Oscar Endres: vou sentir mais saudades dos clientes do que da loja

Oscar Endres: vou sentir mais saudades dos clientes do que da loja

 

Um dos seus maiores orgulhos nos 57 anos de Mercado é ter tido a carteira sempre assinada. Ao contrário de muitos outros que estão há décadas no Mercado, Oscar Endres começou e terminou sua carreira num único lugar, a sua querida Banca 43, uma das pioneiras em especiarias no Mercado Público. Ali ele chegou em 31 de março de 1954, aos 21 anos. Casado com Donatília há 51 anos e prestes a fazer 78 anos, em junho, o velho guerreiro está em fase de transição, passando o bastão para uma nova geração. Seu único desejo é que sua clientela de amigos continue sendo sempre bem tratada.

 

O garoto veio do interior de Montenegro para prestar o serviço militar. Já não tinha mais referências na sua cidade. O pai adoeceu e vendeu o pouco que tinha para ir para outra colônia. O dinheiro foi todo gasto em remédios em vão, acabou falecendo, quando o garoto tinha apenas 12 anos. A família, então, dispersou-se. “Cada um teve que sair para a sobrevivência”, diz ele, que desde cedo trabalhava na agricultura e com recolhimento de leite, naquela época feito a cavalo. Foi levado para um colégio de padres, em São Leopoldo, para trabalhar. “Tive muito apoio deles, me serviu como educação e disciplina”, recorda. Depois veio para Porto Alegre, para o quartel. Terminado o compromisso com a pátria, procurou o Mercado. Como não apareceu nenhuma oportunidade, trabalhou um tempo como pedreiro e assistente de obras. Mas, o Mercado era o seu destino. E teve uma chance exatamente na Banca 43. Falou diretamente com o dono, Arlindo Muskopff. Lembra até hoje as perguntas do primeiro e único patrão: o que sabia fazer, se falava alemão e se sabia fazer contas de multiplicar.  E pronto, o emprego era dele, com direito a um salário mínimo de 1.800 cruzeiros. E no dia seguinte, carteira assinada.

 

De empregado a dono

Pouco mais de 20 anos na banca, uma grande mudança. Conta Endres: “Quando ele (Arlindo) se retirou, passou a responsabilidade para mim e mais dois empregados. E nós três assumimos a banca muito bem, conseguimos construir a marca dela”. Os novos donos: ele, o sobrinho Cláudio Klein e Neroci de Almeida, que assumem em 1976. Lembra que no Mercado tinha outras bancas que falavam alemão, um costume da época entre a colônia alemã, como a Banca do Holandês. Era um público mais exigente e acostumado com os padrões e costumes europeus. Mas, o grande impulso, especialmente para a Banca 43 foi com o saída do Armazém Riograndense, que repassou todos os seus clientes para a banca. O Armazém era, então, o ponto mais tradicional e completo da cidade em produtos do gênero. Seu slogan, lembra Endres, era: “Se não encontrar no Armazém Riograndense, não precisa procurar”. Com o seu fim, os clientes não precisaram procurar muito onde achar suas especiarias, foram logo para a Banca 43 que tinha comprado as bancas ao lado, 42 e 44.

 

As delícias importadas

Mesmo com a nova situação, a antiga rotina não mudou muito. Continuaram a trabalhar da manhã até a noite. Mas quando “as coisas começaram a melhorar”, passaram a ter mais folga, cada um. O salto mesmo foi a partir de 1990, com a liberação das importações pelo presidente Fernando Collor, depois do controle de uma inflação galopante. Com a liberação entraram queijos, presuntos cozido e cru, azeites e vinagres importados e outras especiarias. Também o que contribuiu muito para o desenvolvimento do negócio foram as reformas, o surgimento de novas máquinas e a variedade de produtos. Assim como as viagens internacionais. “As pessoas começaram a conhecer produtos importados e passar a pedir. Os importadores aumentaram muito este fluxo de mercadorias importadas e com preços competitivos”, diz Endres.  Entre estes produtos, vinhos argentinos, presunto Parma, Serrano, geléias, sardinhas portuguesas e espanholas, chás, filé de anchova, azeites italianos, portugueses, arenque holandês, etc, com bons preços.

