Olívio Dutra: “O Mercado é a referência de todos que visitam Porto Alegre”

Olívio Dutra

 

O Mercado é a referência de todos que visitam Porto Alegre

 

Figura carismática e popular, o ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Estado, Olívio Dutra tem uma relação muito próxima com o Mercado Público, fruto de uma convivência que vem desde quando chegou à capital, em 1970. Aqui o seu espraiado depoimento.

 

O mercado é uma referência fundamental para uma cidade que tem alma, um ponto de encontro, não só para troca de bens, de mercadorias, mas também para coisas que não tem preço e que não estão nas prateleiras. Como uma boa conversa, o recordar e fazer novas amizades, de tratar de coisas profundas da vida, do cotidiano, das tristezas e das alegrias, da convivência no espaço urbano, que às vezes fica conturbado e aqui o Mercado, de certa forma, distensiona. Aqui nós sentimos a sístole e a diástole do coração de Porto Alegre. Desde que me conheço por gente aqui, quando cheguei em Porto Alegre, em 1970, me senti um peixe dentro d’água no Mercado, um interiorano como eu, que passava neste espaço que é o Mercado Público. Depois vim a assumir cargos de enorme responsabilidade e não perdi esta relação muito sentimental, além da responsabilidade de, junto com a Associação dos Permissionários, de recuperar este patrimônio, que depois outros governantes tocaram adiante.

Eu lembro que era militante do movimento social, os prefeitos ainda eram nomeados, e tinha um projeto de fazer a (rua) Siqueira Campos se ligar com a (avenida) Júlio de Castilhos. Significava que haveria de se derrubar o Mercado, ou a metade dele. Lembro que foi uma luta do povo para impedir que isso acontecesse. E eu nem imaginava que um dia ia ser prefeito e depois fui governador. E depois o povo ganhou. E o Mercado é este espaço aqui, de referência de todos os que visitam Porto Alegre, gaúchos ou não, latinos americanos, cidadãos do mundo, brasileiros de todos os estados. Vir a Porto Alegre e não visitar o Mercado é o mesmo que ir a Roma e não visitar o Papa. Este é um espaço que nunca pode se dizer que está pronto, acabado. Ele não pode é ser destruído no que já tem de referência, de alma, de sentimento. Mas pode se acrescentar mais coisas – o livro, a biblioteca, a música ao vivo.

Este é um espaço não só de mercadejar as coisas, mas de sentimentos. Então, no coração da cidade de Porto Alegre, sempre cabe mais coisas. O que mais gosto aqui? Eu sou suspeito pra falar, mas eu gosto de tomar uma barroldinha, (aperitivo, no Bar Naval – NR) mais do que isto, de conversar com as pessoas, com o Paulo Poeta do Naval, todos os que trabalham aqui no Naval, do João e a mulher dele, dos que trabalham na cozinha, que fazem as “bóias” boas, do Gambrinus. Me lembro do Antonio (o Antoninho, dono do Gambrinus – NR), que foi presidente dos permissionários, uma bela pessoa. Gosto também das bancas das frutas, das ervas. Eu era prefeito, descia do ônibus na praça Parobé, comia um pastel naquela padaria da esquina, ainda não havia o Largo Glenio Peres, espaço  que reconquistamos, homenageando esta grande figura de um poeta, um pensador e um militante político que foi o Glenio. São muitas coisas que se gosta daqui, é difícil escolher só uma.

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