Lair José Groff : pais e filhos no Mercado

     Pais e filhos no Mercado, sem conflitos de geração.

Entre muitas tradições do Mercado, a relação familiar é muito intensa entre as suas centenárias paredes. Por isto é comum ouvir de todos, que o Mercado é uma família. Aqui uma história de pai para filho, como tantas outras onde a tradição de trabalhar e conviver aqui passa de geração para geração.

     Para Lair José Groff, 59 anos, não existe coisa melhor do que trabalhar no Mercado. E olha que faz tempo que ele está aqui. “Cheguei no dia 19 do dois de ’62, às sete e meia da manhã, dia chuvoso, natural de Gramado Xavier, e com muito orgulho. Desembarquei na rodoviária e vim direto”, conta de um fôlego só. Lembra que tinha primos no Mercado e veio para trabalhar com eles, na banca 33 e “depois de um monte de ano”, foi para a Banca 2 (1982). Nesse período nasceram os três filhos, Lair Groff Júnior (34), Graziela Groff (31), e Aline Groff (28). Groff informa que o filho já vem há mais de 10 anos e a filha há menos tempo. Diz que  Júnior não queria mais estudar, e então veio para o Mercado. Como é a relação pai e filho? “Normal, de patrão empregado, folga pouco, fora daqui já muda um pouco”, diz o velho pai. E reforça que não tem “moleza”. Mas também ressalta que gosta de estar com os filhos à volta, na Banca. “A minha segunda família é o Mercado, estou aqui há 46 anos. Gosto, adoro o Mer-ca-do,pretendo ficar mais uns 20, 30 anos. Não tem coisa melhor do que trabalhar no Mercado”, diz animado.

A erva mate me deu tudo que eu tenho na vida
     A rotina é dura. Acorda às 5 horas da manhã, liga a Rádio Gaúcha, “escuto o programa do Macedo”, levanta às 6 horas, pega o carro vem para o Mercado, onde passa o dia. Só fecha às 19h30 e volta para casa. O filho vem junto, mas a filha vem um pouco mais tarde, por causa dos dois filhos, como ela conta que, primeiro tem que levar para a escola. Resignado com destino, Lair diz: “Daqui a um tempo não vou vim mais e eles vão vim cedo e ir ir embora de noite”. E o que Lair mais gosta de fazer é pesar erva. “A erva é minha vida, tudo o que tenho foi a erva mate que me deu. Gosto de vender cuia, bomba, de chorar nas compras, pagar em dia”. Na banca se encontra tudo para o  chimarrão, além de chás e temperos.

Futuramente vou passar a banca para os filhos
Ainda não chegou a hora, e se depender dele, como já disse, ainda vai levar uns 30 anos, mas no futuro os filhos, principalmente Lair Jr. é quem vão tocar o negócio. Uma coisa é certa, segundo o velho Lair: a banca não se vende. Como ele diz:“Vale muito mais pra mim uma banca como esta do que um punhado de dinheiro na mão”. E como o negócio vai ficar em família o filho já vem trabalhando nele há mais de 15 anos.  E não gosta de ficar parado. “Não consigo, tô sempre me mexendo, não gosto de ver uma coisa errada. Sou muito hiperativo, não só para o trabalho, mas para tudo”, informa. E a relação com o pai, de outra geração? “Tento colocar minha idéia, meus pontos de vista, as vezes se briga muito, são gerações diferentes, não sei ser puxa-saco. Meu pai tem um ponto de vista e eu tenho o meu, mas isso é bom porque  assim as coisas andam melhor, porque quando um tá errado, o outro tá certo e isso faz com que nossa loja cresça e esteja sempre atualizada”, filosofa Júnior.

“Mercadologia” – curso que só se aprende no Mercado
Para ele o trabalho é puxado, por o Mercado exige muito. Entre estudar e trabalhar, preferiu a última opção, quando conclui o 2º grau. “O que eu aprendi foi o suficiente para trabalhar neste ramo. Mas fiz cursos, a leitura me ajuda bastante”. E brinca: “Sou formado em mercadologia, a ciência que só se aprende em Porto Alegre, aqui no Mercado Público”. Só não gosta de acordar cedo, mas já se acostumou: “Adoro esse mercado, é a minha segunda casa, senão for a primeira, fico mais aqui do que em casa.” Ele recorda que começou a trabalhar no Mercado com 15 anos. “Comecei no batente cedo. Isso foi bom porque a gente dá mais valor ao que a gente conquistou. Valorizo muito minha família, a gente é unido”, diz. Na banca, Júnior se diz “um pouco de tudo, funcionário, um pouco de patrão”, sempre procurando uma forma tranqüila de tratar os funcionários. E, segundo ele, é preciso trabalhar bem com o público porque hoje as pessoas são muito exigentes – “se não são bem atendidas aqui, vai na outra banca porque os produtos são mais ou menos os mesmos”. Graziela fica exclusivamente no caixa. Mas também vai ao banco, faz pagamentos. Diz que por ser da família o horário fica um pouco mais flexível e que a relação é tranqüila, mas em casa “cada um vai pro seu lado”. E o pai completa que assunto da banca não se leva pra casa. Assim segue a família Groff. Como diz Júnior, em relação ao pai: “Ele puxa de um lado e eu do outro e os dois se completam, juntando as coisas para haver um ponto de equilíbrio”.

COMENTÁRIOS