O Mercado e o Atelier Livre, tempos de arte e criatividade

Centro Histórico, por Emílio Chagas 

Durante dez anos o Mercado Público cedeu um espaço para os que queriam ensinar e aprender sobre artes plásticas. Foi o Atelier Livre de Porto Alegre que projetou a cidade para o mundo.

Na trajetória, o Mercado Público, viveu nem só de peixe, especiarias e pão quente nestes seus 142 anos. O seu prédio também foi o lugar de encontro e trocas de experiências entre artistas, professores e estudantes que um dia pensaram e se dedicaram às artes. Durante dez anos, de 1962 a 1972 funcionou em algumas de suas salas o Atelier Livre de Porto Alegre, foi um período muito rico da história do próprio Atelier, que neste ano completa 50 anos de fundação.

Tudo começou com a mudança do Ateliê que funcionava nos altos do Abrigo dos Bondes, na Praça XV para duas salas no segundo piso do Mercado. Quem lembra a história é Ana, coordenadora do Projeto Atelier Livre, 50 anos. Segundo Ana Luz, foi depois que o primeiro diretor do Ateliê, Xico Stockinger, emprestou uma prensa para gravura, do curso de xilogravura. A tal da prensa não entrava nas dependências do Ateliê, resultado: “tiveram que procurar outro lugar e havia um, no Mercado Público”, conta Ana.

De fato, era um espaço disponível no Marcado, próximo e de fácil acesso. Ora, a Prefeitura Municipal encaminhou a mudança e o  Atelier tinha uma nova sede. Um pouco depois da mudança, outras coisas também mudaram no Brasil, em 1964, um golpe militar depunha o presidente João Goulart. O Atelier seguia funcionando a pleno vapor.

 Aliás, o período em que esteve no Mercado foi o tempo de afirmação e de crescimento do Atelier. Danúbio Gonçalves, artista plástico e professor, foi o diretor que esteve à frente da instituição pelo maior período. Ele lembra momentos importantes como a vinda de Marcelo Grassmann para ministrar uma oficina de litogravura, a gravação em pedra. Foi uma revolução nas artes da cidade e marcou uma geração de artistas.

Os tempos em que estava instalado no Mercado foram de expansão e divulgação dos trabalhos e oficinas de arte que lá eram realizadas. Gravura. Pintura, desenho, teoria da arte, cerâmica, ente outras, estavam à disposição de quem quisesse aprender a fazer arte. O Atelier fez exposições em cidades como Curitiba, Buenos Aires e Tóquio. Do Mercado Público para o outro lado do mundo, como ressalta Ana.

Registros

Voltando a Danúbio Gonçalves, o artista lembra que outro colega ilustre, Vasco Prado, também deu aulas no Atelier Livre. “Neste período em que a sede era menor todo mundo se conhecia”, recorda. As atividades do Ateliê chamaram a atenção do próprio Instituto de Artes da UFRGS, segundo Danúbio. Uma obra sua faz parte da paisagem do entorno do Mercado, é dele o mural que enfeita a Estação Mercado do Trensurb.

 A atual diretora da instituição, Daisy Viola, afirma sem receio de errar que o Atelier é “uma escola de arte para adultos que é única no mundo, deste jeito”. Um exemplo disso foi a trajetória de Anestor Tavares, que era um funcionário do Atelier. Anestor fez cursos de gravura, tornou-se um artista e passou a lecionar no próprio Atelier, até se aposentar em 1986.

Houve tempos de dificuldades para a expressão artística, como um centro de criatividade e de resistência, muitos trabalhos faziam alusão à situação política que o país vivia. Por prevenção, Anestor Tavares deu sumiço em muitos cartazes produzidos no Atelier que falavam em liberdade e organização sindical entre outros temas proibidos. Mais um episódio que Ana lembra, e que fará parte do livro sobre os 50 Anos do Atelier Livre, que está em fase de produção.     

O que começou pequeno, no Marcado, acabou ocupando mais espaços, três salas, e chegou a contar com cerca de 400 alunos. Ana lembra que havia uma mostra anual dos trabalhos em um dos quadrantes do Mercado. Para que fique registrado o tempo em que o Mercado sediou o Atelier será inaugurada uma placa alusiva, provavelmente até o final de novembro. Outras duas placas serão inauguradas nos espaços onde o funcionou o Atelier, no Abrigo dos Bondes e na Rua Lopo Gonçalves, no bairro Cidade Baixa. 

Em 1972, alguém teve a ideia de demolir o prédio. O Mercado sobreviveu e superou muito bem essa insanidade e o Atelier Livre também.

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