O mar verde do pampa

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

 

O pampa, com suas coxilhas e longas distâncias, já viu índios e missões, guerras e gadarias, estâncias e cavalos. E também viu nascer o homem pampeano, gaucho, gaúcho, com costumes e cultura que atravessam fronteiras, como que espalhados pela terra. Uma região de perder os olhos que corre o risco de se extinguir se não for preservada.

Pintura de Vasco Machado

Também chamado de campo, campanha ou pradaria, o pampa é um bioma típico da América do Sul. Sua área de 750 mil km² se estende por Argentina, Uruguai e Brasil, três países fronteiriços. Por aqui, ocupa 63% do território do Rio Grande do Sul, único estado pampeano.  A palavra vem do quéchua para designar “região plana”, pois sua principal marca são as extensas planícies, de onde vem o título “mar verde”. Mas, neste mar, também estão as coxilhas, elevações que se espalham como ondas. O pampa é cortado por diversos rios, como o Prata, o Uruguai e o Jacuí, tem solo bastante fértil e uma imensa biodiversidade. São inúmeros animais, muitas espécies endêmicas da região. De aves, são mais de 500 espécies, como caminheiro de espora, ema, joão de barro, perdigão, perdiz, pica-pau do campo, quero-quero e sabiá do campo; mamíferos, mais de 100, como furão, graxaim, preá, tatu-mulita, tuco-tuco, veado campeiro e zorrilho. Este tapete verde abriga mais de três mil espécies de plantas – só de gramíneas, são 450, ótimas para a dieta de equinos e bovinos. Hoje a região abriga produções de soja, arroz, milho, trigo e uva, mas, desde o início da colonização ibérica, a pecuária se desenvolveu como a principal atividade econômica do pampa.

A gadaria

“Os rebanhos vêm da Europa, mas, aqui, como não era possível controlá-los, acabam se reproduzindo de uma forma quase geométrica. Essa gadaria toda se espalha pelo estado”, explica Vinícius Brum, presidente da Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTF). “Um dos motivos que propiciou esta quantidade de gado foi justamente a questão do território – plano, com bastante água e muito pasto.” Num momento inicial, os jesuítas, emissários da Cia. de Jesus para catequizar os nativos, criaram estâncias de criação de gado com mão de obra indígena. O couro foi o principal produto, inicialmente, usado para fabricação de utensílios e exportado para outras regiões. Mas logo se desenvolvem as charqueadas e a carne virou o principal negócio, colocando o RS no mapa comercial. “A largueza do território proporcionava que a criação extensiva do gado fosse um dos esteios econômicos”, afirma Brum. A pecuária se estendia por toda a região pampeana, levando com ela o trabalho no campo, que fez brotar aí a figura do gaúcho.

Homem pampeano

“Hoje, cultura gaúcha é o que é feito no Rio Grande do Sul, mas, originalmente, é a cultura ligada ao homem do pampa”, já disse Giovanni Mesquita, historiador e museólogo que estuda o estado. Argentina, Uruguai e RS são as três pátrias da origem gaúcha. Antes do desenvolvimento das estâncias, os gaúchos, homens sem trabalho fixo e à margem, caçavam o gado selvagem para se alimentar da carne e vender o couro, o sebo e os chifres no comércio local. A região do pampa era palco de constantes disputas entre Espanha e Portugal, como a que envolveu o domínio sobre os Sete Povos das Missões (Brasil) e a Colônia de Sacramento (Argentina), e somente em 1801, com a Guerra das Laranjas, os portugueses assumiram a região rio-grandense e expandiram seu domínio, espalhando sesmarias pelo pampa. A figura do gaúcho, então, passou a ser a do peão de estância que lida com o gado, a cavalo – o “centauro dos pampas”, que mais tarde formaria a cavalaria nas muitas guerras que cruzaram a região. As trocas culturais aconteceram entre o gaucho platino e o gaúcho rio-grandense, ambos ligados à terra e ao trabalho com o gado no campo – assim como o pampa, a cultura desconhece fronteiras políticas. Vinícius Brum cita a lógica utilizada por Euclides da Cunha em seu livro “Os sertões”, que considera a geografia física como decisiva para a formação psicológica do gaúcho. “Claro que, hoje, avançadas essas questões e as ciências humanas, isso serve como referência, e tem muitos contrapontos a serem feitos. Mas é uma visão e acho que, de alguma forma, o Euclides da Cunha faz uma avaliação correta: os meios físicos acabam ditando alguns comportamentos. Se não são determinantes, acabam contribuindo para”, diz. O pampa, para a formação da figura de gauchos e gaúchos, é mais que um patrimônio natural: é um patrimônio cultural. A preservação desta região é de enorme importância. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a introdução de monoculturas e flora de espécies exóticas, como diferentes pastagens e árvores, tem levado à degradação e descaracterização das paisagens naturais do pampa – em 2008, restava apenas 36,03% da vegetação nativa (CSR/IBAMA 2010). Um esforço de conscientização ainda é possível para manter a região que Atahualpa Yupanqui definia, de forma poética: “La pampa es el cielo al revés”.

 

 

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