 

Os velhos tempos do Mercado

Quando Endres chegou a maior parte do Mercado era de secos e molhados, embora já houvessem alguns produtos mais sofisticados, vindos de caminhão de São Paulo. O porto era para coisas do interior; ovos, manteiga, galinha viva. “Antigamente não se vendia galinha morta aqui. Todos os donos trabalhavam nas bancas, usavam seus aventaizinhos e atendiam os fregueses no balcões. Hoje o Mercado está muito iluminado, limpo. Quando não tinha luz você não via a sujeira”. Dessa época ele recorda que se vendiam muitos enlatados: carne, presunto inteiro, banha, feijoada e até língua de boi e ovelha. Presunto cru ficava pendurado meses e queijos que não existem mais, de cheiro agressivo. Como não havia congelador, os produtos ficavam em pequenos expositores. Manteiga ficava em barras, dentro de tinas de água. Na época só a famosa geladeira “Frigidaire”. A carne era vendida no balcão, com manejo de serra, facas e machadinha. “Os clientes traziam de casa um prato ou uma panelinha para levar a carne, embalada em papel manteiga”, recorda. Hoje ele acha que o Mercado tem bons funcionários. “Mas todos dependem um pouco do seu patrão, que é quem faz o funcionário”.

 

Família e Banca, atenção e dedicação

Como é comum nos antigos donos de bancas, a família fazia parte. Mas por acaso. O filho, formado em física, chegou a trabalhar na manutenção de aeronaves da Varig, mas viu que no Mercado seria mais rentável. “Se chegar às seis da manhã e ir até às sete, de segunda à sábado, pode assumir”, foi o que disse o pai ao filho iniciante. E foi sempre boa a relação. O jovem falava inglês e isto ajudou bastante com o público mais sofisticado. E aprendeu bem o ofício, principalmente nas compras, que exige um pouco mais de conhecimento. A variação é muito grande, basicamente no que se refere às frutas secas. As filhas, Eloisa e Eliane, formadas, têm outras atividades. Embora muito dedicado à família, sempre foi um homem muito interessado e atento às novidades relacionadas ao seu comércio. Sempre pesquisando, lendo e se informando, seja em revistas, jornais ou viagens pelo mundo –  Uruguai, Chile, Argentina, Estados Unidos e países da Europa. Dá pequenas “aulas” sobre queijos, bacalhau, frutas secas, temperos, vinhos e degustações. Por isto, tem muita autoridade quando diz que hoje temos praticamente quase tudo que existe de melhor no mundo.

 

Mais que clientes, amigos

Considera fundamental o respeito com o cliente, coisa que hoje já não se vê muito, observa ele. Faz questão de dizer que os seus clientes acabaram se tornando verdadeiros amigos. Ligam, procuram, além das idas regulares na 43. Cita vários famosos, como o recém falecido Rudy Armin Petry, ex-presidente do Grêmio, os ex-presidentes Emílio Médici e Ernesto Geisel (sua filha sempre que vem do Rio vai na 43), os artistas Paulo Autran, Ivon Cury e Hebe Camargo, o paisagista Burle Marx, ex-governadores como Paulo Amaral, Antonio Britto, a atual senadora Ana Amélia, o escritor Erico Veríssimo (que certa vez lhe deu um livro) e seu filho Luiz Fernando Veríssimo. Cita com especial deferência Ester Nostrowsky, filha do criador da Feira do Livro, Maurício Rosemblat e Maria do Brasil de Souza, mãe do ex-ministro da Educação, Paulo Renato de Souza. Pessoas de quem recebe ligações e desenvolveu uma relação de amizade. Mas para ele, a Banca nunca fez distinção: pobre, rico, cor, religião – todos iguais.

 

Realização

Considera-se um homem realizado, com uma família que tem orgulho do seu trabalho, o de ter sido um dos precursores em trazer qualidade para o Mercado. Bem conservado, aos 77 anos diz que o segredo, em primeiro lugar, é a alimentação, incrementada com um bom vinho, lembrando que nunca foi “da noite e da rua”. “Dou minhas caminhadas, quando posso, levanto cedo”, revela. Considera-se um homem correto e tem muita gratidão ao Mercado, a quem deve tudo o que possui. “O Mercado já passou por tudo, incêndios, enchente e ainda é o maior ponto de vendas e onde melhor se compra coisas boas e frescas. Representa a minha vida toda, basta dizer que tenho mais de meio século aqui dentro”, sintetiza.

Foto: Fabrício Scalco/JM

 

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