Os portos de Porto Alegre, históricos e longe do seu verdadeiro potencial

Centro Histórico, por Emílio Chagas 

Os portos de Porto Alegre, históricos e longe do seu verdadeiro potencial

Foi um passeio diferente. Desta vez o Programa Viva o Centro a Pé foi via fluvial, ou seja, um passeio pelo Guaíba, em um roteiro pelos três portos da cidade: Cais Mauá, Cais Navegantes e Cais Marcílio Dias, tendo como guia Vanderlan Vasconselos, diretor da Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH). A bordo do barco Cisne Branco, ele desvendou um pouco este pequeno mundo que, mesmo estando dentro do Centro Histórico da cidade, é desconhecido pela sua grande maioria de moradores. Vanderlan tem grandes expectativas com o Pré-Sal que, acredita, terá um papel fundamental no desenvolvimento do Pólo Naval do Rio Grande do Sul. 

Trata-se de um dos maiores portos marítimos do país, em extensão, com oito km junto ao Guaíba, movimentando seis milhões de toneladas de carga/ano. A situação hoje é de transição e revitalização. Primeiro, o Cais Mauá, que foi o mais importante deles, não mais vai operar como tal. No local surgirá um grande complexo turístico-comercial-cultural, que terá início em agosto, com investimentos na ordem de R$ 500 milhões. Prevê também a construção de duas torres e um Shopping Center que em nada lembrarão o velho Cais Mauá e a situação de abandono que se encontra hoje. Já no início do passeio percebe-se este quadro, denunciado por velhas carcaças de embarcações e navios abandonados ao longo do seu curso – um deles, inclusive, com carga perigosa para a população e o meio-ambiente. Estes navios, informa Vanderlan, estão sendo negociados com o governo paraguaio, em troca de uma dívida de R$ 6 milhões. Negociação concluída, serão publicados editais para as suas vendas. Em menos de um ano, adianta o diretor, três navios já foram removidos, depois de 21 anos atracados no porto. Junto ao armazém C6, em cuja doca ainda restam dois navios abandonados, deverá ser construído um novo terminal turístico internacional para passageiros. “São navios que chegam a Rio Grande e que, a partir do terminal, poderão vir até Porto Alegre e as pessoas desembarcarem”, diz Vanderlan, acrescentando que o porto é considerado área de fronteira, alfandegada, controlada pela receita e polícia federal.

Cais Navegantes, marcado por irregularidades

O armazém C6 está justamente na divisa entre o Cais Mauá e o Cais Navegantes, que hoje concentra a maior parte das operações portuárias. E é nele que residem os principais problemas hoje, com uma série de ocupações irregulares.   De início apresenta-se um descampado de 36 mil m², onde deverá ser instalado um terminal de contêineres. Também vê-se o prédio da CESA, que se encontra em um processo de falência há mais de 20 anos, ainda em situação de débito com a SPH. “Alguma solução vai ter que ser dada, talvez uma parceria público-privada”, arrisca Vanderlan. O fato é que ao longo do Cais encontra-se uma série de situações irregulares, com pessoas em situação ilegal e até serviços terceirizados em locações igualmente ilegais. Estes ocupantes, incluindo os chamados areieiros, até hoje não têm nenhum contrato assinado, estão sendo notificados e vários processos já estão em andamento na justiça. Todos estes espaços serão legalmente disponibilizados através de licitações, depois das desocupações. No Navegantes hoje, contudo, a movimentação tanto de pessoas, como de navios é extremamente controlada através de equipamentos especiais que registram entradas e saídas. A maior parte das cargas aportadas nele é de fertilizantes, essenciais para as lavouras do estado. Mas hoje o que o porto mais tem exportado são transformadores, produzidos em Canoas, que não podem ser transportados via terrestre. Mesmo assim, sua manutenção e estrutura vão, aos poucos, sendo recuperadas, como guindastes, com décadas de funcionamento e defensas de proteção.

                                                            

 A importância do porto na economia

Para Vanderlan o fundamental é que todos tenham consciência da importância do porto na vida econômica da cidade e do estado. Ele lembra que 1/3 da arrecadação do Estado entra pela hidrovia, inclusive todo o gás de cozinha da região metropolitana. “99% das operações de importação e exportação no mundo hoje são feitas por hidrovias, enquanto que no Estado este índice é de apenas 3%”, exemplifica. Cita, como exemplo, o fato de que entre Porto Alegre e Rio Grande circula uma média de 21.500 caminhões por dia, transportando cargas para as quais apenas cinco navios bastariam. “Isso significaria uma grande economia de gasolina, estradas, vidas e na mesa do trabalhador os custos seriam reduzidos em até oito vezes. Vem tudo somado no preço da mercadoria”, avalia. O Cais Mauá vai até a Ponte do Guaíba, onde se inicia o Cais Marcílio Dias, que também apresenta uma situação semelhante, com ocupações irregulares, ações de reintegração de posse e presença de muitos clubes náuticos – todos em áreas nobres. Entusiasmado, Vanderlan também ressalta as condições favoráveis dos portos, com profundidade (calado de 17 pés) adequada para navios de até 15 mil toneladas, o equivalente a 300 caminhões. Faz um comparativo, dizendo que dos 930 km de extensão da nossa via portuária, 90% é natural, não exigindo quase nenhum tipo de dragagem, enquanto na Europa são 10 mil km de hidrovias artificiais. Mesmo assim, faltam visão e investimentos. “Em 2010 o governo colocou um bilhão nas rodovias e só 4.7% em toda a hidrovia”, informa. Um quadro que, acredita, vai começar a mudar.

    

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