O Paço Municipal, 110 anos de um marco do poder

O Paço Municipal, 110 anos de um marco do poder

 

Construído para ser a sede da Intendência de Porto Alegre, entre 1898 e 1901, o prédio completou 110 anos e foi tema de uma edição especial do Programa Viva o Centro a Pé, ministrado pela arquiteta Dóris Oliveira, responsável pelo seu projeto de restauração, desenvolvido no Curso de Especialização de Restauração e Conservação de Sítios e Monumentos Históricos, da Universidade Federal da Bahia, em 1996. Concluído em 2003, o restauro devolveu, como diz Dóris, a monumentalidade e imponência ao prédio. Tombado em 1979, o Paço Municipal é, junto com o Palácio Piratini, um dos principais centros e símbolos do poder no estado. Denominado Paço dos Açorianos em 1973, abriga atualmente as Pinacotecas Rubem Berta e Aldo Locateli.

 

     Pondo fim à itinerância da então Intendência, a construção do prédio foi definida na administração do intendente Azevedo, com a escolha do terreno e aterro das docas do carvão e das frutas.  Porém, ele só seria construído no período do próximo intendente (o primeiro eleito pelo voto direto), José Montaury, que assumiu com este compromisso. Informa a arquiteta que o projeto foi, inicialmente, encomendado ao engenheiro Oscar Muniz Bittencourt. Submetido a Júlio de Castilhos, que governava o estado, e uma das expressões e lideranças do positivismo local, não foi aprovado por não conter elementos dessa filosofia em sua proposta. É chamado, então, o arquiteto italiano João Antônio Luiz Carrara Colfosco, de Veneza, que aqui se encontrava para executar obras de instalação de estradas de ferro – e adepto das idéias de Augusto Comte. “O estado vivia um período de desenvolvimento e efervescência, com a construção dos portos de Rio Grande e de Porto Alegre. A cidade queria se europeizar, se embelezar. Tudo era muito novo e se sentia os reflexos da revolução industrial”, explica Dóris, situando o contexto da construção do imponente prédio.

 

O Paço, no centro político da cidade

 

     A pedra fundamental foi lançada em abril de 1898 e em setembro do mesmo ano tem início sua construção, a cargo de Oscar Bittencourt porque o autor, Carrara Colfosco estava no interior construindo as vias férreas. O prédio, como diz a arquiteta, foi sendo inaugurado “aos poucos”, mas abril de 1901 marca a sua habitação. A região, com o então Cais do porto, Mercado, Chalé e a própria Prefeitura é, avalia Dóris, um dos lugares de maior identidade dos portoalegrenses. Diz ela: “É uma referência tanto pela questão da circulação, um espaço de transbordo, com carroças, bondes, ônibus – sempre foi um lugar onde as pessoas chegam e saem. Além disso é um centro político, de civilidade e participação das pessoas na vida política da cidade. É também um espaço de comércio, principalmente pelo Mercado”. O entorno ainda ganharia mais em imponência com o surgimento, em 1916, do edifício Malakoff, considerado o primeiro “arranha-céu” da cidade.

 

Sede dos principais serviços, no início

 

     Quando foi inaugurado, o prédio tinha vários serviços, como a Assistência Pública, que deu origem ao Pronto Socorro, Tesouraria, Contabilidade e Impostos, Inspetoria de Veículos, Guarda Municipal, Diretoria de Obras, Departamento de Água e Esgotos, Arquivo, salas de secretários, Seções de Estatística, Higiene e Polícia. E no porão, xadrez, depósito e latrina, uma novidade para a época. Com um majestoso saguão de entrada, subindo as escadarias chega-se a uma das grandes atrações do Paço, o Salão Nobre, feito para as mais importantes solenidades. Dóris preferia o antigo: “O Salão tinha uma decoração belíssima, um conjunto de raro bom gosto, com vitrais de Josef Wollmann, de 1904. Ele passou por uma alteração drástica, ao meu ver, uma pena. O atual é mais grotesco, não tem a elegância que tinha o outro. Uma das razões da mudança foi a infiltração no forro que danificou seriamente os estuques. Aí resolveram alterar completamente o desenho”, explica ela.  Em 1974 o novo salão ganhou os três painéis que permanecem até hoje, simbolizando a Porto Alegre do futuro, a formação da cidade e a procissão dos Navegantes.

