Os Lobos do Mar

Os Lobos do Mar

     A vida de pescador não é nada fácil. Às vezes passam dias e dias em alto mar, e nem sempre são recompensados. Nesta dura jornada, trazendo pouco peixe. Acompanhe aqui um pouco da realidade desses velhos marujos do mar.

     Na manhã de quarta-feira, 13 de agosto, três barcos de pequeno porte, entre 23 a 30 metros, com capacidade média de 50 toneladas, lançaram suas amarras no cais da indústria Torquato Pontes S.A., em Rio Grande Abrem os porões para a retirada das suas colheitas em alto mar.  Congrio rosa, peixe sapo, mangangava, enguia, linguado, anchova, gordinho, castanha, borgthi, papa-terra, merluza, corvina, tira vira e muitos outros pescados, ali estavam, junto a uma grande quantidade de gelo. “Hoje recebemos os barcos, estão carregados de mistura” comenta Ari Rodrigues da Silva, comprador da JL Cunha, referindo-se à variedade de espécies que irão ser comer-cializadas. Assim como Ari, outros compradores se aglomeram em volta do proprietário do Barco São Caetano. Todos negociando as quase 20 toneladas de pescado. Após uma rápida negociação começa os preparativos para o desembarque. Há 35 anos atuando no ramo de pescados, natural de São Lourenço, 68 anos, Ari não está muito satisfeito com a carga. Acredita que o dia não será bom para compra. Espera para ver o que irá encontrar nos outros dois barcos que vão lançando suas ancôras próximo aos cais.
     Uma pequena plataforma é montada para o escoamento da pescaria. Como um guindaste, um tonel é lançado ao porão do São Caetano, de lá para a plataforma, em seguida para o cilindro de água. Em poucos minutos o pescado já está na esteira a caminho da linha de produção. Do alto da gabine, Ivo Pedro Nunes, o mestre da embarcação, parece descansar seus olhos com o vai e vem do desembarque. Talvez ele buscasse um pouco de movimento ao contemplar o horizonte, foram quinze dias em alto mar. “Estivemos a mais de 20 milhas da costa, lançamos várias vezes a rede ao mar”, diz ele que há mais de trinta anos tem o mar como quintal. Busca em um pequeno radinho AM notícias da terra que o jogou ao mar. Uma das notícias que mais agradam os seus ouvidos é o sinal da sonda, que é utilizada para localizar os cardumes em alto mar.
      Em sua gabine, Nunes conta ainda com uma marroca, cama particular, afinal, mestre tem suas vantagens. Mas lembra do tempo que começou como pronheiro. Mas passou a motorista também. “A embarcação é bem organizada, cada um tem a sua função”, informa. No São Caetano são nove tripulantes ao todo. Sempre pronto com um bom café forte, o cozinheiro comanda uma pequena parte da embarcação, e é na rede que vem do mar a sua matéria-prima para os seus pratos. “Todos os dias tem peixe na mesa” comenta com ar sério o acanhado cozinheiro. Mas não deixa de comentar que, nesta mesma época, no ano passado o mar foi mais generoso. Lá no porão enquanto sobe a rede, o gelador cumpre o seu papel – a cada remessa de peixe uma camada de gelo para manter o pescado fresquinho “o peixe entra ainda pulando no gelo”, comenta Nunes. “Também temos o motorista, o pronheiro e o geral. O geral é o faz tudo”, ressalta o Mestre, todos filhos de pescadores.

Caiu na rede é peixe: congrio, abrotéa, corvina..
     A pesca é como uma caçada em campo aberto, é difícil saber o que irão encontrar quando jogam suas redes. Mas quando ela vem pesada, esses velhos lobos do mar seguem firme até ver a sua presa abatida. “E enquanto dá peixe estamos pescando, cansei de virar noites erguendo a rede”, relembra o Mestre. Lançam suas redes no entardecer. São duas de oito mil  metros cada, esticadas a uma profundidade de 60 a 100m, com malha de 10mm. No outro dia junto ao nascer do sol, são recolhidas. Este movimento se repete durante todos os dias em que os pescadores estão em alto mar, “quanto mais vezes lançamos a rede melhor é, senão fica muito peixe na rede, o que acaba por atrapalhar”, conta ele. Mas já teve casos em que em uma só armada de rede foram capturados mais de 5 toneladas. O mestre lembra que em 2005 teve o seu barco lotado com quase 62 toneladas de castanhas. Mas saudade mesmo ele sente da terra firme, dos amores e da vida cotidiana de Rio Grande. Contempla o horizonte, entre seus lábios escorre “mas tenho que enfrentar essa saudade”. Pensando talvez nos três dias que passará em terra firme.
     Logo ali ao lado, em terra firme, está a área de descarga, espaço tercerizado pela indústria. Um galpão fechado com esteira por onde sete funcionários vão selecionando os pescados. São centenas de congrios rosa, peixes sapo, merluzas, bagres, corvinas, abrotéas e as mais variadas espécies. Classificados por tamanho e peso, são colocados em caixas com 20 kg cada. Dali em diante o destino será as indústrias. Anexo à área de desembarque, está a indústria Tor-quato, uma das pou-cas indústrias que sobreviveram após a década de 80. Recebem o pescado inteiro, ainda fresco. Os de escamas vão para a passagem, para a retirada delas. Em seguida o peixe é aberto e limpo por mais de 10 funcionários. Quando o peixe dá filé, após o corte são montadas fôrmas para o seu congelamento. Élio Pontes, filho do proprietário, conta que após os cortes o filé passa por uma seleção, para não perder a qualidade. “São tiradas as partes menores, buscamos sempre um bom filé”, comenta.
     Após a seleção, várias fôrmas vão para uma grande câmera fria, onde são congeladas até o momento da desforma. Os miúdos dos pescados e outros resíduos são aproveitados para a produção de uma farinha, que será utilizada para adubos e rações animais. “Aproveitamos tudo o que a natureza nos oferece”, diz ele. Durante a safra a indústria processa mais de 20 toneladas de peixes ao dia com o número de 150 funcionários. É, mas a atividade pesqueira tem seus altos e baixos. Tem mês que não conseguem, arrecadar o suficiente para manter a produção. Como se não bastasse a falta de continuidade na produção o peixe ainda tem o seu preço regulado pelo mercado. Diz Élio: “O peixe que compramos a um real hoje, daqui a dois meses pode estar custando mais de quatro”. Hoje toda a produção que saí da indústria recebe autorização da vigilância sanitária nos três níveis municipal, estadual e federal. “O nosso peixe é vendido para atacados, mercados e supermercados de estados com São Paulo, Rio de Janeiro e vários outros do Nordeste”. Após o congelamento, os peixes são devidamente embalados e encaixados para serem enviados a consumidores dos mais variados balcões. Enquanto isso, os lobos marinhos, no cais em volta dos barcos, se deliciam com os restos de peixes que alguns bons marinheiros atiram na beira da Lagoa dos Patos.

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