Oswaldir e Carlos Magrão – Atravessando fronteiras

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Uma das duplas mais conhecidas no Rio Grande e no Brasil, Oswaldir e Carlos Magrão começaram a cantar e tocar juntos na década de 80 em Passo Fundo, no Bar Recanto Nativo. Depois de passagens individuais pelas trilhas do rock, abraçaram a música nativa, mixando com suas influências e experiências.

 

O disco “Verso, Guitarra e Caminho” saiu em 88, com o qual conseguiram o primeiro prêmio, na 7ª SEARA da Canção de Carazinho. Conquistando o estado, a dupla foi cantar em São Paulo, onde a parceria com Sérgio Reis trouxe o primeiro grande sucesso: “Tetinha”, vencedora do festival Rimula Schell como música regional brasileira. Mas, indiscutivelmente, a marca da dupla é a regravação de “Querência amada”, de Teixeirinha, que levou a música do RS para todo o Brasil e trouxe o primeiro Disco de Ouro da carreira dos dois. No fi nal dos anos 90, “Lago verde azul” (de Elmo de Freitas) também consagrou a dupla. São quase 30 anos de estrada, mais de um milhão de cópias vendidas e fãs que, assim como eles, atravessam fronteiras.

Foto: Letícia Garcia

A música

Carlos Magrão: Acho que nossa música tem um perfil nativista, mas, ao mesmo tempo, chega a ser urbana e regional-popular. Eu diria que nós estamos inseridos no cenário brasileiro como uma música regional-brasileira. A gente não canta só a música do sul, canta outros temas também, então somos uma dupla quase indefinida. Mas, desde o início da carreira, a gente procura ter uma linha sentimental, de temas como família, saudade, amor, campo, enfim, globalizando um pouco de tudo.

 

Oswaldir: Estamos conseguindo chegar a pessoas que não gostavam muito de música gaúcha e começaram a gostar ouvindo nossos trabalhos. Temos aí vários aspectos da música gaúcha, vários segmentos – a música fandangueira, de baile, a música nativista… Acho que a gente reúne tudo isso num contexto e consegue ser eclético. Somos uma dupla gaúcha, mas nosso trabalho é bem mais aberto. A gente conseguiu, através de algumas canções, ultrapassar as fronteiras. Eu acho que é importante quando se consegue ter essa característica.

 

Parcerias

C: Quando os festivais eram ainda bastante ativos, a gente participou de alguns. Não éramos uma dupla de ganhar festival: no máximo, conseguimos uma “música mais popular do festival”. Mas sempre foram músicas importantes, que também puxaram o disco daquele festival. Ao longo dessa caminhada, tivemos muitas participações de amigos. Moramos cinco anos em São Paulo, então isso nos deu uma bagagem muito grande para conhecer a grande mídia, os grandes nomes da música da época, como é o caso do Sérgio Reis, que participou do nosso DVD de 25 anos, que conta também com o Guri de Uruguaiana (que a gente considera o melhor humor gaúcho), o Daniel Torres e ainda o Joel Marques, um grande compositor gaúcho radicado em São Paulo.

 

O: Mais recentemente, tivemos uma participação do Dominguinhos, que infelizmente nos deixou. Também com o Nando Cordel cantamos uma música do Nordeste do Brasil, foi fantástico. Nem tantos artistas conseguiram chegar a este patamar e, logicamente, esta nossa ida a São Paulo também nos trouxe parcerias por lá. Acho que tudo foi válido.

 

RS pelo Brasil

O: “Lago verde-azul” é uma música que realmente surpreende por nós sairmos aqui do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Goiás… Há pouco tempo estivemos no Piauí e no Maranhão, e o pessoal canta as músicas, mas canta mesmo, como se nós estivéssemos aqui no estado. Claro que a “Querência Amada” se perpetua na nossa interpretação – tenho certeza que essa música foi a que abriu mais portas para nós em nível de Brasil, e acho que é uma música que mexe não somente com o povo gaúcho, mas com o povo brasileiro. Além disso, em todo canto do Brasil tem um CTG. Aliás, na Bahia está o maior CTG do Brasil, Sinuelo dos Gerais, já tocamos lá. Então cada cidade que a gente vai, ou estão formando CTG ou já tem um CTG formado, às vezes com pouca atividade, devido à distância, mas o gaúcho está espalhado por todo o Brasil. Acho que nossa música só tem um problema: ela não tem força no centro do país, na grande mídia, realmente chega um pouquinho devagar para lá. Se tivéssemos, talvez, mais força, em vários aspectos, eu acho que a coisa aconteceria mais rapidamente.

 

Tradição

O: A cultura gaúcha está perdendo algumas coisas, acho que tem muita gente se afastando, até por causa desta ebuliçãomusical que está acontecendo. Em outros tempos as crianças queriam ir mais ao CTG do que hoje. Hoje a gurizada está querendo ir mais para a “balada”, acho que isso afasta um pouco o jovem do CTG e, consequentemente, da tradição e da nossa cultura. Mas eu penso que nós podemos, com força e com vontade, readquirir todo este tradicionalismo que temos aqui no Rio Grande.

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