O fenômeno da rica estatuária de Porto Alegre

O fenômeno da rica estatuária de Porto Alegre

Por Emílio Chagas

 A cidade é um fenômeno no Brasil, e até na América Latina, em termos de estatuária pública (e privada), que tem origens no começo do século XX. Quem afirma é José Francisco Alves, professor de escultura do Atelier Livre da prefeitura, curador-chefe do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, doutor e mestre em história pelo Instituto de Artes da UFRGS e autor do livro “A Escultura Pública de Porto Alegre”.  Ele conduziu o passeio Viva o Centro a Pé, da primeira quinzena de julho, proferindo uma aula aberta pelos pontos que abrigam as mais peculiares estátuas do Centro Histórico, algumas em deplorável estado de conservação, como as do viaduto Otávio Rocha e, principalmente, a do líder positivista Júlio de Castilhos, em plena praça da Matriz. De 1880 a 1930 a cidade viveu uma verdadeira febre estatuária, movimentando uma grande cadeia de escultores, empresas e fornecedores de materiais.

As estátuas-luminárias do Viaduto Otávio Rocha

Um marco do início da modernidade da cidade, o viaduto projetado pelo arquiteto Jorge Itaqui, o mesmo do Observatório Astronômico da UFRGS, começou a ser projetado em 1925.  Construído no alto da colina, sobre um bloco granítico maciço, a obra não teve paralelo na América Latina, quando uma cidade provinciana e com poucos habitantes, resolveu erigir uma obra da sua envergadura, tanto de arquitetura, como de engenharia. Além da configuração de escadarias, pensadas para suavizar a subida dos usuários, incluía, como era característico na época, uma ornamentação de estatuária, funcionado como decoração e embelezamento do espaço urbano. No seu caso, localiza-se na parte inferior, onde se encontram as luminárias de cimento. “Ele é concluído em 1932, quando começam nossos primeiros suspiros de modernidade e marca a última construção importante que recebeu estatuária. Quem vem de fora, principalmente da área da arquitetura, custa a acreditar que tenha uma obra como esta”, diz o professor, que se confessa envergonhado com o seu péssimo estado de manutenção e conservação.

A estátua de Júlio de Castilhos na Praça da Matriz

A estátua, concebida pelo escultor Décio Villares, do Rio de Janeiro foi a forma mais imediata de homenagear o grande líder positivista gaúcho, morto precocemente aos 43 anos. A morte de Castilhos, duas vezes governador gaúcho, causou a primeira grande comoção política no Rio Grande. O monumento está povoado de simbolismos, com elementos riquíssimos. No seu topo, a referência à nossa influência direta da república francesa, de 1789, simbolizada por uma mulher (Marianne) com trajes greco-romanos. Ela está assentada sobre uma forma acastelada, referência direta à Bastilha. O conjunto foi modelado em Paris, num sofisticado e caríssimo processo, e fundido em ferro na França. No centro está o líder, sentado, tendo na mão um livro de Augusto Comte, o teórico da doutrina positivista. Logo atrás, outras imagens simbólicas, representando o civismo, a coragem, a firmeza e a prudência e os perigos, representados pelo dragão aos pés do líder. Ao lado, o jovem Júlio, trazendo na mão um exemplar do jornal “A Federação”, de propaganda positivista-republicana do seu partido, o PRR, Partido Republicano Riograndense. Mais tarde, ele redigiria a constituição do estado. Do lado oposto a sua figura como ancião, representando a sabedoria. E, finalmente, aos fundos, a primeira escultura equestre da cidade, como símbolo da  agropecuária e a cultura local. Antes dessa obra, registra o professor, ali existia outro importantíssimo monumento, um chafariz todo em mármore, vindo da Itália. Ele foi destruído, reduzido literalmente a pó (de mármore), restando apenas algumas figuras humanas, hoje localizadas na praça do Colégio Rosário – abandonadas. Todo o conjunto formava um sítio de rara beleza, diz o professor, incluindo o outro prédio semelhante ao Theatro São Pedro, que incendiou nos anos 40, mais a Catedral e o Palácio Piratini.

 

Praça da Alfândega, Margs e Memorial do Rio Grande do Sul

Fotos: Greice Campos

Na Praça da Alfândega, que está sendo reformada, erguem-se dois majestosos prédios de alto valor cultural-arquitetônico: o do Museu de Artes do Rio Grande do Sul, Margs, de 1914, e o Memorial do Rio Grande do Sul, de 1913, que antes funcionava como os Correios. Ambos com a mesma volumetria, mas com estilos completamente diferentes. O entorno é da maior importância: o Guaíba vinha até as proximidades da Rua da Praia, com um chafariz francês e um trapiche, onde Dom Pedro II aportou para acompanhar o início da Guerra do Paraguai. A construtora de Rudolph Ahrons, alemã e que dominava a arquitetura nas primeiras décadas em Porto Alegre, foi a responsável pela construção. Como era frequente, chamou o arquiteto alemão Theodor Wiedersphan para fazer o projeto. O Memorial é considerado como estilo eclético, misturando elementos, mas com predomínio barroco. Apresenta uma série de esculturas, todas ligadas ao tema correio, de aproximação de pessoas e continentes. Já MARGS tem elementos com duas figuras femininas, que simbolizam a agropecuária e indústria e também alusão às artes e a arquitetura. Mantém em sua fachada até hoje o brazão da república, mandado construir pelo então ministro da fazenda, o gaúcho Rivadávia Correia. Também se destacam belas cúpulas de bronze, assim como o Memorial.

 

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