O Mercadão se organiza

Reconfigurando a vida do Centro, o Mercado Central começou como espaço para comércio de ambulantes e, depois da construção dos chalés, passou a ser regulamentado pelo poder municipal.

 

O espaço do Mercado, abrigando uma grande variedade de comerciantes, logo passou a receber melhorias da prefeitura. Em 1871, foi executado o seu calçamento interior e, em 1873, a arborização do pátio interno, que ficava a céu aberto.

O investimento era favorecido, neste final do século XIX, pelos repasses federais, que qualificavam os grandes centros. O comércio no Mercadão recebia armazéns, fruteiras, restaurantes, ervas medicinais, utensílios de uso cotidiano e, nas torres das esquinas, companhias de seguros. Tendas, galinheiros e tabuleiros de refeições dividam o espaço central, desordenadamente ocupado, de forma livre e não regulamentada.

Rafael Guimaraens no livro “Mercado Público: palácio do povo” (Libretos, 2012) registra que, em 1884, Porto Alegre se antecipou à Lei Áurea de 88 e anunciou o fim da escravatura — mas os homens e mulheres libertos ainda teriam de prestar serviços como “indenização” a seu senhor por cerca de cinco anos.

Docas Acervo Museu Joaquim Felizardo/PMPA

Ainda assim, agora livres, muitos iam reconstruir as suas vidas tendo como renda as vendas no Mercadão, onde podiam dispor diversos produtos. Exemplo eram as chamadas “pretas minas”, que vendiam nos seus tabuleiros pés de moleque, canjica e mocotó — iguaria que, até hoje, é uma marca do Mercado.

Não demorou para que a prefeitura (chamada de intendência na época) equipasse o prédio com iluminação, água e banheiros, os primeiros públicos da cidade. Mas a higiene do espaço começou a ficar precária e a preocupar os governantes.

Em 1886, foi emitida uma ordem da Câmara de Vereadores para reforma do pátio interno, com o objetivo de melhorar as condições de higiene — e de organizar e controlar o comércio. Assim, foram encomendados 24 chalés de madeira, abrigando 48 tendas, organizados de modo a formar duas ruas que se cruzavam no centro do pátio, levando aos portões do prédio. Isso mudou a “cara” inicial do Mercado.

Os chalés foram entregues em 87 e passaram a ser ocupados por licitação, gerando uma ordenada renda para a prefeitura. Vários ambulantes do pátio interno foram obrigados a sair por não conseguirem bancar o novo aluguel.

Os tabuleiros desapareceram. As propostas mais vantajosas de aluguel foram aceitas pela prefeitura, entre elas as de imigrantes italianos que começavam a se estabelecer na capital. Com a abertura dos chalés, novos comércios começaram a surgir, como restaurantes, botequins, barbeiros, lojas de tecidos e pequenos hotéis. Armazéns de secos e molhados viraram maioria. Relatos de viajantes da época comprovam que cuias para o chimarrão já eram vendidas no Mercado daqueles tempos.

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