Para bailar com o pé trocado!

Foto: Arquivo pessoal

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

 

As danças gaúchas de salão, conhecidas como danças de fandango, têm uma longa e rica história ligada à miscigenação cultural do estado do RS. Músicas e danças de diversos povos ajudaram a formar o conjunto de danças de salão rio-grandenses. Assim como a música regional, o bailar gauchesco ajuda a manter vivas as tradições descobertas no RS. Populares, estão em bailes por todo o estado e além dele, e recentemente, em 2006, foram alçadas à categoria competitiva do Encontro de Artes e Tradição Gaúcha (ENART).

 

Um “dois para lá, dois para cá” já serve muito bem quando a ideia é apenas bailar uma vaneira com a pessoa amada. Mas há quem queira aprender todos os passos da dança de fandango, e há ainda os que resolvem estudar a história por trás de cada dança. Foi o que fizeram Victoria Brondani e Leonardo Ullrich, prenda e peão da Associação Tradicionalista Poncho Branco (Santa Maria/RS) que conquistaram o primeiro lugar na categoria Dança Gaúcha de Salão do ENART 2016 – dupla com que conversei para entender as origens e características das danças de fandango. “A dança gaúcha de salão, para nós, tem o verdadeiro significado na arte de levar para os palcos dos concursos o bailado gaúcho que vemos em todos os bailes, por todo o Rio Grande e até fora dele, difundindo e mostrando para todos a beleza do bailar gaúcho”, afirmam.

 

MESCLA CULTURAL

As danças de salão, de modo geral, tiveram início nos bailes reais da Europa com Luís XIV, o Rei Sol. No séc. XVII, as valsas tornaram-se populares e impulsionaram o surgimento das danças de pares enlaçados. “No Brasil, somente no séc. XIX, com a vinda da família real portuguesa, a valsa popularizou-se por aqueles que queriam manter-se ligados à cultura europeia”, explica Victoria. Espanha, França, Inglaterra e Portugal são alguns dos países que influenciaram as danças nas Américas. “Diferentes ritmos inspiraram e também tiveram importância na formação das danças gaúchas de salão, uma vez que o estado do Rio Grande do Sul teve sua formação marcada por disputas territoriais entre Portugal e Espanha. Logo mais vieram os imigrantes, que trouxeram influências marcantes para a formação das danças gaúchas de salão. E também a contribuição argentina, com seus tangos com passos firmes e marcantes”, explica Victoria. Além disso, a cultura local e africana passou a se misturar com as danças europeias. “Com esta mescla de culturas, costumes e ritmos, as danças gaúchas de salão começam a ser construídas.”

 

FANDANGO

A origem da palavra “fandango” é espanhola e define uma dança com sapateado e castanholas. No RS, o termo inicialmente nomeou os primeiros bailares do estado, resgatados pelos pesquisadores Barbosa Lessa e Paixão Cortes, que hoje são chamadas de “danças tradicionais” e compõem as invernadas artísticas – como a tirana, o anu e a quero-mana, dançadas em grupo e nas quais o sapateio é característica marcante. Com o tempo, “fandango” passou a definir as danças gaúchas de salão, de par enlaçado, como chote, chamamé e milonga. Vale destacar que a palavra é usada em outras regiões do país com significados diferentes: no Nordeste está ligada a festejos marítimos e no Sudeste é um gênero distinto chamado de “fandango caiçara”.

 

BAILAR PELO SALÃO

A dança de salão e as tradicionais tornaram-se populares na época dos estancieiros, apropriadas pela elite. O resgate tradicionalista e o desenvolvimento da música regional, com o aumento no número de grupos de baile, popularizaram essas danças. “A indumentária sempre foi um elemento presente e bastante forte, não somente nas danças gaúchas, mas em toda a cultura do Rio Grande do Sul, pois é nela que se carregam as heranças históricas e a cultura material do povo gaúcho”, pontua Victoria. Para Leonardo, é importante manter vivas as danças de fandango para levar às gerações futuras o gosto pelos bailes e pelo bailar: “As danças gaúchas de salão contribuem deixando o seu legado, assim como as danças tradicionais, valorizando as nossas influências de colonização e trazendo para os palcos o dançar do povo gaúcho”.

 

Leonardo e Victoria explicam abaixo as principais danças gaúchas de salão.

  • CHOTE – Teve sua origem na Hungria e aqui recebeu variações, como o chote de duas damas, o de sete voltas, o carreirinha, o quatro-passi e o inglês. O chote para dança de salão nos permite, além de se dançar enlaçado, usar as mãos para realizar figuras, no famoso chote figurado.
  • MILONGA – “Melunga”, palavra de derivação africana, tornou-se “milonga” por volta de 1829, que significava enrolação, conversalhada e enredo. Essa dança é característica da habaneira e do tango andaluz, popular no subúrbio de Montevidéu e Buenos Aires. A dança popularizou-se por volta de 1970 com nome próprio e características definidas. Pode ser executada também em pajadas, trovas, desafios e como histórias cantadas. É caracterizada como dança de pares independentes e enlaçados, de ritmo binário, com três variações: a tangueada, a vaneirada e a rio-grandense.
  • CHAMAMÉ – A dança originou-se com a tribo Kaiguá, situada na fronteira entre Corrientes/Argentina e Brasil. O chamamé traduz a natureza, que une a alma ao espírito de guarani. Pertence ao ritmo ternário e é dançada com passos de marcha alternados.
  • RANCHEIRA – A dança teve uma influência enorme da mazurca, e se desenvolveram juntas, com passos muito semelhantes. A rancheira se difundiu pelo estado e possui diferentes maneiras de ser dançada, modificada de acordo com cada região. Pertence ao ritmo ternário e tem seus passos semelhantes ao da valsa.
  • VALSA – A valsa surgiu na Áustria, inicialmente em Viena. Veio do campo para a cidade, tornando-se um ritmo dançado pelas elites nas grandes festas e bailes de comemorações. A dança pertence ao ritmo ternário e tem maneiras diferentes de ser dançada.
  • BUGIO – O bugio é o único ritmo entre as danças gaúchas de salão que foi criado no Rio Grande do Sul, sendo genuinamente gaúcho. O passo imita o caminhar do macaco bugio, e a música lembra o roncar do bugio, usando o fole da gaita para trazer essa característica. Pertence ao ritmo binário e tem passos semelhantes a saltos de polca.
  • VANEIRA – Dança de origem afro-cubana, difundiu-se pela Espanha e veio para o Brasil no ano de 1866. Tendo também suas variações ao dançar nas diferentes regiões, principalmente no embalo dos casais, a vaneira é um dos ritmos mais tocados e caracteriza muito o baile gaúcho. A dança pertence ao ritmo binário e seu passo é o famoso “dois por dois”.

 

 

COMENTÁRIOS