O Mercado e Ademir no Caminho de Daniel

O Mercado e Ademir no caminho de Daniel

O menino tinha apenas seis anos e, junto com mais dois irmãos um pouco mais velhos, já andava perambulando pelas ruas, fazendo pequenos biscates, vendendo picolé, bala, e por fim, engraxando sapatos pelas ruas da cidade. Vinha da zona norte até o centro da cidade, onde descobriu o Mercado Público.

     Empurrado pela sobrevivência e pela curiosidade, transpôs os seus centenários portões. Lá ia oferecendo graxa e, de banca em banca ia pedindo qualquer coisa. Pedia ovos quebrados na banca 17, pão para o seu Miran-da: “Tio, tem ovo sobrando aí? O seu Miranda sempre teve coração grande”, diz. Pegava o ovo, o pão e ia fritar os ovos em uma banca que havia no meio da Praça XV. Não foi à toa que o menino encontrou o Mercado. Lá o destino lhe reservara um encontro providencial, que iria mudar sua vida. Daniel Josué, hoje com 34 anos, se recorda (e se emociona) ao lembrar que ali conheceu Ademir Sauer, na Banca 26. Ele diz que todos os dias pedia uma coisa ou outra para o compenetrado Ademir, sempre muito generoso. “Fazia graxa pro seu Ademir, até que um dia eu perguntei se não tinha vaga pra mim. Eu era um gurizinho, mas ele viu virtude em mim. Viu que eu tinha comunicação. Aí ele falou: então tá, vem aí amanhã de manhã.”
No outro dia, cedinho, o garoto já estava lá. Ele se recorda com precisão: “Saí às 5.10 e cheguei aqui 5.38. Aí o seu João que era fiscal não me deixou entrar. Eu era um malo-quei-rinho, imagina. Aí, às 7 e meia, quando abriu o Mercado, eu entrei.” Ademir lembra que quando Daniel começou a trabalhar, aos 9 anos, não tinha altura suficiente. “A gente botava um ban-quinho para ele conseguir alcançar a balança. A gente cortou o cabelo dele, arrumamos ele direitinho com um guar-dapozinho. Ele era bom na matemática, passou no teste, compramos uma tabo-ada.” Ademir também diz que o pessoal gostava dele. Achavam engraçado o menino, muito comunicativo e carismático, enfiado no guarda-pó maior que ele, despachando atrás do balcão. Quem não gostou muito foram os agentes do Ministério do Trabalho, que não queriam deixar o moleque trabalhar por causa da idade. Naquele tempo a idade mínima era de 14 anos. Mas Ademir ia contornando a situação, na base do “deixa pra lá” e no final deu certo, não aconteceu nada, afirma.

Ademir, também cedo na luta
Mas a ajuda não parou aí. Logo Ademir encaminhou o garoto para a escola. Podia trabalhar, mas um turno tinha que ser reservado aos estudos. Assim Daniel foi crescendo, conhecendo toda a família de Ademir, indo para a praia, saindo de férias, ao futebol. Enfim, se integrou como se fosse mesmo um membro da família, vivendo uma realidade bem diferente daquela quando saía para rua com os irmãos “ao Deus dará”, em busca de alguns trocados para ajudar a família a criar os outros irmãos. O que levou a Ademir a abrir as portas e mudar o destino do menino? Ademir, um homem religioso, não passou dificuldades, mas sempre deu muito duro na vida. Veio com 16 anos para o Mercado Público, trazido de um distrito do interior de Lajeado, hoje chamado Progresso. Só para ir à escola eram 12 km e ônibus só um de manhã e outro à noite para voltar. Aí acabou vindo para Porto Alegre, trazido pelo irmão, mais velho, o Domingos. Depois vieram todos os irmãos, sete ao todo, um atrás do outro. Para o Mercado, claro. Aí foi muito trabalho até que conseguiram comprar a banca 26. Ele lembra que soube através do barbeiro Ari que Antonio Rigo-ni queria vender a banca dele. O barbeiro convidou os irmãos para serem sócios. “Nós não tínhamos muito recurso. Tinha um pessoal que queria comprar a banca e botar um açougue. Luís Salami, que tinha açougue na frente, não queria concorrência e resolveu nos ajudar. Ele tinha prestígio no banco, deu uma força na questão da fiança, nos ajudou, a gente falou com o pai, que arrumou um pouco de dinheiro, mais o banco, botamos o negócio. O barbeiro trabalhou uns seis meses com a gente e saiu.” Toda essa luta fez de Ademir um homem generoso. “A gente tem uma tendência a ajudar. Alguns não ajudam porque desconfiam”, afirma. Ele se sente gratificado porque pôde ajudar o garoto. “Isto acabou ajudando toda a família dele, que é bastante unida. O Daniel sempre teve um grande carisma com a clientela”, diz.

 

Caminhando com as próprias pernas
O tempo passou, Daniel casou, teve cinco filhos. A mais velha está com 15 anos e, felizmente, vivem uma realidade muito diferente daquela que ele viveu nas ruas da cidade, o que emociona Daniel. Estudam e estão se encaminhando. Depois de 24 anos trabalhando na Banca 26 o hoje adulto Daniel resolveu que era hora de “andar com as próprias” pernas e seguir o caminho que o “padrinho” Ademir lhe abriu. Depois de alguns acordos, saiu da 26 e foi para a Banca do Holandês, onde está há pouco mais de um ano. Mas não esquece jamais da generosidade daquele que lhe estendeu a mão e que levava o mascote do time no porta-mala do carro para os jogos de futebol. “Sou um cara abençoado”, diz Daniel, reconhecendo que a vida poderia ter lhe reservado o pior, de menino de rua, uma presa fácil para o crime e para as drogas, destino de tantos outros meninos com que conviveu na rua. “Com trabalho a gente conquista. As coisas que vão compensar são as coisas que você fez de bom”, filosofa ele. E é por isto que Ademir se sente hoje, com certeza, recompensado.

 

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