O Mocotó do Governador

    O Mocotó do Governador

    Por Sérgio da Costa Franco*

     Sempre tenho dito e escrito que o mocotó é o prato mais típico e tradicional da cozinha porto-alegrense.

Os alemães nos trouxeram seus “bockwurst” e seus chucrutes. Os italianos concorreram com delícias de “pastas” e de “pizzas”, que invadiram tanto os salões requintados como os botecos de esquina. Mas o “suculento mocotó”, que os antepassados portugueses denominavam “mão de vaca”, ainda enfrenta os invernos gaúchos em todos os restaurantes populares, desde o Mercado Central à Agronomia, e desde Navegantes ao Menino Deus. “Suculento” sempre, pois o adjetivo aderiu definitivamente ao substantivo, como a craca ao costado dos navios oceânicos. Encontrei a expressão em velhíssimos jornais porto-alegrenses, do século 19, em anúncios que ainda não usavam o galicismo “restaurant”. Eram “casas de pasto”, armazéns ou botequins, onde a “mão de vaca” era apresentada como forte atrativo.
     E quem é contra o nosso “suculento mocotó”? Apenas os médicos que combatem nossas hipertensões arteriais. Os assustados com o elevado colesterol. E as madames que não nos querem obesos. 
     A propósito disso, contou-me dias atrás um ex-oficial de gabinete do Governador Ildo Meneghetti (que governou o Rio Grande desde 1955 a 1958), que aquele homem público, guloso que era, sofria em casa e na família restrições ao seu apetite por comidas fortes e calóricas. Daí porque, no início do expediente palaciano da tarde, Ildo Meneghetti às vezes convocava o seu auxiliar para irem discretamente ao Mercado para “traçar” uma terrina de mocotó. Livre de quaisquer seguranças e dispensando seu assistente militar, cuja farda atrairia atenções, o Governador descia a pé até um dos restaurantes da face oeste (a que defronta o Paço Municipal) para regalar-se com o “suculento”.
     Meneghetti, porto-alegrense legítimo, não ignorava as “boas bocas” do Mercado Central. De resto, havia sido Prefeito, antes de Governador, e a vizinhança com o Paço decerto já o fizera freguês do Mercado e de seus atrativos, muito antes de subir a lomba do Palácio Piratini. Por sinal, cabe lembrar que, por simples e autêntico, ele era um especialista em ganhar eleições. Sempre derrotou seus antagonistas.

* Historiador

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