HomeDiversos

O deputado e o “Completo”

  O DEPUTADO E O ‘COMPLETO’

Por Sérgio da Costa Franco

     Escrever sobre o Mercado me conduz a algumas lembranças imperdíveis, que a memória capenga dos 80 anos começaria a extraviar.
     Meu falecido amigo Caio Serrano, talentoso advogado da comarca de Soledade, foi quem me contou esse episódio. Em 1947, eleito pelo antigo Partido Social Democrático (PSD), ele integrou transitoriamente aquela luzida Assembléia Legislativa, em que houve a melhor equipe de deputados da memória política do Estado. Ficou como primeiro suplente, e lá pelas tantas foi chamado a substituir um de seus colegas.

Caio era o protótipo do homem simples, modesto, de hábitos rústicos. E mais: só saíra de sua terra natal em curtos períodos, a serviço de sua banca de advogado provisionado. A investidura de deputado não o envaideceu, nem alterou seus hábitos. Vai daí, que, com seu chapéu de largas abas, e palheiro nos queixos, caminhava pela Capital a pé a fim de conhecer a cidade. E, numa dessas andanças, à altura do meio-dia, passava pelos fundos do Mercado, quando vislumbrou, num dos restaurantes mais simples que ali havia, um verdureiro, marítimo ou portuário que “atacava” um morrudo e cheiroso prato de “completo”. Era assim que se chamava então o popular PF, ou “prato feito”, – sortido em que se misturavam arroz, aipim, batata, cebola, um pedaço de carne ou charque, e, por cima de tudo, o generoso feijão preto.
     Caio aspirou os bons odores da cozinha popular, e sentiu-se atraído pelo “completo”. Entrou no modesto restaurante, abancou-se e pediu o seu PF, tão à vontade como se estivesse no Ghilosso ou no Palácio do Comércio. Mas como era homem de beber bem, encomendou um vinho português, o verde “Casal Garcia”, se não me falha a memória. É claro que o restaurante não tinha vinhos portugueses no estoque, e o atendente esclareceu que se tratava de artigo muito caro, que teria de mandar buscá-lo no Armazém Lopes Dias, na esquina frente à Praça Parobé. O deputado Caio, na sua nova condição, andava folgado de dinheiro, antecipou o numerário para a compra, e, depois, devidamente abastecido, deliciou-se com o “completo” e o vinho verde do Douro.
     O dono do restaurante é que não entendia nada. Como é que o freguês acompanhava um “completo” de 3 cruzeiros com um vinho de 40? E, meio desconfiado, aproximou-se da mesa e perguntou ao Caio qual era o seu ofício e onde trabalhava. Com a modéstia de sempre, meu amigo lhe respondeu que era um “advogado de aldeia”, mas “agora estou destacado aqui na Assembléia Legislativa, eleito deputado”.
     É claro que o homem abriu a boca, de espanto, e acompanhou o Caio até à porta, massageando-lhe as costas e insistindo para que voltasse. 

Newer Post
Older Post

COMMENTS