 

Arquitetura eclética e simbolismos nas esculturas

 

     O prédio apresenta-se como arquitetura composta, eclética, de várias unidades provindas de matrizes clássicas e reunidas em um único organismo, com associação de elementos como a pequena torre da fachada, o corpo central tripartido, os tímpanos triangulares e em arcos das janelas, os corpos centrais e os corpos angulares destacados. Na fachada, destaca Dóris, a predominância dos elementos positivistas, usando elementos da arquitetura clássica greco-romana para se expressar. Os leões de mármore, traduzindo o poder, são do escultor Carlos Fossati, italiano. “Foram colocadas esculturas com simbolismos, que refletem aquele momento que o estado estava vivendo.   A figura central representa a agricultura, principal riqueza da época, assim também como estão representados o comércio e a indústria”. Destacam-se na fachada, ainda, a figura da Justiça, os bustos do Marechal Deodoro e José Bonifácio e de Péricles, que simboliza a democracia, além de dois medalhões de Júlio de Castilhos e Marechal Floriano. Também estão representadas a Liberdade, a História e a Ciência.

 

O prédio e as muitas mudanças

 

     O prédio foi sofrendo alterações ao longo de tempo, na medida que a cidade ia crescendo. Como a fachada da avenida Siqueira Campos que permitia o acesso por trás e que perdeu o antigo pátio, em 1934. Ela foi fechada para que o prédio ganhasse mais espaço, atendendo a crescente demanda de serviços.  A mudança resultou em um terraço com vitrais. As antigas telhas foram mudadas em 1964, assim como parte dos entrepisos de madeira, que foram trocados por lajes de concreto em 1980. Na frente também houve mudanças nesse período: a Praça Montevideo inicialmente exibia a escultura da Samaritana, transferida para a Praça da Alfândega em 1925. Hoje, restaurada, encontra-se na entrada do Paço. Em 1935 a Fonte Talavera, presente da comunidade espanhola nas comemorações dos 100 anos da revolução Farroupilha, em 1935, muda a paisagem. A Fonte, que sinaliza o Marco Zero de Porto Alegre, foi concebida pelo mais famoso ceramista talaverano, Juan Ruiz de Luna e montada pelo professor e escultor Fernando Corona.

 

Processos de intervenção para o restauro

   

     A cúpula foi o primeiro elemento de intervenção no processo de restauração, informa Dóris. Ela apresentava uma infiltração muito grande e sua estrutura de madeira de estuque estava completamente danificada. O prédio como um todo sofria com cupins, umidade e, principalmente, má utilização humana, com divisórias, ar condicionado nas paredes, carpete, fiação solta, etc. Por isto o prédio foi esvaziado para a reforma, ficando apenas os gabinetes do prefeito e do vice. O porão, com arcos fechados, úmido e lúgubre, funcionava como um depósito e chegou a ser uma capatazia do DMLU. O pé direito foi aumentado e o piso todo refeito, com granitina e laje grês, uma escolha que se mostrou acertada, a partir dos resultados da pesquisa arqueológica feita no local que detectou elementos semelhantes. Também foram criadas escadarias e os acessos foram modificados, incluindo plataforma para pessoas portadoras de deficiência e sanitários adaptados. Além disso, o elevador passou a chegar até o porão. O ambiente também ganhou sistemas de ventilação e canalização de águas da chuva. Junto aos arcos, diz Dóris, optou-se por deixar terra, como uma referência dos pontos de aterramento inicial.

 

Um patrimônio minuciosamente recuperado

 

     A proposta do projeto era de destacar a arquitetura que a população tivesse acesso. A Pinacoteca, à esquerda do saguão de entrada, contribui para isto, com visitas diárias. À direita, na reforma foi instalado um auditório que, a partir da primeira gestão do ex-prefeito José Fogaça, passou a ser utilizado para serviços administrativos. Mas já há acordo com o atual prefeito, informa Dóris, que ele volte a ser utilizado. Atualmente operam no prédio os gabinetes do prefeito, vice e assessorias. Outros aspectos do processo de restauro incluem a mudança no telhado para telhas de barro, mais adequadas à estrutura do prédio, com forro de madeira e, principalmente, o forro de estuque, recuperado no Salão Nobre. Também foram recuperados os vitrais e removidos os lambris que não eram originais. Nos gabinetes, quando foram removidos os lambris aparecem sinais de pintura mural, que foi recomposta por uma especialista nesta área. A pintura, uma das últimas etapas, foi decidida depois de muitos testes. Durante a obra, porém, foi detectada a cor original em um pedacinho da parede, o ocre escuro. Dóris ressalta também a “operação de guerra” que foi o rebaixamento das lajes Roth junto à escadaria (em espiral) que dá acesso ao sótão. E destaca também a majestosa porta principal. “De madeira belíssima. Quando se raspou a pintura, viu-se a madeira e a porta acabou apenas sendo encerada”. Aliás, a porta de entrada para que se entre e se conheça este belo patrimônio da cidade.

COMENTÁRIOS