Osvaldo Júnior, Piá: “Não é que a gente queira ser diferente, os outros é que são iguais”.

Osvaldo Júnior, Piá: “Não é que a gente queira ser diferente, os outros é que são iguais”.

     

     Um dos precursores a rodar hip-hop e black music na cidade, Piá, 38 anos, leonino, enfrentou muitas dificuldades no começo: não havia internet, ninguém tocava este estilo de música, jabá corria solto e o preconceito era grande. “No primeiro dia que comecei na Ipanema um sujeito ligou dizendo: “ô negão macaco sai dessa rádio que isso não é pra ti”. Piá faz a ressalva que esse não é o perfil do ouvinte da emissora, mas exemplifica o preconceito. O apelido Piá vem desde os 11 anos por andar sempre com “caras mais velhos”, aliado ao fato de demorar para se desenvolver fisicamente. O Piá cresceu e hoje define-se como comunicador profissional de rádio, com ênfase na música negra. Vê a Ipanema como um amigo com quem possa compartilhar novidades, música ou comportamento. Leitor de Jack London, está há 16 anos na “ovelha negra”.

 

     Considera a chegada na rádio como um acaso. “Muita gente estuda jornalismo para chegar neste meio, eu não. Meu sonho sempre foi fazer minha música, fazer rap e produzir outros grupos”, conta. E foi assim que chegou até Kátia Suman, que na época, em 1994, produzia o programa Elétrica Live, que ela apresentava em casas noturnas, levando sempre três bandas de gêneros diferentes. Nesse tempo ele tinha o grupo Os Lordes. A rádio também tinha “A Hora do Demo”, só de bandas novas, onde apresentou trabalhos do seu grupo. Kátia, então, o convidou para fazer um programa piloto de hip-hop. Ela já apresentava um programa do gênero, mas como já era também gerente de programação estava atarefadíssima. Aprovado no teste por Kátia e outros diretores, fez sua estréia então com o programa Projeto Rap Porto Alegre, em 1995.  

 

Do vinil para o CD

     A época era de transição, inclusive na vida pessoal – “uma confusão”, define. A mudança do vinil para o cd também era uma dificuldade, porque os CDs eram muito caros. Era preciso ir à luta ainda mais. E quando percebeu que a emissora precisava de mais um operador, can­didatou-se. Novamente para Kátia. “Pô, Piá mas tu sabe trampar?” Não sabia, mas encarou. Entrou em cena a uma hora da manhã. “O cara que ia me ensinar a noite toda, ficou 15 minutos. Comecei com o Cláudio Cunha. “Estamos aqui com operador novo, o Piá que já começou a babar!” E por aí foi: apresentando o programa uma vez por semana e trabalhando diariamente como operador. 

 

O auge do hip-hop

     Em seguida começou a gravar comerciais, principalmente a pedido de anunciantes de lojas de surf e skate, que gostavam do timbre de sua voz, mais grave. Não demorou muito e estava fazendo novos programas, como o Bem Bolado, Light Grooves e 100% Grooves. O hip-hop começou a crescer muito e começaram a rolar muitas festas . Piá estava num bom momento, resgatando o funk dos anos 70, nacional e internacional. “Quando começou tinha muitas dificuldades de equipamentos, era muito caro, desde o toca-discos, bateria e teclado. Acho que o meu programa ajudou para tocar os músicos daqui. Entre 2005 e 2007 foi o grande momento. Hoje que o pessoal tem mais equipamentos e internet, deu uma caída, não sei por que”, avalia. Ele acredita que talvez seja um momento de transição, numa época em que as coisas acontecem de maneira muito rápida, com excesso de informação. 

 

Música negra e sua raízes

     A trajetória dele sempre foi marcada por muita pesquisa, desde 1989, quando fez o primeiro show, tempos de Mano Délcio e Grupo Jara, com o Brother Neni. Para ele, a música é como história, “uma coisa vai levando à outra”. Assim para entender o hip-hop chegou à black music, ao funk, ao soul. Às raízes, em síntese. E começou tocar tudo isso, o que causou muita incompreensão. Se tocava black music americana e nacional com Tim Maia, Jorge Benjor, Sandra de Sá e outros, o pessoal estranhava, achando que era música de play-boy. O que para ele era uma coisa de raízes, uma referência aqui como Barry White, Curtis Mayfield ou Isaac Heyes, que para os adeptos do hip-hop, bem mais radical, identificado com a favela, soava muito estranho. “Eu me sentia mal compreendido. A idéia era ir nas origens, nas misturas e o hip-hop é isso, vários elementos da música negra e estilos para fazer uma nova música”, resume. 

 

O lado social

     Profundamente identificado com o gênero, Piá faz muitos trabalhos voluntários e remunerados na área social, na atual FASE e antiga FEBEM. “É uma coisa que me dá prazer, de através da música levar alguma coisa positiva para alguém que está num momento difícil da vida. E trabalhar com entretenimento no Brasil e muito difícil, ainda mais com o hjp-hop, onde o preconceito é muito grande por ser música de negros, de baixa renda”. Mas, mesmo sendo forte, acha que o racismo está diminuindo. Cita a Beyoncé, o músico Jay Z, o ator Denzel Washington e até o presidente Obama como expressões de uma nova realidade negra, de elevação da auto-estima. “A música tem que ultrapassar todos os preconceitos”, diz ele, lembrando que o hip-hop é universal. Mesmo assim, se vai tocar na Dado Bier, dizem que é muito periferia demais, ou se vai tocar em lugares mais excluídos, dizem que é playboy, justamente por fazer uma grande mescla dos estilos negros. 

 

O que é o hip-hop e retorno do trabalho

     Constitui-se de quatro elementos: a poesia rap, que é o cantar falado; a música, comandada pelo Dj; as artes plásticas que é o grafitti e a dança dos break-boys. Nos Estados Unidos e Europa ela tem uma forte conotação social, falando de criminalidade, violência, racismo, mas principalmente é a música que traduz o espírito da juventude menos favorecida. “É a vontade daquele jovem excluído da sociedade se mostrar e o hip-hop deu esta oportunidade. É a voz de quem não tinha voz”. Sente-se realizado pelo trabalho que faz, dando força e divulgando grupos como o Da Guedes, Manos do Rap, Revolução RS, entre outros. Colorado, gostaria que as pessoas que se identificam com ele fossem seus amigos e não apenas ouvintes.

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