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O Mercado e a Páscoa de todas as gerações

O Mercado e a Páscoa de todas as gerações

 

Como tudo, a Páscoa mudou muito de alguns anos para cá. Mas, ainda continua com o seu aspecto místico de um momento mágico e religioso e, sobretudo, de reencontro familiar. De uma maneira ou de outra, ainda se mantém viva essa tradição, passada de geração para geração, mostrando que espiritualidade não tem idade. E, acreditando ou não no coelhinho, crianças de todas as idades preparam o seu ninho. 

 

Tradição em família

 

O coelhinho não falha na casa da manicure Daiane Assunção Vieira, 30, que fazia compras no Mercado acompanhada da filha Luiza, de apenas seis aninhos – e que há dois anos ganhou o maninho Lorenzo. “Todos os anos o coelhinho entrega, de manhã, o ovinho para eles. Acordam e já enxergam aquela baita cesta no pé da cama”, diz a orgulhosa mamãe. Ficam surpresos, claro. “E eu digo: foi o coelhinho que deixou. Eles adoram, adoram”, exulta. Tradição que ela trouxe da infância, quando os seus pais faziam a mesma coisa com ela. E, quando não ganhava uma cesta, o presente era uma boneca, ou um ursinho, “mas sempre ganhava um ovinho”. Das histórias de Páscoa lembra que teve um ano que quase não pode dar as cestas para os filhos. “Isso me marcou porque foi o primeiro ano do meu gurizinho. Eu estava com pouco trabalho, mas na última hora consegui o dinheiro e fiz uma mega cesta para eles”. A Páscoa, contudo, é muito divertida na casa dela. Passa com o marido e, às vezes, com o pai, comendo um peixinho na Sexta-feira Santa. Mas sempre procura mostrar para a filha o drama das crianças de rua, que muitas vezes não ganham nada, para que ela valorize o que tem e esqueça os ovos caríssimos que ela vê.

 

A jovem empreendedora aproveita a data

 

Apesar de jovem, a estudante de Nutrição da Feevale, Natiele Rosa Coelho, 20, já é uma brava empreendedora, tendo uma empresa de salgadinhos para festas. Por isto, o Mercado Público é um lugar onde sempre faz suas compras, buscando ingredientes “que não encontra em lugar nenhum, e quando não acha numa banca, acha na outra”. A Páscoa é um bom momento porque tem muitas confraternizações nas empresas, explica. “A minha Páscoa é com a família, nada de mais. Acho que é muito consumismo. Quando se é criança a gente acha o máximo, mas vai ver hoje os ovos, mais de 30 reais para poucas gramas de chocolate”, analisa. Ela explica que na sua casa a Páscoa é caseira, ou seja, com ovos feitos em casa, tentando manter ‘‘esta cultura’’, a de chocolate e doces nessa data, por ter muitas crianças em casa, os seus irmãos. Mesmo com pai e mãe de religiões diferentes, obedecem ao ritual do peixe na Sexta-feira Santa. A infância? ‘‘Quando eu era criança, minha vó fazia aqueles ovinhos de amendoim, pintando aqueles ovinhos, na minha infância inteira.  Hoje é mais um momento do ano. Significa união da família e pensar no ano que vem pela frente’’, resume.

 

Confraternização que vem da infância

 

A Páscoa do casal Andressa Marcel N. de Azeredo, 36, dona de casa, e Daniel Antônio Curtis de Azeredo, 40 anos, propagandista, geralmente é bem familiar. O momento, para eles, significa união de toda a família, para confraternizar, sem esquecer o sentimento da data. “Normalmente vamos para os pais, meus ou dela. Almoçamos e confraternizamos. Aí fazemos um churrasco ou uma comida especial, e depois botamos a criançada a procurar o chocolate, com aquelas trilhas com pezinhos do coelho”, diz ele. Um hábito que trouxe da infância. Sua mãe sempre comprava cestinhas de palha e fazia para ele e seu irmão. Na casa de Andressa também não era diferente. Assim, os dois procuram manter a tradição e passá-la para o filho Bruno, de três anos que, como os pais, também acorda e vai procurar os ovinhos que o coelhinho deixou.

 

O lado religioso da Páscoa

 

Mais que o coelhinho e chocolate, a Páscoa tem um significado religioso para Maria de Fátima dos Santos, 57, funcionária da Lancheria da Unisinos, de São Leopoldo. Casada com Vítor dos Santos, 62, aposentado, ela diz: “Na nossa fé cristã, Páscoa é todos os dias, um momento com um significado muito grande para nós porque é a ressurreição de Cristo.” Para o casal, isto representa uma nova etapa de vida, embora não tenham que seguir os critérios estabelecidos pelas tradições pascoais, como em relação à comida, por exemplo. “É normal, se tiver peixe, comemos”, diz ela. E para os dois filhos, primeiro são as explicações do que é a ressurreição e a fé, mas também tem o ovinho, com direito a todas brincadeiras: “A mãe vai esconder o cestinho e vocês vão procurar, mas eu sempre explico que coelho não põe ovo”, explica Maria de Fátima.Ela não gosta muito de lembrar do passado, época em que sua família não tinha muitas condições. “Não gosto de lembrar de coisas tristes, só as coisas boas de hoje, quando tudo é muito diferente. Antes pintavam ovos de galinha e a gente ficavam muito feliz”, recorda. Entre as lembranças não muito felizes, o último ninho que ganhou quando tinha 11 anos – de um vizinho. “Nunca mais esqueci isso, nem a pessoa, guardei aquilo no meu coração até hoje.” 

 

Fotos: Letícia Garcia 

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