Os casarões de Porto Alegre, habitando a história da cidade

Os casarões de Porto Alegre, habitando a história da cidade

 

O passeio do Viva o Centro a pé, conduzido pelo arquiteto Luiz Merino, começou pela Matriz, uma das praças fundacionais da cidade, na tradição portuguesa: uma praça no alto da cidade e outra na parte baixa. A segunda, no caso, era a Praça da Quitanda, atual Praça da Alfândega, ao lado do porto, com escravos e feiras. Da Matriz se via toda a cidade, sendo a praça emoldurada por uma espécie de pórtico, com palmeiras, formado pelo Theatro São Pedro e outro prédio idêntico, onde hoje é o Tribunal de Contas. Fazendo a ligação entre a parte alta e baixa, a Gal. Câmara, ou rua da Ladeira, como é mais conhecida. Originalmente era a rua do Ouvidor. “Mas o povo conhecia mesmo como Beco do Garapa, por causa de um taberneiro que vendia garapa na parte de baixo”, informa Merino. O arquiteto fez uma parada na esquina da Riachuelo, junto ao Theatro São Pedro, para falar do entorno, principalmente, da imponente Biblioteca Pública, construída em 1912, sob inspiração positivista e majestosa até hoje.

 

     “Menos conhecida que as irmãzinhas dela mais famosas, a Rua da Praia e a Duque, a Riachuelo é da mesma época, do século XVIII e tem muita coisa escondida”, disse Merino. Enquanto a Duque de Caxias, era a da aristocracia, e a Rua da Praia, a do comércio, no meio delas, a Riachuelo também começa a se impor com suas importantes construções. Era a chamada “rua da Ponte” (e também rua do Cotovelo), porque tinha um arroio com uma pinguela, na altura da Borges. Tão antiga e importante quanto a Duque e a rua da Praia, foi desenhada por Alexandre Montanha, o primeiro arruador da cidade, no início do século XIX. Além de inúmeros casarões, a Riachuelo abriga uma das duas únicas casas no autêntico estilo português que restaram na cidade. A outra é a Travessa Paraíso, em Teresópolis. Com o declínio do estilo português, a cidade passa a se “europeizar” na sua arquitetura. São construídos, nesta concepção, o Palácio Piratini e a Catedral, que substitui a antiga igreja neo-barroca. Os becos, típicos da região, começam a ser saneados e modernizados. Neste contexto, a Riachuelo vai desempenhar um importante papel, com os principais casarões do período.

 

A antiga rua Clara

     Esquina da Riachuelo com João Manoel. Ali ficava a antiga rua Clara, da época da fundação da cidade. Vinda das margens do rio, teve muitos problemas, sendo fechada por um marechal e um cônego. A proposta inicial era ligá-la com a Fernando Machado, extremamente íngreme, chamada então de Morro da Formiga. Só em 1930 é que foi construída a atual escadaria. Além disso, na sua esquina havia uma grande pedra, depois removida. Em1808 foi retificada pela Prefeitura e demarcado o alinhamento das casas.


Igreja das Dores

     Uma das mais clássicas igrejas da capital, também sendo restaurada pelo Monumenta. É datada de 1807, mas só inaugurada em 1901. “Uma relíquia, tombada pelo patrimônio federal em 1938. Para mim a mais bonita da cidade. Faz parte da primeira fornada de prédios tombados no Brasil quando foi fundado o IPHAN, na mesma época do tombamento de Ouro Preto, Salvador e do acervo mais significativo da arquitetura brasileira” esclarece Merino. A primeira intervenção de recuperação foi em 1980 e o processo de restauro iniciado em 2005, com a descupinização do altar e da cobertura. Em fase de conclusão, a construção das escadas das torres será outro grande atrativo. Altíssimas (uma já está pronta), permitem a visão mais completa do centro da cidade. Com características típicas do estilo rococó brasileiro, como o das igrejas do Aleijadinho, inicialmente não possuía bancos, apenas esteirinhas onde as pessoas ficavam sentadas ou de pé, como mostram algumas gravuras de Debret. “Aí se entende a função das igrejas. Era como uma praça, um grande salão, para festas”, afirma o arquiteto.

