Os mais atingidos: FORÇA E ESPERANÇA DE BREVE RECONSTRUÇÃO

Os mais atingidos: FORÇA E ESPERANÇA DE BREVE RECONSTRUÇÃO

 

Foram oito os estabelecimentos atingidos no segundo piso: os restaurantes Marco Zero, Sayuri, Mamma Júlia, Taberna 32, Atlântico, Telúrico,  o espaço  Casa de Pelotas e a sorveteria Beijo Frio, além de áreas institucionais como a sede administrativa da Associação dos Permissionários, a sala do programa Monumenta, o Memorial do Mercado, COMUI e a UAMPA. Aqui os depoimentos de alguns dos seus proprietários. E suas esperanças.

 

MARCIA CARVALHO – CASA DE PELOTAS

 

“Mãe, a Casa de Pelotas não existe mais!”

 

Márcia estava em Pelotas no fim de semana. Seu filho ficou trabalhando na redecoração da loja. A primeira ligação foi só para informar que estava havendo um incêndio, mas a segunda foi para comunicar que o fogo tinha queimado quase totalmente a loja. Ele saiu a tempo de ver as labaredas no segundo piso, e 10 minutos depois elas chegaram na Casa de Pelotas. Márcia veio de manhã cedo, no domingo. Curiosamente, algumas coisas do mobiliário e louças se salvaram. Ela acredita que isso se deva ao fato de que as janelas estavam fechadas, não permitindo a circulação do ar e a consequente propagação das chamas. “Agora é reconstruir uma nova Casa, ainda mais bonita, ver financiamento e a situação dos funcionários”, diz. Das lições que ela leva, é tratar de fazer um seguro – que a Casa não tinha. Já o funcionário Richard Milán, que diz adorar o Mercado e adorar trabalhar nele, afirma que, “se sair do papel tudo o que foi prometido, vamos recuperar bem rápido o Mercado e as suas lojas”.

 

IARA FÁTIMA RUFFINO – BEIJO FRIO

 

“Quando se tem sorte, se atravessa o mundo. Com azar, não se atravessa nem a rua”

 

Recém saindo de um problema sério de saúde, em plena recuperação, e de uma reforma na sua loja, Iara foi colhida de surpresa pelo incêndio, como todos. “Agora que eu estava sentando o pé, acontece isso”, disse. Mas engana-se quem imagina que ela está desanimada ou derrotista. Realista, sim. Os negócios iam bem, tanto que ela, enquanto coordenadora da Associação de Mulheres Solidárias da Zona Norte, buscava um espaço maior no Mercado. Como não foi possível, resolveu fazer uma pequena reforma na Beijo Frio e deixar o espaço mais aconchegante. Quanto ao incêndio, diz que não está sozinha nesta luta, e que tem muita esperança nos governos municipal e federal, com certeza de que tudo será resolvido. “Tem que superar isso, é o nosso ganha pão. Eu não tenho seguro da loja, essa é a minha preocupação. Uma loja construída com muito sacrifício, muita luta, a gente não bota no planejamento, a gente só se preocupa com segurança, nunca com seguro”. A sugestão dela, enquanto o Mercado não reabrir, “é botar uma feirinha na frente, como a Feira do Peixe, até o Mercado ficar pronto de novo”. Já Rosana Guimarães, que também trabalha no Beijo Frio, diz que a maior preocupação é com as meninas da Associação, que está no Mercado desde 2009. Ela ficou sabendo do incêndio por uma amiga, e quando viu as imagens do fogo na TV, literalmente caiu no chão.

 

GILBERTO ESTEVES E LEILA SALAMI ESTEVES – MAMMA JÚLIA

 

“Dona Leila, tá queimando o Mamma!”

 

“Trabalhamos superbem nesse sábado, foi muito legal o movimento. Em torno de 16h encerramos a cozinha, começamos a fazer limpeza, e pouco depois já estávamos indo embora, para ir para a praia, direto”, recorda Gilberto. Na praia, ao sair do banho para preparar uma janta, deparou-se com a esposa desesperada ao telefone. “As gurias, nossas funcionárias, começaram a ligar, histéricas, chorando: ‘Dona Leila, tá queimando o Mamma’”, conta Leila. O casal tentou manter a calma, incrédulo, achando que era só “um foguinho”. Mas aí o filho também ligou, dizendo que estava na TV. “Nós perdemos tudo, literalmente. Não tem nada lá dentro, só tem o coração do Mamma, que somos nós, os amigos, que nos ligaram. Isso vai ficar firme e forte. E os nossos funcionários são maravilhosos com a gente, e a gente está batalhando por eles”, sintetiza Leila. A manutenção dos 12 funcionários, aliás, é a principal prioridade, informa Gilberto, esperando que a burocracia não emperre o processo de liberação de recursos e auxílios. “A gente tem muitas perguntas e poucas respostas”, diz. “Mas o pessoal se disponibilizou muito, é impressionante. Prefeitura, Estado, todo mundo se disponibilizou de uma forma inacreditável, e muito carinhosa. A gente percebeu que o pessoal realmente está muito focado no Mercado, é isso que nos alivia um pouco”, acrescenta Leila. Com muitos anos de vivências no Mercado, 16 deles só no Mamma Julia, os dois têm muita esperança que tudo logo se resolva: “Eu gostaria de dizer daqui a 90 dias, ‘olha, tá aqui o espaço, e vamos começar a vida de novo’”, finaliza Gilberto

