O cantor da Bossoroca

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

 

“Cantar a minha terra” era a bandeira de Noel Guarany. Payador, guitarrero e pesquisador, era cantor autêntico e homem de convicções, e adotou como sua a missão de registrar uma música missioneira para a região onde nasceu. Mas mais que cantar as Missões, Noel cantou seu povo: as injustiças sociais, o esquecido passado guaranítico, a integração latino-americana. E se tornou uma referência para a cultura do estado.

Foto: Divulgação

Ele foi um pioneiro: o termo “missioneiro” não tinha significado antes de suas pesquisas e seu canto. Noel Borges do Canto Fabricio da Silva nasceu em 1941, em Bossoroca/RS, na época distrito de São Luiz Gonzaga. Na região ficavam as reduções jesuítas dos Sete Povos das Missões, que uniram padres jesuítas e índios guaranis numa sociedade coletiva que foi chamada de República Guarani. Valorizar esta história foi um dos objetivos de Noel, que incorporou o nome do povo indígena ao seu próprio. Iuri Barbosa, mestre em Geografia, pesquisou a relação dos troncos missioneiros para a formação de uma identidade na região, e define Noel Guarany como um artista libertário, “um anarquista missioneiro”. Educador musical e músico nos grupos Canto dos Livres, Tribo Brasil e Voo Livre, Iuri estudou o legado de Noel para a cultura rio-grandense e, especialmente, para a valorização das Missões.

 

ANDANÇAS

Autodidata, Noel aprendeu cedo a tocar violão, e no final dos anos 50 já circulava entre fronteiras para cantar em estâncias. Em 1960, foi servir ao Exército e se decepcionou com o que viu, de desvios a torturas. “Aprendi mais tarde que o roubo e a corrupção foram os maiores amigos das ditaduras militares”, escreve em sua breve autobiografia. Desertou e foi para a Argentina, onde começou suas andanças – e sua trajetória como missioneiro. “Noel botou o violão nas costas e saiu a viajar. Cruzou a fronteira, foi para Misiones, na Argentina, depois Buenos Aires, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Mato Grosso. Ele ficou um tempo viajando e fazendo suas pesquisas”, conta Iuri. Na região platina, trabalhou como ervateiro, lenhador e balseiro, convivendo com a gente destes lugares. Começou a observar a cultura local principalmente através da música. Seguia tocando por onde passava – tangos, boleros, guaranais, músicas das rádios da época. Então aconteceu de estar na Bolívia e encontrar vários cantores que bradavam: vou cantar uma canção da minha terra! “Pediram para ele tocar uma música da terra dele, e diz que ele ficou meio desconcertado, que não sabia o que fazer”, relata Iuri. Surgiu, então, o desejo de criar um canto para sua terra missioneira.

 

CANÇÃO GUARANI

Noel empreendeu uma larga pesquisa pela região platina. Visitou violeiros, payadores e acordeonistas antigos para conhecer temas e composições da tradição oral. Aprendeu a língua guarani e aproximou-se do folclore argentino, uruguaio, paraguaio e da região missioneira do RS. “O Noel falava da pampa, desta conexão do sul do Brasil, Uruguai e Argentina, mas também deste diferencial de buscar nas Missões e Misiones os ritmos”, explica Iuri. Desvendou e valorizou os gêneros da milonga, da chamarra e do chamamé, que chamava de “canção guarani”. De influências, trazia o milongueiro Atahualpa Yupanqui e o estudioso de cancioneiro guaranítico Osvaldo Sosa Cordero, além dos poetas Jayme Caetano Braun e Aureliano de Figueiredo Pinto. Depois de conseguir formar a ideia da música missioneira da sua terra, começou a tarefa de difundi-la. “Vamos ter registro de que ele voltou para o Rio Grande do Sul no começo dos anos 1970, quando grava seu primeiro disco, com 30 anos.”