A rua de Bela e o Solar do Visconde

      O nome referia-se, evidentemente, às belas moças da região que ocupavam as calçadas desta rua que hoje é a General Canabarro. Na esquina vê-se o antigo Solar do Visconde de Porto Alegre, herói da Revolução Farroupilha e da guerra do Paraguai. Tem dois pavimentos, na linhagem portuguesa. Depois de reformado, ganhou camarinha e gradis. Em 1933 foi convertido num quartel da polícia, conhecido como Quartel dos Ratos Brancos e ao seu lado, o primeiro necrotério da cidade. Durante a ditadura militar, foi sede do famigerado DOPS. Recentemente tombado e comprado pela prefeitura e transferido por concessão para o IAB, Instituto ode Arquitetos do Brasil, que pretende construir um centro cultural no local. (Informações e doações no site WWW.iabrs.com.br)

 
 

O prédio cor de rosa

      Na altura do numero 933 encontra-se um belo exemplo da arquitetura portuguesa modernizada, ao estilo europeu. Do início do século XIX, foge às características do estilo por ter quatro andares, o último construído em 1929. Diz Merino: “Funcionava como as casas portuguesas na época: térreo com armazéns de secos e molhados e moradia de escravos e em cima, as famílias ricas”. Reformado por volta de 1870, recebeu arcos típicos do período neo-clássico, com varandas, balaustradas, balcões em curva, tudo importado da França ou Inglaterra. “As colunas e pilastras, em estilo Coríntia, muito bem feitas, ressaltam a qualidade artesanal dessa época”, observa o arquiteto. Teve muitos donos e funcionou como casa de cômodos, cortiço e prostíbulo nos anos 50. Depois de um incêndio, restou só a fachada. E foi nesta condição que chegou ao Programa Monumenta para ser restaurado. Hoje pertence a uma família alemã.

 

O prédio n° 525 da Riachuelo

     Mais à frente, outro belíssimo imóvel, restaurado, que traduz os novos ares da antiga província. Explicou Merino que, com o andar do século XIX o estilo português ficou antigo e démodé. “As casas começaram a se levantar do chão, surgindo o porão – uma casa mais alta e imponente. Foi nesse período que se introduziram ornamentações diferentes, o gradil, as vidraças. Em 1906  árvores nas ruas não eram usuais, foram ser plantadas entre 1920 e 1930, mudando a ambiência da cidade”. Começaram a surgir os jardins, fontes, palmeiras, escadarias de acesso e as casas passaram a ter pátios e recuos, como os chalés franceses. No centro só existem dois prédios assim, esta e o do Departamento de Arte Dramática da UFRGS, na Salgado Filho.  No Menino Deus e Independência restam alguns exemplares. A casa hoje é um centro de eventos.

 
 

Escola Ernesto Dornelles

     Majestosa, com colunas de 13 metros de altura, foi construída em 1913 para ser uma escola e creche para crianças. Típica da arquitetura pública da época, marcada pela imponência, como o Paço, o Mercado Público e a Biblioteca Pública, entre outros exemplos. Na década de 40 foi uma escola técnica feminina, de corte e costura, voltando mais tarde a ser uma escola da rede estadual.

 
 

A casa mais antiga de Porto Alegre, em estilo português

      “É a última com aparência de como era todo o centro de Porto Alegre, no século XIX, com medida padrão do lote português em todo o Brasil”, diz Merino.  Hoje apenas uma fachada, escorada por madeiras colocadas pela prefeitura. Ao estilo português, com armazém de secos e molhados em baixo e moradia em cima, com pé direito altíssimo, ainda mantém as aberturas originais, feitas em madeira cortada a facão pelos escravos. A única alteração foi feita no telhado, que recebeu uma platibanda (mureta), exigência de Dom Pedro I para evitar que a água da chuva caísse nas calçadas. As janelas com o típico arco em madeira, que se encontra em todas as cidades das colônias portuguesas, África e Índia, principalmente. A casa pertence à família Azevedo desde 1856. A situação atual é de um impasse que dura anos entre prefeitura (que tombou o imóvel) e o atual representante da família, que teria ideia de construir um prédio no local.

 

Rua Caldas Jr: O Beco do Fanha

     “As ruazinhas eram becos, com taberneiros e prostitutas”, diz Merino. Um desses becos era onde hoje é a Caldas Jr, que na época chamava-se Beco do Fanha, apelido de um famoso taberneiro do lugar. A população também chamava de “Rua do Quebra-Costas”, devido à sua forte inclinação. “As pessoas desabavam. E foi também a primeira a ter mão única. Não passavam duas carroças”, diz Merino. Inicialmente estava previsto que a rua subisse até a Duque de Caxias, o que não foi possível pela existência do Solar dos Câmaras, família poderosa na época, que impediu sua passagem. A rua também abriga um importantes prédios, propriedades do GBOEx, o Tuiuty, restaurado, muito para locações de filmes e o edifício Rocco, que possui hoje apenas a fachada, aguardando o processo de restauro.

 

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