Paulo Naval: “o Naval é o meu castelo, aqui eu me sinto um rei”

Ele é uma das figuras mais conhecidas e populares do Mercado, para dizer o mínimo, além de ser um dos garçons mais antigo na cidade. Só no Naval são 52 anos esgrimindo bandejas de chope, cervejas e pratos, alguns dos quais com nomes lendários que ele mesmo criou, como a “Terrível Feijoada” e o “Violento Mocotó”. Ele é Paulo Naval, 72 anos, o garçom-poeta do centenário bar do Mercado Público. Ambos se confundem, assim como o Mercado se confunde com a história da cidade. Se você não conhece o Paulo, certamente não conhece meio século da história de Porto Alegre. Mas não se preocupe, você ainda tem tempo de se redimir tomando um chope tirado pelo próprio Paulo.

Ele começou trabalhando na famosa Confeitaria Central, na Rua da Praia. Lá conheceu muita gente famosa, como o general Flores da Cunha, os Caldas Jr e muitas personalidades daqueles glamourosos tempos em que a cidade ia se tornando mais cosmopolita. Porém, um dia se desentendeu com o patrão. Ficou sabendo então, que o Restaurante Naval tinha uma vaga de garçom. Ele lembra bem: “era dia 8 de janeiro de1957. Nesta mesa aqui estava almoçando o seu Antonio Lopes Branco, que foi o meu primeiro patrão. Português sisudo, de poucas conversas, mas muito objetivo. Me olhou, bem vestido, gravatinha, perguntou o que eu queria”. A conversa foi rápida. Paulo pediu a vaga para o desconfiado português que lhe disse que ali tinha que ser sério e que não poderia faltar, ao que o futuro garçom respondeu que não costumava faltar ao trabalho. Paulo imita o sotaque do português, diz: “Então vens amanhã”. E assim, no dia 9, às 9 horas o jovem de Santiago, Darcy Souza de Oliveira, iniciava a sua trajetória na vida boêmia da cidade. Ele lembra que o movimento era grande naquela época. Os clientes chegavam cedo. Eram bancários, comerciários, carteiros que iam para  café e para o lanche do intervalo. E para o almoço tinha fila e mais fila. “Eram dois fornos à lenha com oito bocas. Saía porco assado, carne de ovelha, cabrito, filés e bifes, galinha a molho pardo. Era uma correria, não tinha tempo nem de olhar as moças”, diverte-se ele.

“Me dei bem e em seguida me adaptei com a freguesia”, conta ele. E o português ali, já não tão sério, mas de poucos sorrisos. Ficou amigo do filho dele, Antonio Lopes Filho, que “tirava” contabilidade, um curso com status de “canudo” na época. O Naval, conta, vivia cheio das oito da manhã às 10 da noite, fechava com gente dentro. Chope era de 300 a 400 litros por dia, um barril por hora! “Eu chegava e pedia 8 10, 12 até 24 chopes, um recorde, nesta mesma bandeja, que carrego há 50 anos”. Os alemães eram os grandes tomadores. A senha de quando não queriam mais era a bolacha de chope em cima do copo, diz Paulo. E o Mercado era um dos pontos principais de compras, com um grande movimento, segundo ele porque na época tinha mais facilidade de acesso. “Tinha os bondes que vinham até o Mercado, ônibus na Praça XV, camionetes e carro lotação”, evoca.

O camaradinha Lupicínio
Claro que não podiam faltar as lembranças da boemia. Diz que os boêmios ficavam felizes quando chegava a noite. Não era para menos. No entorno do Mercado, ficavam as principais boates e cabarés. American Boate, Marabá, Maipu, 1001 Noites com as “bailarinas” faziam a festa naqueles tempos de poucas liberdades. E os boêmios iam se “restabelecer” com as sopas e filés do Treviso. “Os boêmios não se embebedavam, tocavam violão, faziam música, confraternizavam. Eram noites sadias. Não se distinguia quem eram as damas da sociedade e as bailarinas, todas vestidas a rigor”. E na volta, ainda brilhava o Chalé da Praça XV, o restaurante Dona Maria, o bar Liliput. Eram tempos em que podia se ver Lupicínio Rodrigues nas mesas do Naval. Paulo lembra que quando começou a serví-lo não sabia de quem se tratava. “Eu trato todo mundo igual, médico, advogado, trabalhador. Mas me chamava a atenção que ele vinha todo o dia, ele e o Johnson, que era companheiro dele de música. O Lupicínio todos os dias me pedia um pedaço de papel e um lápis. O papel era muito escasso naquela época. Até que o patrão me perguntou: (imita o sotaque) escuta aqui, ó raios, porque levas esse papel todos os dias?” Paulo explicou ao português que era para Lupicínio. O velho Antonio “embrabeceu”. Paulo disse que o patrão não queria mais que desse papel. O compositor de “Vingança” disse sorrindo: “Tá bem, meu camaradinha”. Paulo começou, então, a juntar papel de carteira de cigarro e levou um monte para Lupi que agradeceu: “Tá bem meu camaradinha, não precisava tanto!” Com certeza muitas letras de músicas foram ali escritas com a contribuição de Paulo.

O garçom-poeta
Em 1961 o velho português vendeu o bar para dois patrícios, os irmãos Manoel e João da Costa Fernandes. Paulo continuou no bar, por recomendação do antigo patrão: “Ficas com este rapaz aí por que ele é sério e muito responsável”, disse a Manoel. De lá para cá Paulo fez muitas amizades. “Em 52 anos nunca adquiri nenhuma inimizade. Muita gente fora de Porto Alegre e até do Brasil recomenda para as pessoas: “quando for ao Mercado não deixe de conhecer o Naval e o Paulo Naval. ” Ele atribui a fama do bar ao fato de que, depois da grande reforma dos anos 90, foi um dos únicos que preservou suas características originais. E também ao Fórum Social Mundial, quando muita gente de vários países foi conhecer o bar e o seu garçom-poeta. Ele diz que vendeu muitos livros, três publicados, entre eles “O Garçom e o Cliente – No Balcão do Naval”, editado em 1999 com o jornalista Paulo Ricardo de Moraes, o Baiano. A historiadora Elizabeth Breitmann, que participou das pesquisas e reforma do Mercado, foi uma das grandes incentivadoras do poeta Paulo. Neste meio século no Naval, Paulo viu muitas coisas, conheceu muita gente famosa, políticos, jornalistas, intelectuais. Todos muito bem tratados pelo garçom que já faz parte da história de Porto Alegre. Salta um chope, bem tirado Paulo!

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