cardinal e tantos e tantos outros tauras de que o Rio Grande se orgulha por sua sensibilidade de cantar a nossa terra, assim como eu”. Por seu trabalho, Ortaça já foi muito premiado, inclusive com o Prêmio Vitor Mateus Teixeira (Teixeirinha) da Assembleia Legislativa, em 2006, e o título de Mestre da Cultura Popular no Prêmio Culturas Populares/ Mestre Humberto Maracanã do Ministério da Cultura, em 2008. As canções que entoa referem-se a uma história de centenas de anos que hoje constitui traços do nativismo.

 

De guerreiro a payador

As letras embaladas por gaita e violão falam de uma herança vinda dos índios, da terra colorada da região missioneira. “Temos que nos orgulhar das Missões, porque antes de existir Rio Grande, antes de existir Brasil, antes de existir Argentina, Uruguai, Paraguai, já existia o missioneiro”, defende. “Nós temos mais de 400 anos de história, é muita raiz, muita cultura. E este povo que existia no Rio Grande do Sul era o verdadeiro dono da terra. Viviam felizes, irmanados, dividiam entre si, não tinha tanta ganância como hoje. Nós procuramos passar essa mensagem para as gerações e por isso cantamos deste jeito, desejando tudo de melhor para nosso povo, de toda a América Latina”. A voz de Ortaça levou este canto a diversos estados e a países vizinhos, consagrando a música missioneira ao lado de seus companheiros Maicá, Braun e Guarany e ultrapassando fronteiras.

 

Foto: Letícia Garcia

Herança missioneira

Hoje o payador e violonista canta com os filhos Alberto, Gabriel e Marianita, que seguem carreira ao lado do pai. “É uma alegria imensa e uma satisfação muito grande saber que eles também amam o Rio Grande e têm o dom da música, o dom da poesia e do canto, e que vão continuar cantando o Rio Grande como tantos jovens da nossa terra que amam nossas raízes”, orgulha-se. “E temos que conservar as raízes, porque nós, dentro desta pátria grande que é o Brasil, temos uma cultura própria, um canto diferente, até porque temos divisa de fronteiras com outros países – somos irmãos da Argentina e Uruguai. Até podemos dizer que somos uma pátria dentro de outra pátria maior”, diz. “A cultura gaúcha é a nossa história, é a nossa gente, é o amor pela querência”. Resgatando as vivências missioneiras, a obra de Pedro Ortaça deixa viva a memória da terra e dos antepassados, como diz o refrão de “Timbre de Galo” (Pedro Ortaça/Aparício Silva Rillo): “Rio Grande, berro de touro/ Quatro patas de cavalo/ Quem não viveu este tempo/ Vive esse tempo ao cantá-lo”.

 

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