Os encantos do cotidiano

Crônica

Os encantos do cotidiano

Sérgio da Costa Franco*

Pede-me o Jornal do Mercado uma crônica mensal, e me comprometo em atendê-lo, com o único objetivo de voltar a exercitar uma velha prática. Mas quero também assumir um compromisso de que se vão esquecendo muitos dos colegas de ofício. Prometo que o “eu” nunca será pauta desta coluna. O mau costume de escrever a respeito do próprio umbigo, das próprias obras, das próprias doenças, do seu trabalho ou do seu lar, tem perseguido a escrita de alguns cronistas contemporâneos. É uma deformação a que não sucumbiram os mestres do gênero, como Machado de Assis, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Luiz Fernando Veríssimo ou Fernando Sabino. Quando muito, em suas crônicas, o eu deles aparece de soslaio, como participante de um evento ou como observador neutro de um episódio. Não como a personagem principal, a azeitona da empada, o espadachim do combate, o “mocinho”…

A crônica nasceu, dentro dos jornais, como uma glosa bem humorada da notícia, o comentário livre sobre algum aspecto do cotidiano. Foi assim que ela cresceu de importância, a ponto de assumir as honras de um novo gênero literário. Mas, em verdade, só prosperou quando se fez espelho da vida e do dia-a-dia, do ambiente social e da cidade. O cotidiano é tão rico e tão fértil em situações dignas de comentário, que não se justifica reduzir a pauta do cronista ao limitado mundinho de seus sentimentos e ansiedades.

Há uma explicação para essa involução da crônica jornalística. As pessoas da cidade grande deixaram de andar na rua, de conversar nas esquinas, de freqüentar os aprazíveis bares e botecos. Encarceram-se nos automóveis, fazem compras pela internet, e pela internet pagam suas compras, quando não se utilizam dos sistemas de tele-entrega. As lojas de beira de calçada foram substituídas pelos suntuosos “shoppings”, padronizados, assépticos, policiados. A novidade e a variedade estão sendo banidas. A própria liberdade de opinar e de fazer piada está sendo coibida pelos conceitos do “politicamente correto”.

Se tudo isso não justifica, pelo menos explica os ensinamentos dos cronistas, sua devoção pelo eu e pelo círculo íntimo.

Assume-se aqui o compromisso de falar das coisas e dos outros. Não do próprio cronista, cuja vida só interessa aos seus amigos e familiares. Quando oportuno, vamos falar dos preços que dispararam. Das saudades que despertam, o Plano Real e a estabilidade de preços. Do churrasco que se tornou mais caro que um bacalhau a Gomes de Sá. E também desse novo ambiente do Centro, mais ou menos livre de camelôs. Do colorido entorno do Mercado, onde convivem o músico de rua, a estátua viva, o pregador da Bíblia e o vendedor de infalíveis remédios da flora amazônica.

COMENTÁRIOS