Paulo César Boeira Eloy: Construindo uma vida no Mercado

Primeiro, ele fez, na adolescência, um curso de três anos de marcenaria – mas o salário para os profissionais dessa área era muito baixo, lembra. Sorte que tinha um tio, Pedro, trabalhando no Mercado, mais precisamente na Banca do Holandês, que convidou o sobrinho, então com 17 anos, para trabalhar lá. Começava aí sua carreira no Mercado Público.  Nascido em dezembro de 1976, desde o começo trabalhou na mesma banca, onde criou raízes e cresceu profissionalmente.

Foto: Leticia Garcia

Paulo foi para o Mercado em 1994. Em seguida casou, resultando em duas filhas de um casamento que já dura 18 anos. O tio já saiu da banca – trabalha atualmente na Banca Central, quase em frente à do Holandês. Mas Paulo César continua lá até hoje. Lembra que, quando entrou, a banca era um terço do tamanho que é hoje. “Naquela época eram sete funcionários, hoje são 19. A banca continua no mesmo lugar. Depois da reforma (do Mercado, nos anos 90), ela ganhou mais frente e perdeu mais fundo de loja”, diz. Aliás, durante a reforma, a banca – assim como muitas outras – sentiu os seus efeitos. “Foi muito afetada, teve que ir lá para cima (andar superior), e o movimento caiu. A parte do meio do Mercado fechou, só ficaram as lojas ‘da volta’. Às vezes tinha que descer para buscar clientes. Tinha as escadarias e eles não subiam. Como a banca é muito antiga, a maior parte dos clientes é de idosos. Dava algum movimento nas quintas e sextas-feiras, mas foi muito difícil.” Depois da reforma, a Banca do Holandês ressurgiu ampliada e o crescimento foi rápido, aumentando muito o movimento e o quadro de funcionários. “Hoje em dia é outro padrão aqui no Mercado. Antigamente, quando tinha chuva, aqui dentro chovia mais do que na rua. Era um telhado de zinco, bem rústico.” Mas esses tempos logo começariam a ficar para trás.

Chegando à gerência

“Comecei trabalhando na parte da limpeza e auxiliando os balconistas. Antigamente a gente pesava, fracionava muita mercadoria – mel, goiabada, e se ralava muito queijo. Na época não existiam essas marcas que vendem hoje, com tudo empacotado, era bem precário.” Ele passou por várias etapas – e balcões: na banca são vários deles, um para cada tipo de mercadoria. “Cheguei até o balcão do queijo, onde fiquei mais tempo. Aí, saiu o ‘seu’ Wilson, que era o gerente, e me colocaram no seu lugar. Passei por uma fase de adaptação e hoje já sou gerente há cinco anos.” A rotina, depois disso, mudou um pouco. Hoje ele “lida” bastante com os vendedores, mantendo uma relação mais distante (ou profissional) com os antigos colegas. Outro detalhe: passou a abrir e fechar a loja. Isso sem falar de muitos clientes que ainda querem ser atendidos por ele. Ou seja, mais responsabilidade. “O atendimento mudou bastante, hoje o cliente está mais exigente. Procura em outras lojas, compara preços – antes era ‘à moda miguelão’. E todo dia a gente vê uma pessoa dizendo nunca tinha vindo no Mercado e que agora passou a comprar aqui porque também é mais barato. Tem muito cliente que é fiel, alguns vêm até duas vezes por semana. Muitos eu conheço chamando pelo nome.”

Diferenças do Mercado

Outro aspecto que ele acredita que mudou bastante é o acesso de um novo público. “Antigamente muita gente não entrava, por causa das questões de higiene, ratos; hoje as pessoas estão vendo que o Mercado está mais moderno, com menos mau cheiro. A reforma botou as peixarias para outro canto – sabe como é, peixe é peixe, deixa cheiro.” E a clientela se renova. Como a banca tem décadas de existência, já tem até a quarta geração comprando. “Vai passando de pai para filho, de vô para neto.” O gerente também destaca as diferenças e vantagens do Mercado. Uma delas, segundo Paulo, é que, como ele tem um fluxo muito alto de público, o giro de mercadorias é grande, o que permite que as pessoas peguem produtos mais fresquinhos – queijos, frios, azeitonas e uma variedade muito grande de frutas, legumes, carnes, peixes e muito mais.

Lembranças e vivências do Mercado

Mais de 20 anos depois, tem muitas lembranças. Mas as mais marcantes são também as mais recentes, como as do incêndio. Ele ficou até mais tarde naquele fatídico sábado de junho de 2013, pois a banca estava passando por uma dedetização. Saiu por volta das sete horas da noite, foi para casa e entrou no banho. “Minha mãe ligou dizendo que o Mercado estava pegando fogo. Aí vi na TV o incêndio, aquele fogaréu, e me apavorei. Peguei meu carro e me arranquei para cá. O pior é que a gente estava na volta e não sabia o que estava acontecendo aqui dentro. Vendo aquela imagem parecia que estava pegando fogo em tudo.” Então um bombeiro, conhecido seu, tranquilizou o angustiado gerente, dizendo que estava tudo bem na região em que a banca está localizada. “Ele falou que a área dela não tinha sido afetada em nada, nem pela água, porque os bombeiros estavam apagando o fogo para o outro lado. Aí fiquei mais tranquilo, porque a minha vida estava ali dentro.” Por essas coisas, ele não tem dúvidas em afirmar que o Mercado representa tudo na sua vida. “O que eu tenho na vida, casa, carro, é graças ao Mercado. Quando cheguei aqui, não tinha nada, vim trabalhar com um tênis emprestado. Estava numa situação terrível. Com trabalho, a gente adquire tudo.”

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