O Memorial do Mercado: um passeio no tempo

A ideia do Memorial nasceu durante a reforma e restauro do Mercado Público, que ocorreram na metade da década de 90. “A primeira proposta era juntar uma documentação referente à toda trajetória do Mercado e definir um lugar nele onde as pessoas pudessem ter acesso a esta documentação”, informa Pedro Vargas, historiador, com especialização em museologia, com passagens nos museus Júlio de Castilhos, da Comunicação Social Hypólito da Costa e Joaquim José Felizardo. Profissional muito respeitado no seu meio e entre os estudiosos das questões afro-brasileiras religiosas, Pedro não foi o primeiro diretor do Memorial, mas foi quem o abriu, justo quando ingressou definitivamente na Prefeitura de Porto Alegre, na Secretaria Municipal de Cultura, indo trabalhar no Mercado Público entre 1996 e 1998 mais especificamente no Memorial, que ainda não estava aberto, o que só ocorreu definitivamente em 1999. Como Pedro informa, no decorrer do trabalho e das pesquisas, observou-se que o Mercado tinha uma sociabilidade muito grande, não apenas interna, mas que compreendia também o seu entorno. “Então se percebeu que era preciso ter um outro espaço, que deveria ter não apenas esta documentação, mas também exposições, trabalhos na área de educação patrimonial, com um perfil mais amplo, uma referência onde o portoalegrense tivesse acesso à memória do Mercado”, informa ele. Quando começou, o processo que estava sendo feito era, então, o de catalogação dos documentos. No decorrer do trabalho, antes da reabertura do Mercado, se chegou à conclusão que não era o caso de se guardar a documentação no Mercado Público. Assim, ela acabou indo para o Arquivo Municipal, que possui climatização e condições técnicas mais adequadas para a preservação do acervo. No Memorial ficaram apenas as cópias dos documentos, buscados em várias secretarias para a pesquisa durante o período do restauro.

Das pesquisas participaram não apenas técnicos e engenheiros, mas também consultores de economia, antropologia, sociologia e história. A partir do potencial de sociabilidade que o Mercado apresentava, foram feitos vários estudos. Um deles, lembra Pedro, foi sobre a relação dos “mercadeiros” (permissionários) com o Mercado Público, que resultou na primeira exposição do Mercado. Diz o ex-diretor: “Foram buscados, com uma visão antropológica, os hábitos, a relação interna das empresas familiares e também com os clientes. Enfim, o que era o Mercado e a patrimônio, na visão deles. ” Pedro, junto com a equipe constatou um certo conflito entre os antigos “mercadeiros” e os novos que estavam chegando, principalmente no andar superior, até então inexistente.

Os debaixo chegavam às 5 da manhã, e os de cima mais tarde. As perspectivas de cada um eram diferentes, registra Pedro. A exposição que resultou deste trabalho intitulou-se “Pode Chegar, Freguês!” e registrava o modo peculiar de atender do Mercado, onde até hoje se usa barbante e papel para embalar as mercadorias, ao contrário do abominável saquinho de plástico dos supermercados. A exposição captava este clima, a conversa direta com o cliente, onde são trocadas receitas de chá, de comida – além da relação direta e fraterna, onde cada um acompanha vida do outro, fruto de uma relação mais personalizada, ou melhor dizendo, pessoalizada. Outra exposição, muito lembrada também, é “O Bará do Mercado”, referência direta das influências das religiões negras no Mercado Público, fruto de intensas pesquisas.

Pedro Vargas, um dos primeiros diretores do Memorial do Mercado Público

Uma preocupação do Memorial sempre foi a de atuar com um centro de referência, tanto para os mercadeiros, como para as pessoas que passam pelo Mercado – milhares diariamente. Para isto foram pensados programas educativos, como Vozes do Mercado e Noites na Taberna. O primeira se utiliza de recursos como a teatralização, com atores, mas sempre com a participação dos “fregueses” participando diretamente na encenação. O segundo é um projeto para adultos, envolvendo um ator e um músico, que dramatizam contos de grandes escritores, como Dostoiewsky, Scliar, Machado de Assis, sempre com temas que, de uma maneira ou de outra, estejam ligados ao imaginário de um mercado. O Memorial do Mercado também montou um arquivo de 3 mil fotografias, que vieram de diversas fontes, como os jornais Correio do Povo, Zero Hora e até a extinta Revista do Globo. E boa parte foram obtidas durante a reforma, com registro das obras e escavações que acabaram ganhando um cunho arqueológico até.

“O Mercado é pulsante, agrega vários olhares sobre ele”,  Pedro Vargas é historiador e museólogo.

 

“É importante estreitar as relações com os permissionários”

Simone G. Derosso – socióloga Diretora do Memorial do Mercado

Simone G. Derosso, a atual Diretora, assumiu o Memorial do Mercado em 2005. A socióloga informa que considera importante manter as iniciativas anteriores, Vozes do Mercado e Noites da Taberna, que hoje estão em andamento. “É importante vir aqui no Mercado e conhecer um pouco da história, de uma forma lúdica, porque a gente trabalha com artes cênicas e tem esta relação com o espaço”. Informa que são duas exposições planejadas, uma permanente e outra de longa duração – de um ano e meio a dois anos. E que sempre se produz um CD, que já início na fase preparação da pesquisa. Para ela é uma forma de socializar os conhecimentos e informações contidas nas exposições, principalmente para as escolas. E, também, ter materiais para divulgar o Mercado e chamar mais público. Sobre as comemorações dos 140 anos do Mercado, que se aproximam, Simone informa que “nada de especial foi programado”, mas sinaliza que existe um projeto, ainda embrionário, da publicação de um livro comemorativo, que seja distribuído para os visitantes, especialmente os turistas, já que hoje praticamente não existe nenhum material gráfico de divulgação do Mercado. “A idéia é fazer um registro fotográfico, com textos, uma publicação de qualidade”, sinaliza. Também anuncia para 2008 o Projeto Olhares do Mercado, que vai contemplar, inicialmente trabalhos fotográficos. Para ela o importante é aproximar mais a relação com os permissionários, trabalhando neles os aspectos culturais e históricos do Mercado, junto com o lado comercial, para manter as características diferenciadas que o Mercado tem em relação aos supermercados e shoppings. “Manter as características do Mercado implica na própria sobrevivência dele e dos permissionários”, finaliza Simone.

 

SAIBA TAMBÉM

Vinculado à Coordenação da Memória da SMC da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Inaugurado em 1999 para preservar e divulgar a história do Mercado Público Central. Promove exposições temáticas e ações educativas direcionadas ao público escolar da capital e Grande Porto Alegre.

 

SERVIÇO:

Memorial do Mercado Público Mercado Público Central, 2° pavimento – sala 38 Largo Glênio Peres, s/n° Porto Alegre / Rio Grande do Sul / Brasil

CEP 90020-021

Telefone: (51) 3225-0793

memorial@smc.prefpoa.com.br

http://www.portoalegre.rs.gov.br/

Horário de visitação: segunda à sexta-feira, das 09 às 18h e sábado das 10 às 16h.

Exposições temáticas: História do Mercado e Em Torno do Mercado.

Ações educativas: À Procura do Sapo Amarelo e “Vozes do Mercado”.

COMENTÁRIOS