Paulo Roberto Bittencourt Rodrigues: “O Mercado hoje é um shopping, perto do que era”

A relação dele com o Mercado começou através do seu pai, que era carregador no Mercado. “Naquele tempo se chamava paleteador de carne e, então, ele conhecia todo mundo dos açougues”, conta. Na época, o então jovem Paulo Roberto comprava frutas, laranja principalmente, junto com amigos, na Ceasa e saía  a vender pela cidade de carroça, ganhando os seus “troquinhos”. Enquanto isso, o pai tentava ver alguma coisa para ele nos açougues do Mercado. Um dos seus amigos de Ceasa também conseguiu um emprego de ourives em uma loja no centro da cidade.

Foto: Fabrício Scalco

Foi uma coincidência: no mesmo dia vieram duas propostas de emprego; o pai havia, finalmente, conseguido uma vaga, enquanto o amigo também tinha outra oferta. Não teve dúvidas em optar: falou para o amigo que o pai já tinha dado a sua palavra e ele não iria descumpri-la. Agradeceu e veio trabalhar no Mercado. Lembra, até hoje, exatamente o dia: nove de agosto de 1971, um sábado, quando entrou no açougue de Guido Martins Giulian. Ele já conhecia alguma coisa do ramo. “O pai entregava carne e, quando sobrava alguma coisa, ele desossava e fazia charque”. Depois de um dia de trabalho o patrão lhe deu uma “mixaria” e pediu que ele aguardasse. Uma semana depois, lá estava, de avental e paramentado para encarar o ofício de açougueiro. Dessa época lembra que as bancas (antes da reforma) eram fundas, com uns 15 metros de profundidade, por três, quatro metros de largura. Balcão frigorífico não existia. “Era balcão seco, de inox. Cortava a carne e jogava pra cima, tinha um vidro na frente para o freguês não botar a mão, sem nada de refrigeração, que era só na câmara fria”, recorda.

 

Virando chefe do açougue

Em pouco tempo ele já estava exercendo várias funções no açougue, principalmente quando a equipe estava reduzida e um dos açougueiros se cortou. Resumindo, teve que assumir a função da desossa. “Quando cheguei o homem estava bem louco, só o peixeiro e um monte de carne na gancheira. O homem falou: te anima a pegar o açougue e desossar? Então te atraca. Cortei que nem minha cara. Dianteiro é fácil, tira a paleta, a agulha, o peito e pronto. Mas o traseiro é muito mais difícil, tirar o filé, a chuleta,  o osso do alcatre. Nunca tinha feito sozinho. Tirei o alcatre sem rabo, ficou no patinho, azar”, conta, divertido. Logo se tornou chefe do açougue. Mas eis que aí o dono resolveu vender para os irmãos Salami, Luís, Dálcio e Delmiro. Questionado por Luís Salami se gostaria de continuar, seguiu na banca, junto com os novos açougueiros que chegavam. Como eram duas bancas, 20 e 24, ficava se revesando entre uma e outra, até dar um ultimato no chefe: ou numa, ou noutra.

 

Mudando o ritmo de trabalho

O fato é que ele seguiu na 20, até que um colega, José Russowsky, que havia deixado a banca, indo para o açougue Madri o convidou para fazer o mesmo. Pelo horário e condições de trabalho, mais salário e até intervalo para tomar café da tarde, que não tinha, nem pestanejou. E para decidir mesmo, ainda teve um desentendimento sério com Luís Salami.  Resultado: dias depois estava se apresentando para Emilio Toniolo, o novo patrão. “Na 20 eu trabalhei 10 meses e não folguei um domingo, era de segunda a segunda. Na outra, trabalhava um domingo sim, outro não”, diz. Os açougues trabalhavam bem, mas também sofriam com as crises, principalmente com a entressafra, quando a carne escasseava, além da rigidez dos preços tabelados pela SUNAB, Superintendência Nacional de Abastecimento. Foi o período da importação da carne congelada da Rússia, inclusive a contaminada de Chernobyll, dispensa de funcionários e crise – e seu patrão também sucumbiu, vendendo a casa para Manoel, Silvino e Rafaele Rosito, no fim dos anos 80. Durante a reforma, Manoel comprou a parte dos outros dois sócios, trabalhou ainda mais um ano com açougue, fechou e trocou de ramo. 

 

Nova banca, nova realidade

Na nova banca, de secos e molhados, onde continuou como gerente, teve um aprendizado difícil. “No açougue tem um balcão entre o funcionário e o cliente. No armazém a gente está no corpo a corpo com o cliente, é outro tratamento e de atendimento, é muito mais cansativo, se der movimento, tu não para”. E para complicar, em 2009 operou a coluna, não pode fazer força, tem que ficar mais no caixa, mas pelo hábito, não consegue trabalhar sentado. Assim, o garoto que veio de Pelotas com o pai, aos 11 anos, filho único, vai cumprindo a sua história de Mercado, ele que começou a trabalhar com 18 anos. “Nem tanto por necessidade, o pai sempre foi um cara girador, mas eu não me sentia bem em depender dele, sempre arrumava um esquema para ter o meu dinheiro”, diz. Pai de dois filhos, Ana Paula e Paulo Roberto, tem boas lembranças, mas não sente saudade dos tempos antigos e do que passou. Acha que o Mercado hoje está muito melhor. “Antes era uma buraqueira no meio do corredor, lixo atirado pelos cantos, cheio de ratos e gatos de noite, um mau cheiro terrível”. Para ele, prestes a fazer 59 anos, essas quatro décadas de Mercado representam muito. “Minha vida está toda aqui dentro”. Por isto, é difícil acostumar a ficar longe do Mercado. “Gosto de estar onde tem público. Quando estou em casa fim de semana, fico louco, querendo que chegue logo segunda-feira”, diz. Para voltar para o Mercado, claro.

 

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