O ventre das ruas

O ventre das ruas

 

Joaquim Moncks

 

A criança dormia na mesma cama, minada de sonhos e medos. Na televisão, em preto e branco, vira um filme de terror na noite anterior. No ar, o galo rouco exercitava o canto entrecortado. Era junho, inver­nia, e a sirene da fábrica convocava os operários ao trabalho. A cidade funga nas chaminés e a criança tosse, rouca tal o galo da vizinhança. Era lusco-fusco quando o desejo vazou num copo de luzes. E os desempregados brincaram com os próprios corpos. Era algo ao alcance da mão, disponível… Até o sol abrira o seu olho tímido, quando o vento lavava o rosto dos transeuntes. E os garis eram ágeis espanadores – aflitos – em suas tarefas de lavar o ventre das ruas. No quentinho da cama, o casal fuma ma­ri­juana. Tudo se cumpria no novelo dos dias.

– Do livro O HÁLITO DAS PALAVRAS, 2006/2009.

 

http://recantodasletras.uol.com.br/contoscotidianos/2398736

 

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