Os irmãos Toniolo e suas lembranças do Mercado

Os irmãos Toniolo e suas lembranças do Mercado

 

Emílio, Arlindo, Aquelino, Benevenuto e Amélio deixaram as marcas da família Toniolo na história do Mercado Público. Aqui as histórias e façanhas desta família contada por Emílio, 83, Arlindo, 94, e Aquelino Toniolo, 85, os sobrevivente de uma família de 10 filhos.

 

Filhos de Ernesto Toniolo e Giovana Gabardo Toniolo, foram trazidos de Bento Gonçalves a pedido do irmão mais velho Benevenuto Borto Toniolo, que já estava em Porto Alegre desde 1933, vindo para trabalhar com Plácido Toniolo. Bene, como é chamado carinhosamente pelos irmãos, foi o precursor da família no Mercado, em 1938. “O Bene trabalhava na Banca 35 junto, com o Alziro, filho do Plácido.” Em pouco tempo Benevenuto compra a Banca 16, em sociedade com Alziro, que depois vende a sua parte para Arlindo Toniolo. Em 1939 é a vez de Aquelino Toniolo desembarcar na estação de trem para ficar, acompanhado do pai que, e muito preocupado com o futuro do filho, lhe alcança 20 mil reis  – tudo o que ele tinha na época. Emocionado ele afirma que tudo deu certo, e que se pudesse voltar no tempo faria tudo outra vez. Então mandam o Amélio Toniolo “descer a serra e vim ver o por do sol do Guaíba”. Assim, foi na afamada Banca 16 onde tudo começou, vendendo secos e molhados. “Antes de abrir o Mercado a gente ia no cais para abastecer a banca. Comprávamos ervilha, ovos, cebola, batata doce, charque, pé de porco e outros produtos importados e mercadorias, de todo o Brasil. Tinha que depositar o dinheiro no banco antes”, lembra Arlindo.

Aquelino começou como entregador e cobrador da banca. Naquela época, que não tinha ladrão, lembra de colocar mercadorias no bonde para entrega. “O cliente ligava, telefone eram poucos que tinham, pedindo azeite. Colocávamos a lata no bonde e no fim da linha eles pegavam. Viemos “cru” de lá, da roça. A gente teve muita coragem para fazer o que nós fizemos”, diz Arlindo. Certa vez Guglione, seu antigo patrão, o mandou levar uma mercadoria na rua Duque de Caxias, junto com um negrinho, conta. Na casa tinha uma escadaria de mármore, com tapete vermelho e tudo. Ele entrou com o balaio e de tamanco. Aí chega uma senhora na entrada, em cima da escada e diz: “Vê se vocês pisem no tapete!’. Conta que ficaram em dúvida se era pra pisar ou não no tapete. “Tudo abaixo de grito. Viemos embora. E faltou uma compra. Peguei a mercadoria e fui de volta pra entregar o que faltava. Bati na porta, mas não tinha ninguém do outro lado, eu entrei. Daí aparece um senhor lá em cima da escada e ele fez um sinal que era pra jogar o fósforo pra cima, e joguei. Bateu no peito dele. E ele ficou bravo e me xingou. Eu olhei pra trás e, como a porta tinha aberto sozinha, podia fechar também. Saí correndo e fui embora.”

Na época não existia supermercado, o Mercado tinha a função de abastecimento. Os irmãos forneciam o Grande Hotel, restaurante Suíço e grandes médicos que freqüentavam a banca: os Marciais, Moisés, Chaves, Diffinis, os Meneghetti e os Guaspari – “tudo cliente da banca”. Os produtos vinham pelo rio Taquari. Aquelino lembra ainda dos seus colegas de Mercado, os da banca  Fiambreria Renne, a Banca 2, a Banca dos Cauduros, do Vitório Mabília, dos Mancuzo, do Luiz de Salami, do Antônio Antonello,  dos árabes Cafrune, do Nual, do Rocco, a Banca 20, dos Venzon, os Gualhanoni, dos Carrelo, do Dirceu Juliam, da banca 27 e 28. “A 29 só vendia massa fresca. A 37 era dos Avazolos. A 40 e 41 do Martins. Massaferro era sorveteria. Cabrini, Café Nata, do Armazém Parolim, lembra também da Fiambreria Seleta, Café da Bolsa, de Germano e Manoel – eles faziam agiotagem nesse café, emprestavam dinheiro para os funcionários. Aquelino: “O Andrades, como era presidente da Beneficência Portuguesa, na época em que perdi minha primeira esposa – me cedeu uma cama do hospital para levar e ela poder ficar em casa. Devo muito a ele e isso eu não esqueci.”

