Oito de março

A quarta-feira de cinzas deixou o Carnaval e fevereiro no passado para começar “de verdade” 2017. E pelo que já aconteceu na pré-temporada do cenário sócio-político, percebi que o ano será curto para tantas emoções…

 

BURGOMESTRE, por Sady Homrich

Em Blumenau/SC, o Festival Brasileiro da Cerveja dá as cartas para o segmento de 8 a 11 de março. A quinta edição do Concurso paralelo tem recorde absoluto de inscritos, e estarei lá com mais 60 jurados brasileiros e estrangeiros para escolher as melhores dentre mais de DUAS MIL amostras de 332 cervejarias!

O Festival começa no Dia Internacional da Mulher e durante os últimos anos temos visto o mundo cervejeiro ser invadido pela mulherada!  E com muita propriedade, conhecimento e profissionalismo, tornando um pouco menos desigual um segmento que sempre foi machista. Gostei da iniciativa da direção do evento em franquear a entrada das mulheres no dia da abertura. Espero que não haja reação negativa de quem acha que a mulheres não devem receber “favores” masculinos. Festival não tem sexo, gente…

O Dia Internacional da Mulher foi uma proposta dentro do contexto das lutas femininas por melhores condições de vida, no trabalho e pelo direito de voto, sempre ligado a frentes socialistas. Comemorado na Europa e EUA no início do século até a década de 1920, tendo sido esquecido por longo tempo e somente recuperado pelo movimento feminista nos anos 1960.

Depois de perder parcialmente o seu sentido original, adquiriu um caráter festivo e comercial, onde diversos empregadores distribuíam rosas vermelhas ou pequenos mimos entre suas empregadas, provocando reações de raiva e ódio pelo desrespeito às conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres ao tentar maquiar o espírito das operárias grevistas do 8 de março de 1917, data que unificou mundialmente as manifestações.

A luta continua e o preconceito de gênero segue em todo o mundo, com alguns requintes de crueldade justificados por hábitos culturais ou religiosos, chegando a níveis inaceitáveis de violência.

No mundo cervejeiro também temos manifestações femininas e feministas. Algumas cervejas foram criadas para pontuar esse tema. Em 2015, a Perro Libre (RS) criou a 803 Black Rye IPA (7,4% álcool, amargor 75 IBU) com uma campanha muito bem sinalizada em um vídeo (que pode ser visto em goo.gl/BnsiAz), dentro do espírito sem coleira, provando que não tem cerveja “para mulherzinha”.

O ABC da Cerveja, formado pelas sommelières e cervejeiras Amanda Reitenbach, Bia Amorim e Carolina Oda, produziram na cervejaria Blondine (SP) a cerveja TRIO, Session IPA com 4,3% de álcool e amargor de 38 IBU, em três versões – Rosa, Azul e Verde – com receitas idênticas, porém três diferentes lúpulos no dry hopping, técnica que intensifica seu aroma. Foram usados Brewers Gold e Pacific Gem na Rosa, Bravo e Saphir na Azul, e na Verde as variedades Nelson Sauvin e Chelan.

Por outro lado, na contramão da busca pela igualdade, em janeiro de 2017 foi anunciado o lançamento da cerveja “Proibida Puro Malte Rosa Vermelha Mulher, uma cerveja delicada e perfumada criada especialmente para você, mulher”, causando polêmica em sua página oficial no Facebook e demais redes sociais, com manifestações nada elogiosas…

 

Abraço do Burgomestre,

Sady Homrich

Que a fonte nuuuunca seque!!!

Sady Homrich é baterista da banda Nenhum de Nós, engenheiro químico e especialista em cervejas

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