O Partenon Literário

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

No século XIX, um grupo de escritores e intelectuais criou a entidade que seria base para o crescimento das Letras gaúchas. Mais de 100 anos depois, o Partenon Literário foi retomado em Porto Alegre. Para conhecer sua história e ações atuais, fui conversar com o presidente Benedito Saldanha, autor de “A mocidade do Partenon Literário” (Alcance, 2003) e “Luciana de Abreu” (Edijuc, 2012).

Era um dia chuvoso aquele 18 de junho de 1868. Um grande grupo, composto em sua maior parte por jovens de até 25 anos, reunia-se, com certo nervosismo, na Praça da Matriz. Estavam prontos para fazer história: fundavam ali o Partenon Literário. Partindo do princípio de estimular a produção literária da, à época, Província do Rio Grande, a academia rapidamente atingiu grandes proporções, reunindo os principais intelectuais do período – nomes como Luciana de Abreu, Apolinário Porto Alegre e Caldre e Fião (foto), Múcio Teixeira, Amália Figueiroa e Lobo da Costa. “A ideia era, justamente, divulgar a cultura gaúcha através de textos de seus sócios, publicando uma revista mensal e fazendo atividades na cidade, como palestras, debates e saraus”, conta Benedito Saldanha. E foi além: logo já promovia cursos de alfabetização para a população de baixa renda, aulas gratuitas noturnas ministradas por seus membros. A Revista do Partenon Literário, criada um ano após sua fundação, reuniu durante 10 anos textos de autores rio-grandenses – prosa, poesia, crônica, teatro e até artigos científicos. “No momento em que o Partenon aglutinou os autores da época, ele ajudou a formatar as Letras gaúchas. Foram pioneiros. Seu papel principal foi difundir a cultura gaúcha e formatar a escola que ia se iniciar com os autores rio-grandenses”, registra Saldanha. Além do incentivo à literatura, a entidade assumiu um papel social, lutando por causas como a abolição da escravatura – arrecadou fundos para alforriar muitos escravos. Também foi precursora ao apoiar o feminismo e a defender a República. Em seu auge, até 1880, a entidade contava com 138 sócios.

Grandes nomes

Dentre os tantos intelectuais que deram vida ao Partenon, três marcaram história. O primeiro foi Apolinário Porto Alegre, com apenas 22 anos, que Benedito considera o grande mentor da entidade: “Talvez o maior intelectual da história do Rio Grande do Sul”. Além de atuante na entidade, Apolinário publicou a primeira obra regionalista do estado, “O vaqueano” (1872). “Ele era uma pessoa muito perspicaz; a cabeça deste jovem era fantástica”, destaca Saldanha. Aberto à participação feminina, o Partenon contou com a professora Luciana de Abreu, considerada uma heroína feminista: uma das mais ativas nos saraus, levava o tema da emancipação da mulher ao palco das discussões da época. O terceiro grande nome presente na academia foi José Antônio do Vale Caldre e Fião, o autor mais experiente do grupo. Já consagrado quando o Partenon foi fundado, era uma espécie de patrono, como define Saldanha: “Por isso foram buscá-lo, ele era conhecido inclusive fora da província. Foi deputado, publicou livros antes do Partenon – e foi simplesmente a pessoa que publicou o primeiro romance no Rio Grande do Sul (‘A divina pastora’, lançado em 1847)”.

Sociedade atuante

Apesar de os jovens intelectuais idealizarem um templo de cultura em Porto Alegre, inspirado no Partenon de Atenas, a entidade nunca chegou a ter uma sede. Em certo momento, foi escolhido um terreno, onde hoje está a Igreja Santo Antônio. A pedra fundamental da sede chegou a ser inaugurada em uma cerimônia, mas a construção nunca começou. Por volta de 1896, o Partenon deixou de funcionar. Segundo Benedito, por um desgaste da própria instituição, também atingida pelo momento político positivista. Em 1997, a entidade foi refundada por iniciativa de nomes como Serafim de Lima Filho, Cláudio Pinto de Sá e Frei Aquylles Chiapin. Atualmente presidida por Saldanha, a entidade realiza reuniões mensais, exposições, saraus e palestras, além da publicação de livros com obras dos sócios, que hoje são 195. “O Partenon simboliza uma história de lutas em prol da cultura gaúcha, dedicação ao conhecimento e incentivo à leitura”, resume o presidente, que adianta: este mês, o Partenon Literário irá receber da Câmara dos Vereadores de Porto Alegre o Diploma de Honra ao Mérito. Uma homenagem à academia literária e cultural mais antiga do país.

Conheça: partenonliterario.blogspot.com.br

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