 

A Enchente

Arlindo lembra da enchente de 41. “Era um domingo, começou a brotar a água pelos ralos em frente da banca. Na segunda de manhã quando fomos levantar os artigos importados do Chile, grão de bico e a lentilha, já estava tudo mofado,  perdido. A água passou do balcão. Teve épocas que chegamos no Mercado nadando. Era uma farra.” Jovens, Aquelino e o primo Emílio pegavam a tábua que era usada para navegar dentro do Mercado. Saíam pelo abrigo dos bondes, iam pela Otavio Rocha, desciam a Vigário José Ignácio e voltavam pela Voluntários da Pátria. “Não dava pra subir pela Voluntários por causa da corredeira muito forte”, recorda. A chegada do supermercado, nos anos 70, tirou muitos clientes do Mercado, na opinião deles. Isso que na época as pessoas trabalhavam muito mais que hoje, com carroças pra entrega, dizem. Uma vez cogitaram a possibilidade de montar uma rede de mini supermercado. Mas não foram adiante na ideia.

 

A Banca 9, incêndio

Aquelino trabalhau até 1944 como empregado dos irmãos. Em 1946 apareceu uma proposta para comprar a Banca 9.  O irmão Emílio entra como sócio na banca em 1950. Naquele tempo as bancas eram cobertas por lonas. “Formava uma bolha quando chovia, vinha o vento e dava um banho no pessoal. Para trabalhar lá, só de tamanco, devido à umidade”, recorda. Em 1973 o fogo consome as bancas 8, 9, 10, 11 e 12.  O prefeito da época era Thompson Flores.  “Ele colocou o braço no ombro do Aquelino e disse: vocês podem ficar tranqüilos que vai ficar muito melhor que antes. E dito e feito”, conta Arlindo.  Depois do incêndio eles entram como sócios, junto com Antônio e Francisco Sartori. Acharam melhor colocar um açougue, que na época era o auge. Mas Aquelino não deu muito certo – era um peixe fora da água. Trabalharam de 1973 a 75. Das estórias, que não são poucas, Aquelino lembra da esposa de um dentista, que não conseguia manteiga que, por causa da Segunda Guerra não existia, assim farinha e sal. Eles conseguiram um tablete. Com isso ficou uma das maiores freguesas.

 

Saudades do Mercado

Conta que o ambiente era muito bom. “O pessoal ia à vontade passear no Mercado, caminhavam. Vinham também à noite. Era um ambiente tranqüilo. A única coisa que tinha era o ladrão de ovos”, lembra Aquelino. E Arlindo arremata: “Do Mercado a gente tinha que gostar porque era nosso sustento. O trabalho era pesado, mas compensava. Não tanto quanto deveria, mas compensava.” Cita também o sorvete da Banca 40. “Naquela época era o melhor sorvete de Porto Alegre. O pessoal vinha de longe pra comer sorvete ali. Ela tava sempre cheia”, recorda. Já Aquelino é mais emotivo: conta que o que mais lhe marcou no Mercado foram as amizades. “Foram 40 anos no Mercado. Éramos como uma família. Os clientes, amigos e fregueses”, emociona-se. Em 1970 Arlindo encerrou  suas atividades no Mercado. Em 1979, foi a vez de Aquelino. Já Emílio ficou trabalhando por mais tempo no Mercado, na banca 3 e 1 até 1983, mais ou menos.  Mas todos com muitas (e boas) histórias para contar.

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