Pasqualino Carmelo Gugliotta: “O Mercado é uma escola de vida”

Ele pertence a uma geração daqueles que começaram no Mercado trazidos pelos pais. E, assim também como muitos outros, ainda na adolescência, aos 17 anos, em meados de 1975. Desde lá o Mercado tem sido a sua vida. Nele praticamente construiu sua família. Casado há 25 anos, “e mais oito de namoro”, com Maria Nunziatta Sartori, o porto-alegrense Pasqualino, nascido em 15 de julho de 1958, tem dois filhos, Francine e Rafael.

 

     O começo de tudo: em 1975, seu tio Biaggio Guaragna, irmão de sua mãe Dolores Guaragna (já falecida), convidou seu pai para trabalhar em um açougue no Mercado. Posteriormente os dois vieram a comprar o ponto e formaram a Banca D, onde hoje se situa o Armazém Metropolitano. O jovem Pasqualino, em seguida, começou a ajudar seu pai, Carmine Gugliotta (o “Carmelo”), enquanto estudava. No início a ajuda era nos feriados e fins de semana, mas logo “foi pegando afeição pelo comércio”. Concluiu os estudos secundários e entrou na faculdade de Geologia na Unisinos, onde se formou em 1986. Nesse ínterim, o futuro geólogo conheceu “uma moça que era filha de um proprietário e açougueiro, Francesco Sartori”, que seria decisivo em seu destino. Já preocupado com o seu futuro, fez um concurso federal. Passou, mas não estava sendo chamado. O problema era que ele já estava de casamento marcado com Maria Nunziatta. Na época, F. Sartori tinha dois açougues no Mercado: o 81 (São Francisco), e o 8-9, do qual era sócio, onde hoje é a atual Casa de Carnes Santo Ângelo, na qual Pasqualino se encontra. O fato é que acabou sendo convidando pelo futuro sogro para trabalhar com ele no São Francisco. Em 1999, depois de um desentendimento com o sócio na São Francisco, o sogro ficou com a Santo Ângelo. A partir daí, Pasqualino passou a trabalhar com ele na Santo Ângelo. Dez anos depois, com o falecimento do sogro e segundo pai, tornou-se sócio-gerente, junto com a sogra, Filomena Sartori, sócia-majoritária.

 

O geólogo se transforma no  “empresário da carne”

 

     “O destino quis assim. Eu já tinha uma tendência para o comércio, sempre gostei de lidar com o público, sou muito espontâneo. Acho que não saberia me comportar diante de uma sala ou um escritório, fico mais à vontade no comércio”, diz. Isso significa que nunca exerceu sua profissão de geólogo e esqueceu o tal concurso. Na São Francisco começou como balconista, onde fez um bom aprendizado. Depois passou para a gerência administrativa, onde se encontra até hoje.  “É como se eu fosse um ‘empresário da carne’”, brinca. Então, veio a grande reforma do Mercado – que mudou muitos destinos e vidas. A banca em sociedade entre seu pai e seu tio foi deslocada para “um lugar que não dava muito movimento”, e mais tarde acabou sendo vendida. Eram tempos de uma rotina mais “castigante”, como define. Chegava muito cedo ao Mercado, por volta das cinco horas da manhã, com um movimento intenso até às oito horas da noite, inclusive aos domingos, quando trabalhava até o início da tarde. “Era sacrificante, com 24 açougues na época. Depois, com esse deslocamento que teve com a reforma, saindo de corredores principais para outros secundários, começaram a falir e foram vendendo as bancas. Hoje são só seis açougues, só os fortes suportaram”. Ele teve a sorte de se manter no mesmo local. Atribui ao “atendimento diferenciado” uma das razões de a casa ter se mantido, com clientes fiéis, aumentando o movimento nestes últimos tempos.

 

O futuro do Mercado, os novos frequentadores

 

     Um aspecto que preocupa Pasqualino é a formação do novo público do Mercado. “Os velhos vão morrendo e os jovens não se preocupam muito com o Mercado e sim com os shoppings, essas coisas modernas. Não são acostumados pelos pais a frequentar o Mercado. Isso me preocupa em relação ao futuro. Então a gente precisava de uma campanha, e não tem”, constata. Também não tem uma visão muito otimista quanto ao turismo em Porto Alegre que, na sua opinião, não oferece muita opção para quem vem de fora. “Às vezes eles vêm ao Mercado e está fechado, não abre mais nos feriados. E agora, com o incêndio, não sei como vai ser para a Copa, muito restaurante vai ser judiado”, prevê. Por isso mesmo acha que um bom atendimento é fundamental. Acredita que hoje o público está bem mais exigente do que nos tempos antigos. “A banca, por ser no meio (a localização), sempre foi bem movimentada, da manhã à noite. Era uma concorrência muito forte porque ali no meio tinha um açougue forte, onde hoje são as bancas das frutas. Onde é a Central, era a Japesca, e onde está a banca do Holandês, era a Banca 30, dos ‘patrícios’, e no meio, onde está o Bará, era a Banca Central. E se vendia, dia e noite”, lembra. Outra nítida lembrança que ele tem é dos domingos, de manhã cedo, sete horas, com os portões ainda fechados, e já com fila de gente para comprar. “Os ônibus ‘desembocavam’ aqui (no Largo Glênio Peres), e não havia supermercado e armazéns nos bairros e vilas”, recorda.

 

O Mercado ontem e hoje: sem nostalgia

 

     Do velho Mercado, não tem nenhuma saudade. “Lembro perfeitamente dos corredores internos, da escuridão, uma sujeirada, e muitos ratos. A gente atravessava os corredores para ir às câmaras, e de repente cruzava no meio das tuas pernas, não se sabia se era um rato ou um gato, de tão enorme que era. Fora os gatos que tinha na cobertura”. Para ele, hoje está muito melhor em higiene, distribuição das bancas, atendimento, longe dos tempos dos ratos, sujeira e meretrizes. Muito ligado à comunidade italiana, de onde veio toda a sua família, ele se diz agradecido ao seu sogro, principalmente por ter entrado no comércio. “Tive uma aprendizado com ele, era muito radical naquilo que fazia e muito correto. Sem ele não sei como estaria como geólogo – poderia estar no Acre, no Amapá. Hoje estou aqui perto de casa, da comunidade italiana, da família”, diz. Por falar em família, aos poucos ele já está passando a sucessão do açougue para os filhos. “Meu filho está com mais disposição; a filha parece que não está muito a fim de pegar, vai seguir os passos do esposo”, revela. Sobre o Mercado, para ele é uma grande escola de vida. “Tu encontras, no mesmo ambiente, pessoas de diferentes níveis de conhecimentos, raças, cada um com sua cultura própria, é uma mistura de aprendizados, além de ser o teu ganha pão”.

 

Foto: Letícia Garcia

COMENTÁRIOS