Os italianos do Mercado

Os italianos do Mercado

     Por, Sérgio da Costa Franco

     O episódio é bastante antigo. Foi na noite de 5 de junho de 1912 que um grande incêndio aconteceu no miolo do Mercado, local então ocupado por numerosas bancas construídas de madeira, antigas, pois vinham do ano de 1887, quando o Município havia contratado a edificação de 24 chalés para dar melhor aproveitamento ao edifício. Por ser à noite, quando não havia vigilantes de plantão, nem comércio aberto, o sinistro foi devastador.

     Não houve vítimas pessoais. As grandes sacrificadas foram as galinhas, pois naquele tempo, antes da refrigeração e dos alimentos congelados, só se negociava com aves vivas, que eram levadas ao Mercado e ali conservadas em gaiolas de sarrafo, denominadas “capoeiras”, coisa que as novas gerações nem conhecem. Havia centenas de “penosas” na área do incêndio, e se não fosse a providência de alguns abnegados que enfrentaram o calor do fogo para  libertar as aves em perigo, todas teriam sido assadas implacavelmente.
     A propósito deste incêndio, elaborou-se um inquérito administrativo e policial, de que existem cópias, tendo sido ouvidos minuciosamente os donos das bancas sinistradas. E o que mais nos impressionou, na leitura desse documento, foi a absoluta prevalência de italianos entre os comerciantes prejudicados. Fizemos a listagem de seus nomes, alguns dos quais são tronco de conhecidas famílias porto-alegrenses.
     Benjamin Zanettin declarou residir em Porto Alegre havia 14 anos, estando no Mercado há 12. Vittorio Morandin residia no Brasil há 22 anos, estabelecido há 21 no Mercado. Salvatore Mancuso tinha l2 anos de Brasil e igual tempo na casa. Francisco Sirangelo Primo se disse atuando no Mercado havia 22 anos. João Gualhanoni contava  25 anos de Brasil e de Mercado. Ernesto Paolini, qualificado como austríaco, seria provavelmente um tirolês, da área italiana do Império Austro-Húngaro, e estava há seis anos no estabelecimento. Vicente Salatino tinha 22 anos no país e se encontrava há sete no Mercado Público. Braz Gualhanoni, naturalizado brasileiro, comerciava na instituição havia 23 anos. Eugênio Benedetti residia no país há 15 anos e já tinha 2 de Mercado. Michele Rao tinha igual tempo de Brasil e de Mercado: 16 anos. Pedro Mabilia, imigrado há 22 anos, contava seis de estabelecimento. João Bonetti, residindo no país desde os l0 anos de idade, fazia l0 anos que se estabelecera no Mercado. Finalmente, Vitório Antonelli, morando no país havia 26 anos, operava no Mercado há 9.
     Esses imigrantes residiam no Brasil havia vinte anos, em média, o que coincide com o princípio da década de 1890, que foi o auge do movimento migratório de italianos para a América do Sul. Ao que tudo indica, muito cedo abraçaram o Mercado Público e dele tiraram sua subsistência.

 

 

 

 

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