O Rio Grande por Simões

Ilustração: Giovani Urio

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Há 100 anos, o velho Blau Nunes perdia seu criador. Com seus olhos que muito viram e sua voz mansa de contador de causos, Blau foi o mais célebre personagem de João Simões Lopes Neto. Em 14 de junho de 1916, o escritor pelotense se foi, deixando ao Rio Grande histórias e tipos como Blau, que inspiram até hoje a literatura regionalista do sul. Para resgatar o legado de Simões, conversei com Altair Martins, doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, professor do curso de Letras e Escrita Criativa da PUCRS e escritor premiado – “Terra avulsa” é seu último livro.

 

Simões Lopes Neto é a principal voz do regionalismo rio-grandense, fonte de inspiração para autores ilustres como Erico Verissimo, Cyro Martins e Sérgio Faraco. Nasceu em 9 de março de 1865 na próspera Pelotas das charqueadas, criou-se nas estâncias dos avós e passou por diversas profissões. Começou a cursar Medicina, que abandonou por questões de saúde, voltando para sua cidade natal, onde tentou diversos negócios: foi professor, tabelião, industrial, comerciante – e contista. “Pelo que sabemos, foi homem sem muita sorte, considerado até desvairado naquela Pelotas de transição do século XIX para XX. Não parava de inventar ‘sarna pra se coçar’, daí porque o imagino, sempre, um homem moderno, num ritmo que não combinava com o seu mundo: um ritmo nosso. Foi um deslocado: sua capacidade de escrita o colocou à frente no espaço e no tempo”, declara Altair. Suas obras “Cancioneiro guasca” (1910), “Contos gauchescos” (1912), “Lendas do Sul” (1913) e “Casos do Romualdo” (1914) foram reconhecidas apenas postumamente. “‘Contos gauchescos’ antecipava o regionalismo universal de Guimarães Rosa em pelo menos trinta e poucos anos”, conta Altair. Explorando a linguagem guasca, os relatos de “causos” e a transformação literária de lendas populares, como “O negrinho do pastoreio” e “A Salamanca do Jarau”, Simões Lopes Neto foi autor que escreveu o pampa e o gaúcho.

 

LINGUAGEM GUASCA

Altair vai além: “A literatura de Simões Lopes Neto praticamente inventou o Rio Grande do Sul, pelo menos o Rio Grande no imaginário que hoje cultuamos. Erico Verissimo foi buscar nele o contador de histórias (Blau inspirou Fandango, de ‘O tempo e o vento’), as lendas (‘A teiniaguá’, aproveitada na construção de Luzia Silva, de ‘O tempo e o vento’), além de ter construído, a partir de modelos arquetípicos do gaúcho, a personagem mais conhecida da nossa literatura, que é o Capitão Rodrigo. Simões inspira o tradicionalismo, porque mostra, a partir da microabordagem de nossa gente, os valores universais. Mostra que temos uma identidade. Daí porque o autor dos ‘Contos gauchescos’ pôs no papel a nossa mitologia”. Para contar o Rio Grande, usou como força a linguagem pampiana, com castelhanismos e marcas coloquiais – tanto que praticamente toda edição é acompanhada de um glossário. Altair destaca que ele foi o primeiro autor gaúcho a usar legitimamente uma linguagem falada. “Mais que isso, também investiu num modo poético e performático de contar, garantindo legitimidade ao modo como conta, porque, afinal de contas, é Blau o contador”, aponta. O personagem Blau Nunes, peão que guerreou nas guerras do estado, é colocado na posição de porta-voz do RS, e sua narrativa atravessa os principais conflitos por que passou o estado – nos “Contos”, apenas não abarca as revoluções Federalistas e as de 30, aponta Martins. “O fabuloso, principalmente o existente nos contos, decorre da distância que há entre o narrador Blau Nunes e os fatos que narra”, diz. “Blau Nunes situa-se no presente, em íntima e animada conversa com o ouvinte (o ‘Vancê’ dos contos), relatando histórias ocorridas num passado pouco determinado. Vê-se, portanto, que a marca da oralidade é rica, contrastando com a estrutura bastante simples.”

BLAU E LITERATURA

Blau conta das gentes do campo, dos hábitos, da natureza, é narrador e personagem dos 18 causos de “Contos gauchescos”. “O gaúcho de Blau é o primeiro, na história da nossa literatura, a conquistar verossimilhança. Creio que seu gaúcho prima por uma verdade que não o limita a idealizações: seu homem e sua mulher são capazes de heroísmo, sim, mas também são acovardados, têm fraquezas, humanidades”, observa Martins. Simões procura ser testemunha daquele gaúcho, capturando a naturalidade de homens e mulheres do sul. “Seu olhar foi desmistificador. Seu regionalismo universal justamente se encaixa aí: de acontecimentos regionais o autor retira os fatos universais, a substância sagrada de toda literatura.” Para Altair, o personagem Blau Nunes parece ligado à decadência de um tempo glorioso, do pampa sem cercas – diferente do tom político encontrado em “Martín Fierro” (1872), de José Hernández. “Nesse sentido, certa celebração dos fenômenos humanos, uma inflexão na alma de seus personagens parece cintilar de modo mais íntimo em Simões”, observa. O legado do autor perpassa toda escrita regionalista rio-grandense. “Nossa literatura ganhou em abordagem geopoética herdada de Simões: o pampa passou a ser literário de uma forma tão legítima, que pessoas que escreveram depois dele foram beber na sua literatura uma espécie de água essencial”, declara Altair. Hoje, Pelotas celebra o escritor com o Instituto Simões Lopes Neto e Porto Alegre instituiu, pelo decreto municipal 19.400/16, o Ano Oficial do Centenário da Morte de João Simões Lopes Neto, com atividades para manter cada vez mais viva a obra do autor.

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