O Cancioneiro – Fiel às raízes

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

 

Jucelino Vieira da Conceição, o Cancioneiro, escreveu sua história na música regional entrelaçando sua arte com a do ídolo Gildo de Freitas. Gildo foi um dos pioneiros da música regionalista, popularizada em rádios nos anos 40 a 60. Seguindo seus passos, o Cancioneiro gravou o primeiro disco em 1982 e hoje tem 11 CDs na carreira, além do 1º Prêmio Gildo de Freitas, da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. O Cancioneiro mantém vivo o repertório de Gildo, do qual é considerado herdeiro musical.

 Minha música é campeira, regionalista, extremamente fiel às raízes do pampa, do nosso pago gaúcho, o Rio Grande do Sul. Desde criança eu fui inspirado por duas vozes que marcaram época na história da música regionalista e campeira: Gildo de Freitas e Teixeirinha. Venho do interior, da região missioneira, cidade de Giruá. Tinha meus 11 anos quando o Prof. Rubelin Mative falou em música: “O bom mesmo é despertar na capital gaúcha ouvindo Gildo de Freitas cantar”. Nunca mais isso saiu da minha cabeça. Justamente naquela época só se ouvia no rádio Gildo e Teixeirinha. Decerto eu já era fã do Gildo, e isso justifica o porquê daquele sentimento.

Até meus 17 anos eu trabalhei na roça. Depois fui para a cidade, onde trabalhei em várias empresas, começando por servente de pedreiro, depois num posto de gasolina e como soldador, até entrar na Corsan. Quando tinha cerca de 20 anos, chegou a primeira emissora de rádio em Giruá. Não levou um ano e consegui um programa, “Roda de Chimarrão” (1979). Comecei do zero, e dentro de um ou dois anos já estava num patamar de audiência muito razoável. Isso perdurou por dez anos. Foi quando, em 1990, eu parei com o programa e parti para a capital realizar meu sonho.


Foto: Letícia Garcia

 

 

Herança de Gildo

Eu sou um cara muito feliz, já tive muitas vitórias. Vim para a capital do estado – tem música que conta um pouco da minha história, como “Das missões para a capital” –, e foi aqui que conheci a Dona Carminha e toda família de Gildo de Freitas. Dona Carminha é como minha segunda mãe, tive todo o apoio deles, e tenho até hoje. “Herdeiro musical”, “a voz que relembra Gildo de Freitas”, “embaixador de Gildo de Freitas” são títulos da imprensa; também tenho esse apoio. Entre muitos seguidores de Gildo, o Cancioneiro é um deles, com muito respeito e carinho. Canto meu ídolo com muito prazer, com a alma e o coração, e é um presente de Deus ter essa facilidade e naturalidade de interpretá-lo e recordá-lo pela semelhança da voz.

Gildo é “marca registrada”. A recepção do público é muito boa, e inclusive a cobrança sobre as músicas do Gildo é grande. Quando estou preparando o repertório para o lançamento de um disco, as pessoas perguntam: “Cancioneiro, quantas músicas do Gildo vêm neste disco? Por que tu não grava a música ‘tal’?”… Escolhem meu repertório! Às vezes tenho músicas minhas projetadas para gravar, ou de al
gum companheiro musical, e tenho que sair do planejado pelo pedido das pessoas. E faço com prazer. Cantar Gildo de Freitas é um privilégio, porque fui inspirado por esse cantor e essa troca de energia no palco não tem preço.

 

Gildo e Teixeirinha

 Quando se fala na música regionalista, música campeira do nosso pampa gaúcho, é impossível num grande pedaço da história não aparecer Gildo de Freitas e Teixeirinha, pelo talento desses dois cantores. Na época eles se desfiavam, faziam um “duelo de idéias”. A contribuição deles para a nossa música campeira autêntica é enorme. Teixeirinha levou o Rio Grande do Sul na garupa pelo mundo inteiro, e Gildo também. Eram dois poetas que escreviam e descreviam as belezas e a nossa história gaúcha em versos rimados. É impressionante o que eles fizeram pelo Rio Grande do Sul.

 

Autenticidade

Eu tenho uma música que diz assim: mesmo com muitas barreiras, a nossa música chega lá fora. Nós temos hoje CTGs em todo o mundo, mas temos também dificuldades da nossa música no próprio Rio Grande do Sul. Para ter uma ideia, dá pra contar nos dedos as emissoras que tocam música gaúcha por um período maior. Em Porto Alegre, só Liberdade e Rádio Rural tocam integralmente. Tem uma grande parte que toca – mas às 5h da madrugada. É complicado. Temos que usar a internet e continuar peleando. E preservar, conservar a tradição, ser autênticos. Eu diria que a cultura gaúcha traz uma coisa específica por sua história e conquistas. É um estado que se orgulha de seu povo, e que seu povo defende. É por isso que aqui tantos poetas escrevem e são chamados de bairristas, e de repente por isso que não “sobe”, não dá aquele estouro nacional – os artistas têm orgulho, não olham tanto a parte comercial, mas sim cultural, e aquilo que fazem é de coração, do sangue que corre nas veias. Como diz a música do Teixeirinha: “Quem quiser saber quem sou”…

 

O Cancioneiro e o Mercado

O Mercado Público é um patrimônio que não tem preço, bem no centro da nossa capital, com sua diversidade de produtos e o povo que circula ali. Quando vou ao Centro (moro em Canoas), passo no Mercado, compro erva-mate, peixe, dou uma conversada com os amigos. Quando aconteceu o incêndio, fiquei bastante triste, ainda bem que vai ser reconstruído e já está funcionando a parte de baixo. O Brasil todo conhece o Mercado, e isso é muito forte e valoroso para o nosso Rio Grande do Sul. Por isso tem que ser preservado, com cautela e muito capricho.

 

“Este povo tem raiz e defende a sua bandeira./ Nossa histórica bombacha/ Há muito já ultrapassa, no mundo, suas fronteiras” (Estampa do Rio Grande)

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