 

FRANCISCO ASSIS NUNES – SAYURI

 

“O Sayuri estava de vento em popa. E espero voltar mais forte ainda”

 

Ele tinha acabado de chegar do supermercado, com as compras para levar segunda-feira para o Sayuri, quando um vizinho avisou: “Chico, tá pegando fogo no Mercado”. Achou um absurdo e tratou de ligar a TV. “Pelas imagens, já vi que estava pegando fogo no meu lado. Aí eu já peguei o carro e vim para cá direto. A família queria vir e eu disse: ‘Não, não, não adianta, você irem, vou eu’”. Ficou o resto da noite lá. Depois não conseguia dormir, de preocupação, sem saber o que aconteceria, porque viu que tinha pegado fogo em tudo. “Mas agora é começar de novo, ir à luta, reformar o que tem que reformar. A preocupação da gente é que essa reforma seja feita meio rápida, porque quanto mais tempo demorar, mais difícil será, tem a despesa”. Com 13 anos de funcionamento e 10 funcionários, não sobrou nada do restaurante. Outra preocupação é em relação à mão de obra, segundo ele, difícil de conseguir, “mais problemático até do que uma reforma”. “Mas, graças a Deus, está vindo um incentivo aí, tipo um salário-desemprego, para os empregados ficarem recebendo nesse período e, ao mesmo tempo, fazerem cursos profissionalizantes”.

 

MÁRCIA MASCARELLO – TELÚRICO

 

“Foi quatro, cinco minutos e pegou fogo em tudo”

 

Foi Márcia quem avisou os bombeiros. Ela estava pintando o seu restaurante, o único vegetariano e vegano do Mercado, quando uma das pessoas que a ajudava na pintura “sentiu uns estalos e botou a cabeça para fora”. Viu que estava pegando fogo na loja do lado. Então, tentou arrombar a porta, mas não conseguiu. Quebrou o vidro, puxou, “mas não deu”. Foi tudo muito rápido. “Quando a gente voltou para a minha loja, já estava desabando o teto da minha cozinha”, conta. Na confusão se perdeu da filha, de 10 anos, que a essa  altura tinha sido levada para baixo por um guarda. “A gente pegou o que pôde, em quatro ou cinco minutos toda a parte da frente já estava pegando fogo”. Agora? Ela responde com perguntas: “Começar por onde, contar com quem, quem prometeu vai cumprir, a gente deve esperar, o que é que a gente faz? A gente ficou sem chão. Aquilo ali, como no caso de outros, era a nossa vida. A gente trabalha num dia para pagar as contas no outro”, resume. Sem nenhuma reserva ou seguro, Márcia não pode parar. “O grande prejuízo é ficar parado todo esse tempo, até que reestruturem (o Mercado) e a gente volte a trabalhar, porque sabemos que isso vai levar muito tempo. A gente espera realmente que quem prometeu, cumpra, que use o dinheiro disponível, da seguradora, do Funmercado, para reerguer logo e para que a gente possa voltar o mais breve possível”. Com o restaurante prestes a completar 15 anos de operações, Márcia agradece aos que se solidarizaram com o Telúrico, esperando voltar logo.

 

RODRIGO FARIAS – SUSHI SENINHA

Localizada no andar térreo, porém embaixo de lojas que incendiaram completamente, o Sushi Seninha teve 50% de perda, um dos mais atingidos do primeiro piso.

 

“Ouvi no rádio: fogo de grandes proporções no Mercado Público!”

 

“Estava ouvindo os comentários do jogo do Grêmio, quando alguém anunciou o incêndio. Prontamente pegamos um táxi e corremos para cá. Chegamos aqui e vimos um fogo grande, pessoas, bombeiros, Defesa Civil, muita apreensividade, amigos preocupados, só podia rezar”, lembra ele. Para Rodrigo, o importante é que não houve vítimas, e que os animais foram resgatados. “Foi um trauma muito grande para nós. Tivemos praticamente 50% da nossa loja danificada”. Localizado no térreo, sob os restaurantes que queimaram, o Sushi Seninha sofreu duplamente, com a intensidade do calor do fogo e com a água que inundou o espaço. Com 14 funcionários, sem previsão de receita, Rodrigo se diz preocupado e confiante na ação das autoridades e dos órgãos públicos, as quais “torce para que continuem apoiando”. Mas, o principal para ele, é a solidariedade com os colegas mais prejudicados, principalmente os que perderam tudo. Porém, com fé, união e força, acha que é possível reverter. “Quem conhece o perfil da nossa equipe sabe que vamos reconstruir do zero e ainda melhor. Estão todos muito a fim dessa reconstrução e acredito que a gente consiga unir mais ainda a nossa equipe”.

 

Fotos: Fabrício Scalco e Greice Campos

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