Paixão Côrtes, Patrono da 56ª Feira do Livro de Porto Alegre: o laçador de letras e tradições

Paixão Côrtes, Patrono da 56ª Feira do Livro de Porto Alegre: o laçador de letras e tradições

“O Rio Grande é o único estado que teve lutas de fronteira, foram dez anos. A beleza de nosso Estado é diferente dos demais, até mesmo de outros países. Nossa beleza é a espada, a peleia, a luta e a dos outros é a beleza arquitetônica, a natureza”, diz o agrônomo, folclorista, compositor, radialista e pesquisador da cultura brasileira Paixão Côrtes.  Nascido em Santana do Livramento, em 1927, este ícone da cultura gaúcha, foi modelo do monumento Laçador, erguido em 1958, o principal símbolo de Porto Alegre. Costuma dizer que em suas pesquisas, procura representar a identidade cultural do povo, sempre com a preocupação de preservar os seus valores e projetá-los no cenário universal. “Busco resgatar e compilar as tradições folclóricas para mostrar aos outros quem nós somos”, diz ele.

 

Responsável pelo renascimento do tradicionalismo, é o idealizador da Chama Crioula, da Ronda Crioula, do Candieiro Crioulo e das comemorações da Semana Farroupilha, em 1947. Publicou uma série de livros, clássicos da cultura gaúcha, como Manual de danças gaúchas (1956), com Barbosa Lessa e Danças e andanças da tradição gaúcha (1975). Em 2006, teve sua obra “Folclore Gaúcho – Festas, Bailes, Música e Regionalidade Rural” reeditado pela Corag. O conteúdo é resultante de mais de 50 anos de pesquisas. Seu livro mais recente é “Músicas, Discos e Cantares” – Um resgate da história fonográfica do Rio Grande do Sul, publicado em 2001. Realiza um amplo trabalho de divulgação da cultura gaúcha em palestras em escolas, piquetes e CTGs, onde distribui gratuitamente seus livros. Atualmente, desenvolve pesquisa, que já conta com mais de 700 páginas, sobre danças gaúchas para uma nova publicação. Por telefone, conversamos mais de uma hora com o novo Patrono da Feira do Livro. E, com certeza, sua palavra vale um fio do seu bigode – aliás, bigodão.

 

A Semana Farroupilha

“Na época, éramos oito que montavam a cavalo, hoje são milhões, para uma solenidade. Não existia o dia do gaúcho, nem o feriado do dia 20 de setembro, pois não era importante para a sociedade e nem para a política”, recorda Paixão. Na época já viam a necessidade de haver dias que representassem essas datas gaúchas, diferente de hoje que se comemora e se faz jus ao gaúcho. Ele diz que esse foi um direito adquirido por legislação nacional, explicando que o 20 de Setembro é um símbolo e que o gaúcho não pode querer “ser gaúcho” apenas um dia, mas sim o ano todo e durante toda sua vida. “Eu tenho orgulho do meu nome, de onde vieram meus ancestrais e conheço a minha arvore genealógica. Eu não preciso mudar de roupa para dizer o que sou, eu tenho uma herança”, afirma. Para ele a identidade não é um “ato”, mas sim um processo de formação, que se caracteriza de diversas formas, de povo, identidade e raiz. Em relação à mudança de hábitos, Paixão acredita que sim, pois o número de adeptos aos costumes campeiros, os músicos tradicionalistas, o número de CTG’S, estão cada vez maior e se expandindo muito. Isso, segundo Paixão, representa, de forma significativa, um aumento no interesse por culturas locais. Ele faz comparações com anos anteriores, dizendo que não haviam bailes com trajes de gaúcho, gravadoras e bandas locais, na mesma proporção que hoje.

 

O escrivinhador Paixão

Ele tem claro o seu papel. “Eu não sou escritor, eu sou escrivinhador. Eu gravo, registro, fotografo e documento, para depois devolver ao povo o que é dele. Sei da responsabilidade que tenho para entregar estes documentos para a sociedade”. Vê a chama da pátria como um dos símbolos gauchescos e acha que é preciso levá-la para frente, solenemente, para dignificar as nossas heranças e as lembranças dos farrapos. E quais são estes símbolos e lembranças? A chama crioula, o candeeiro crioulo, a ronda, que é quando se reunia o gado para levar para determinado lugar, passando a noite acordado para que o gado não se dispersasse. Para ele a ronda crioula é onde se reunem todos os símbolos e costumes gaúchos. Hoje tudo mudou e os nossos costumes são melhores aceitos e se propagam. Tem até fabricante de refrigerante fazendo publicidade da Semana Farroupilha e as pessoas cada vez mais se interessam por nossa cultura.  “Se tu colocasse bombacha, alpargata e lenço no pescoço e passasse na Rua da Praia, estava sujeito a ser preso. Era proibido por decreto da sociedade. Grosso tem que viver no galpão e se alimentar no pasto” diz ele, lembrando que no governo Vargas as simbologias das regiões foram extintas temporariamente. “Você era preso, se tivesse uma bandeira do Rio Grande na sua casa.”