 

“CANTAR A MINHA TERRA”

Com uma preocupação cultural e na defesa de um patrimônio histórico regional, Noel começou a cativar outros cantores a descobrir o missioneirismo. Talvez Cenair Maicá tenha sido seu primeiro aliado: em 1968, os dois lançaram um compacto com as músicas “Filosofia de gaudério” e “Romance do pala velho”, canções que foram regravadas também em outros discos. Depois de Maicá, aderiram ao estilo Pedro Ortaça e Jayme Caetano Braun – os quatro troncos missioneiros. Todos cantavam o passado das Missões, incluindo o massacre da Guerra Guaranítica e as injustiças aos índios – fazendo paralelo com os guaranis de sua época e a marginalização. Colocavam, assim, temas sociais nas canções: os sem-terra, as lutas operárias, o fim da ditadura. Cantavam a integração latino-americana e também temas comuns do campo gaúcho: o cavalo, a natureza, a luta e o amor. Maicá e Ortaça começaram a gravar no fim dos anos 1970, quando Noel já tinha uma carreira fonográfica consolidada.

 

DESTINO MISSIONEIRO

O primeiro disco solo foi “Legendas missioneiras” (1971), seguido de “Destino missioneiro” (1973), que teve apresentação de Barbosa Lessa. Um dos criadores do tradicionalismo gaúcho, Lessa também pesquisava sobre as Missões e os dois tinham uma boa relação. Noel passou a levar sua música de pesquisa para os centros urbanos e universidades, mas não tinha grande espaço na mídia, apesar da popularidade de sua música. Com o lançamento de “Destino” e dos shows que se seguiram, começou a ser perseguido pela ditadura militar – no intervalo entre as canções, deixava claras suas convicções democráticas.

 

VOZ E VIOLÃO

Depois lançou “Sem fronteiras” (1975), que trouxe o clássico “Potro sem dono”, hino contra a ditadura, e “Payador, pampa, guitarra” (1976), gravado com Jayme Caetano Braun para promover a integração continentina. “Eu considero estes dois discos o auge da carreira dele, porque o Noel está maduro na obra, cantando e tocando muito bem”, observa Iuri. “Nesta época, ele tem um destaque bem legal na crítica do centro do país, onde é conhecido como músico de protesto.” Noel gostava de se apresentar apenas com voz e violão. “O que ele tinha muito diferente era o toque de violão e a interpretação vocal. Um timbre de voz que começou com o Noel e parece que se encerrou com ele: mais agudo, meio anasalado, com muita potência dos vibratos.”

 

“HEI DE MORRER CANTANDO”

Nos anos 1980, Noel descobriu uma doença degenerativa do sistema nervoso e começou a afastar-se dos palcos. Ainda gravou “A volta do missioneiro” (1988), com Jorge Guedes e João Sampaio da Silva, e participou do emblemático “Troncos missioneiros” (1988) ao lado de Cenair Maicá, Jayme Caetano Braun e Pedro Ortaça. A doença o levou em 1998. Deixou um enorme legado, mais que na música, na identidade da região missioneira. Em 1999 foi inaugurado o Memorial a Noel Guarany junto ao túmulo do cantor em Bossoroca, e em 2015, o Monumento a Noel Guarany na entrada da cidade. São Luiz Gonzaga se tornou a Capital Estadual da Música Missioneira em 2012. Iuri resume o legado de Noel: “Ele é para quebrar fronteiras e paradigmas”.

 

 

Considerado de temperamento difícil, Noel sempre defendeu seus pontos de vista. Não simpatizava com a entidade tradicionalista MTG, criada em 1966, porque afirmava que ela trazia uma visão do gaúcho construída e dogmática, além de ter proximidade com a ditadura. “Na época, o MTG era comandado por coronéis designados pela ditadura militar, muitos que não entendiam de cultura gaúcha, e ele critica isso”, explica Iuri. “Era uma crítica também aos CTGs que tocavam só banda de baile: o Noel queria mostrar uma outra realidade, outros ritmos, queria tocar música para as pessoas ouvirem. O CTG é mais festividade, não tem esta característica cultural – talvez no princípio tivesse, quando Barbosa Lessa e sua turma estavam começando, mas depois que entrou a turma dos coronéis do MTG nos anos 60 isso mudou”, avalia o pesquisador. Guarany também era contrário às competições e seus manuais, como as de danças tradicionais e dos festivais nativistas – dos quais criticava também a censura. Desentendeu-se com gravadoras mais de uma vez, acusando-as de negligenciarem seu trabalho e não repassarem os direitos autorais. Criticava também a Ordem dos Músicos do Brasil. As desavenças não lhe davam muito espaço de divulgação, mas mesmo assim ele conquistou uma legião de admiradores

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