Paulo Roberto Amaral: “Os clientes também fazem parte da família Mercado”

Nascido em Porto Alegre, em março de 1956, casado, três filhos (e uma filha falecida), Amaral chegou ao Mercado Público em 1974, através do cunhado Reinaldo Serafim, conhecido como Garrincha, que trabalha na Banca do Holandês. Depois de décadas e muitas bancas no Mercado, hoje já está pensando em se aposentar.

Foto: Leticia Garcia

Tinha apenas 13 anos, mas já trabalhava numa empresa de montagem de fogão, além de distribuir gás pela Minasgás. Começou cedo, para ajudar os pais, a quem entregava todo o dinheiro que conseguia. Quando completou 15, então, veio o convite: “‘Quer ganhar uns troquinhos a mais? Vou te levar para o Mercado, onde o pessoal trabalha no meio do povão’. Aí, vim trabalhar e ele [Reinaldo] me ensinou muito. Eram as bancas 6 e 7, hoje é a Banca Central, onde trabalhei quase cinco anos”, recorda. A partir das suas vivências, foi conhecendo gente no Mercado, como Dessa e Mário Kolesar, por exemplo, donos da Flora Kolesar, Banca 45. “Eles gostavam muito de mim e me convidaram para trabalhar na banca. Lá fiquei mais dois anos.” E isso era apenas o começo. Pela proximidade com a Banca 43, acabou se aproximando de Cláudio Klein, um dos antigos sócios da banca de especiarias. O convite foi inevitável. “Comecei limpando baldinho de chimia, no balcão, e fui me entrosando e aprendendo.” Lá ele ficou praticamente 22 anos, de 1980 a 2002.  Depois disso esteve um tempo fazendo “bicos”, sobrevivendo do seguro-desemprego. Mas o Mercado continuava no seu destino. Numa das vindas ao seu velho local de trabalho, para comprar peixe, acabou recebendo outro convite. Desta vez de Manoel Carvalhal, dono do atual Armazém do Mercado, que na época era uma casa de carnes. Assim, em 2005, voltou a conviver com o velho mundo mercadeiro.

 

De banca em banca, fazendo uma trajetória

Mas o Armazém do Mercado ainda não seria o seu destino final no Mercado: acabou fazendo um acordo e saiu. Mais uma vez, o cunhado abriu novos caminhos para ele. Desta vez, a porta que se abriu foi na Banca do Holandês, onde o sócio Sérgio Lourenço solicitou sua presença – e serviços. “Ele falou: ‘não vou te dizer nada – sobe aqui comigo’. Aí me deu os fardamentos e disse novamente: ‘tu sabes o que tem que fazer, tu és profissional, desce, vai atender e trabalhar. Depois a gente conversa’. Foi bem assim.” Os novos colegas ficaram surpresos quando ele demonstrou toda a experiência que já havia adquirido em 22 anos na 43, principalmente em fatiar frios. Lourenço seguiu para a banca Empório 38 e Amaral acompanhou esse movimento. Em março de 2008 estava de casa nova, onde faz até hoje o que mais gosta: atender no balcão, função pela qual se declara apaixonado. “Chego de manhã, monto o balcão e depois começo a atender. Muitos clientes comentam: ‘bah, tem que ser que nem o seu Amaral, que tem o marketing de usar crachá’”, diverte-se. “Os cliente gostam de comprar comigo, são fiéis e assíduos.” E neste aspecto ele tem muitas histórias para contar, como o caso de um casal que estava só olhando o balcão e Amaral, então, lhes ofereceu uma provinha de queijo para degustação. “Acabaram fazendo umas comprinhas. Eram namorados, noivaram, casaram e compram na banca até hoje.”

 

Lembranças

Com todos esses anos, naturalmente ele tem muitas lembranças. Principalmente dos bons tempos dos campeonatos de futebol e das festas na Casa de Portugal, que eram uma grande tradição dos mercadeiros. Um momento de confraternização, quando todos levavam suas famílias, com muitos churrascos e distribuição de brindes. “A gente trabalhava o ano todo e depois tinha esses torneios. Pena que isso terminou – os mais antigos já faleceram, outros deixaram de lado, esqueceram. Não sei o que houve, simplesmente acabou. Tenho boas lembranças disso tudo.” Também lembra-se de quando cuidava das filhas, hoje adultas, de alguns donos de bancas, como a Martini e a Flora Kolesar. “Eu dava enroladinhos de presunto e refrigerante para elas. E até as levava para fazer lanches na então lanchonete Pan-Americano e depois ‘devolvia’ para os pais.” Bonachão, sempre fez amizades com os famosos que atendeu, como os jornalistas Paulo Sant’Ana, Ruy Carlos Ostermann, Cristina Ranzolin e Tania Carvalho, e jogadores como Paulo Roberto Falcão, seu xará, de quem ganhou um autógrafo. Também políticos, como o ex-governador Pedro Simon.

 

O Mercado antigo e atual

Assim como muitos mercadeiros, Amaral acha que o Mercado é uma família, uma tradição que passa de geração para geração.  E, na sua opinião, os clientes também fazem parte desta família. “Nós dependemos deles. Tem que ter um atendimento diferenciado, o cliente não é só para um dia.” Ele também se confessa um saudosista do Mercado antigo. “Sinceramente, eu gostava e tenho saudade dele. A maioria das bancas era fechada à lona, tinha aquele zinco – mas hoje, com esse calor, a gente não ia aguentar. Muita gente não gostou desta reforma.” Mesmo assim, ele acha que tudo tem que se renovar. Reconhece, por exemplo, a importância da escada rolante, pois a parte superior do Mercado antes ficava isolada. “Com a reforma, o pessoal passou a almoçar e surgiram mais opções. Ficou bom e a gente tem que se acostumar. Mas fica a saudade.” Ele tem nítidas lembranças dos tempos do antigo Mercado Livre, onde hoje é a estação Mercado do Trensurb, quando ele tinha 11 anos e via o bonde passar. Saudosista convicto, do futebol que já não joga mais, dos amigos, muitos que já partiram, das festas e churrascos, não raro se pega olhando fotos antigas. Saudades dos bons tempos e de histórias engraçadas que hoje não acontecem mais. Uma dessas histórias é do dia em que ia casar, num sábado. Estava trabalhando ainda e, quando chegou meio-dia, dona Dessa Kolesar, sua patroa, disse: “Vai para casa, trocar de roupa. Tens que casar, meu filho”. E segunda-feira ele já estava de volta. Ou do apoio que teve do chefe Sérgio quando a filha ficou doente, vindo a falecer. “Jamais vou esquecer.” O Mercado, para ele, representa tudo. “Construí o meu lar através dele. Tenho vários amigos aqui, espalhados pelas bancas. O Mercado é uma família, onde todo mundo se une.”

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