 

Farroupilhas, lideranças elitistas

As suas evocações são mais remotas, da época em que os brasileiros viam gaúchos galopando, com bandeiras do Rio Grande, considerados separatistas. Ele descarta a idéia de a revolução farroupilha ser vista como um movimento popular. “A revolução farroupilha não foi feita apenas por farrapos, mas também por imperiais. Foi uma ação por parte de intelectuais, comerciantes e poderosos produtores, estancieiros das charqueadas”. Segundo o nosso patrono, foi esta elite que elaborou as idéias e o povo apenas aderiu. Ele registra que em 1787 foi a primeira vez que apareceu a palavra gaúcho. Naquela época não se poderia pensar em filosofia urbana, pois tratava-se de um povo campestre. “A sociedade se formou lentamente. Para você ter idéia, a primeira propriedade reconhecida no Rio Grande foi só em 1732. Até então eram terras de ninguém.”

 

Rio Grande, estado único

Para ele os documentos históricos são os que contribuem para a história política no Rio Grande, principalmente os de alguns escritores como Aurélio Porto, entre outros, que interpretaram e contribuíram na construção da nossa história. Paixão fala, que historicamente, havia uma rixa muito grande entre gaúchos e seus vizinhos da América do Sul, mas que com a evolução da sociedade, os povos, conseqüentemente vão se relacionando e se tornando irmãos. E esta tradição, com estas características, só o gaúcho possui. “Não pode se comparar a outros estados, pois trata-se de um só lugar, diferente das regiões nordeste por exemplo, que se compõem por diversos distritos. Os costumes são únicos, mas que podem ser pluralizados com o passar do tempo. Tem gente que tem atitude, mas não tem alma. E as expressões do povo são de alma, de sentimento, de herança.”  Em relação ao tradicionalismo mais rigoroso, Paixão fala de pessoas que desconhecem determinados assuntos da cultura gaúcha e querem criar regras. “O movimento tem que acompanhar a modernidade, mas não fazer modismo.” Para ele é preciso distinguir entre a moda transitória e aquela que é fundamental, de raiz e de herança…”

 

Somos conservadores?

Somos um estado conservador? “Não, mas é ciente de suas origens.” Ele dá muito valor ao tradicionalismo, que vem se fortalecendo em sua história no decorrer das últimas décadas. Ele acha que outros estados não têm tantas preocupações com suas raízes, diferente dos gaúchos. “O Rio Grande foi descoberto 250 anos depois do descobrimento do Brasil. Os que chegaram aqui, chegaram com brasilidade. E os gaúchos aderiram certos costumes de fora, por convicção e não modismo”, analisa, considerando que nosso estado é formado por diversas etnias. “Há um momento marcante no Rio Grande, que foi escrito pelos birivas, assim como os missioneiros, vacarianos e litorâneos.” Assim, os costumes e formas de se viver no estado são distintos e estão ligados a sua região, seja ela na serra, na fronteira, no litoral. “Eu levei dez anos para saber o significado de uma dança, que só tem homens. Como que em uma sociedade normal, essa dança vai ser só de homens? Não, tem que ter homem e mulher”, constata. Em 1825, começam os alemães e 1875 os italianos, duas contribuições para a formação gaúcha.

 

O significado da pilcha

Paixão alerta que a música tradicionalista gaúcha começa com os primeiros acordes de uma viola, isso até 1865, 1870. Após esse período é que a tão conhecida gaita passa a ser mais utilizada por músicos tradicionalistas. Mas ele credita isso ao esquecimento e não culpa os desavisados. Ele vai mais longe, quando imprime uma tese sobre o que é de fato o gaúcho, afirmando que “para ser gaúcho, não precisa usar bombacha”, onde ele questiona e ao mesmo tempo corrige a expressão “tchê”, dizendo que o correto seria “che”, afirmando que o uso do “t” é algo moderno. Ele diz que isso surge durante a “sua época”, que isso faz parte do modismo. Afirma que “estar pilchado” não é estar bem vestido, não se refere à vestimenta da pessoa, pois estar “pilchado” é estar com dinheiro e que esse uso é incorreto. “Essas coisas devem ser bem analisadas e não devem ser normas obrigatórias”, diz. Essas mudanças são frutos do consumismo e os maiores prejudicados nesse processo são os que estudam e preservam o passado e sua história, avalia o folclorista.

                                                                                                                                                                   Foto: arquivo pessoal

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