O encanto do chamamé

Foto: Joel Vargas/PMPA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

 

Ritmo nascido entre os guaranis e com acréscimos europeus, o chamamé tem enorme importância na música gaucha – aqui no Rio Grande do Sul, mas principalmente na Argentina, onde é defendida como patrimônio na província de Corrientes. O chamamé conquista admiradores através das gerações e, para entender o encanto deste cantar, fui conversar com Juliano Javoski, músico que há 30 anos transita pelos palcos platinos estudando o chamamé.

 

“Defino o chamamé como algo que transcende o ritmo e a dança. Ele é um estilo musical, um modo de ser e de se comportar. O verdadeiro ‘praticante’ do autêntico chamamé, seja músico, cantor, compositor ou admirador, é muito fácil de ser identificado pela forma de se expressar e fazer alusão a ele – o chamamé é uma verdadeira devoção”, começa dizendo Javoski. A origem do chamamé é essencialmente guarani, da região entre os rios Paraná e Uruguai, no nordeste argentino, onde hoje está a província de Corrientes. “Ele veio da fusão dos antigos rituais tribais com o chamado ‘compasso ternário’ trazido da Europa no período da conquista espanhola”, explica Juliano. “Segundo os mais diversos estudos, o chamamé, em seu nascimento e evolução, tem forte influência na polca paraguaia.” Os primeiros chamamés eram tocados apenas com violão, e foi no início do século XX que dois instrumentos trouxeram um grande incremento: o bandonéon e o acordeom, ou gaita. “Mais tarde, ‘fechando a orquestra’, o contrabaixo, consolidando definitivamente a identidade instrumental do chamamé”, conta ele. Dançada com passos de marcha alternados, na Argentina é comum que seja cantado em “yopará”, um dialeto que mescla espanhol e o idioma guarani.

 

RITMO FLUIDO

Juliano defende que as características deste ritmo se confundem com os seus lugares de origem e proliferação. “Ele nasceu e se desenvolveu numa região abundantemente irrigada, banhada por dois grandes rios, o Paraná e o Uruguai, tendo se expandido mais tarde, para o Pantanal do Brasil (MS). Ao se cantar e bailar chamamé, visivelmente se nota que ele ‘desliza’, seja na voz de quem canta ou nos pés de quem dança – ele é ‘flutuante’ e suave, ou seja, tem muito a ver com a água. E sua zona de nascimento e permanência é justamente sobre a superfície do Aquífero Guarani, uma das maiores reservas subterrâneas de água doce do mundo, que abrange vários estados do Brasil, se estende pelo Paraguai e pela Argentina.” Na Argentina, o chamamé é patrimônio resguardado pelo governo provincial de Corrientes. Lá, inclusive, é comemorado em 19 de setembro o Dia do Chamamé. E é nesta província que é realizada há 27 anos a Fiesta Nacional del Chamamé, um dos maiores eventos de folclore da Argentina, considerada a “Meca” dos chamameceros.

 

FIESTA HERMANA

A Fiesta começou pequena nos anos 1980, com três noites com cerca de oito apresentações para 2 mil pessoas. Hoje, como conta Juliano, que já participou de diversas edições, são 10 noites com mais de 20 espetáculos cada uma, para um público de mais ou menos 15 mil pessoas por dia. “A Fiesta é realizada no Anfiteatro Mário del Tránsito Cocomarola, cujo palco leva o nome de Escenário Osvaldo Sosa Cordero, que são dois artistas cuja carreira se confunde com a própria história do chamamé.” Qualquer músico de chamamé pode se apresentar. “O chamamé já ultrapassou muitas fronteiras, daí então ele passa a ser considerado, definitivamente, um símbolo de integração cultural e humana entre os países onde ele encontra afinidade”, diz. “As ‘três pátrias gaúchas’ sempre existiram, com culturas e tradições muito semelhantes, mas apartadas por fronteiras políticas, e o chamamé, nessas circunstâncias, é um gerador de intercâmbios, pois transita livremente por essas fronteiras – a Fiesta é a prova disso, onde se estabelece uma gigantesca confraria de povos”.

 

CHAMEMÉ GAUDÉRIO

Os primeiros registros discográficos de chamamé no nosso estado são de autoria de Teixeirinha (“Tordilho negro”) e José Mendes (“Canto da siriema” e “Vá embora tristeza”), a partir de 1966. O ritmo conquistou grande popularidade com o surgimento e a proliferação dos festivais nativistas, especialmente nos anos 80. Logo grupos de baile e cantores entoavam chamamé para o público. “Aqui no nosso estado, na minha opinião, o maior ícone, na arte chamamecera chama-se Luiz Carlos Borges. Um precursor e responsável por muitos intercâmbios estabelecidos com a Argentina”, afirma Juliano. “Borges, em sua casa, abrigou nomes consagrados, como Raúl Barboza e Antonio Tarragô Ros, e, por sua vez, sempre é bem recebido no país vizinho, com sua arte e sua alma chamamecera.” Entre os ícones rio-grandenses deste ritmo, além de Borges, Javoski destaca os acordeonistas Edilberto Bérgamo, Gilberto Monteiro, Jonathan Dalmonte, Renato Fagundes e a cantora Shana Müller. Também sublinha artistas mato-grossenses, como Delinha, Dino Rocha, Helena Meireles, Helinho do Bandonéon, Humberto Yule, Maurício Brito e Zé Corrêa. “Já no âmbito chamamecero argentino, claro, o universo é muito maior, a começar pelas referências antigas, como Ernesto Montiel, Isaco Abitbol, Tarragô Ros e Transito Cocomarola; entre as cantoras veteranas, Ramona Galarza e Tereza Parodi; na atualidade, se destacam Chango Spasiuk, Juán y Ernestito Montiel, Luis “Pajarito” Silvestri, Manuel Cruz, Raúl Barboza, entre muitíssimos outros.”

 

ARTE CHAMAMECERA

“O papel do chamamé na nossa música é o de um importante aporte musical e cultural, agregando novos elementos melódicos e rítmicos ao nosso cancioneiro, contribuindo para a formação de um estilo que, futuramente, talvez, seja definido como a música crioula única que represente o Rio Grande do Sul”, diz o pesquisador. Para ele, o estado continua em processo de formação musical, sem um ritmo ou estilo que defina o RS. “Temos um mosaico bem variado de culturas e de ritmos musicais, onde se inserem o chote, a vaneira, a rancheira, a valsa, o bugio e a mazurca, em se tratando de música regional gauchesca, onde também se encaixa o chamamé.” Para ele, é fundamental preservar a permanência do chamamé através das gerações e valorizar o que é nativo. “É uma cultura essencialmente nossa, nascida no coração da América do Sul. O que ainda falta é as pessoas saberem mais sobre a sua origem e a sua trajetória.” Juliano está produzindo um livro e CD chamado “Caraí chamamé”, que reunirá suas pesquisas sobre o tema. Para os admiradores do ritmo, traz mais uma boa notícia: “Está em pleno avanço o projeto de transformar o chamamé em Patrimônio Cultural da Humanidade perante a UNESCO – ele será apresentado em 31 de março de 2017 em Paris, França”.

COMENTÁRIOS