O camarão do Laranjal

Junto com o mês de janeiro chega uma vontade atávica de relembrar o sabor do camarão do Laranjal, pelo menos para quem sempre veraneou às margens do sul da Lagoa dos Patos.

 

BURGOMESTRE, por Sady Homrich

 

Nos idos anos de 60 e 70, no século passado, havia uma relação peculiar com nosso crustáceo: bastava entrar a água salgada no Saco do Laranjal que o camarão vinha até a beira da lagoa. Logo se ouviam os gritos dos primeiros ambulantes: “CAMARÃÃÃÃÃÃOOO… É COM CASCA OU DESCASCADO… CAMARÃO”.

Em 1970, num banho de praia, minha irmã Magda — que era a Rainha do Valverde Praia Clube — flagrou um camarão que entrara em seu biquíni. Temos a foto do flagrante!  Muitas vezes os pegávamos com o pé, durante os banhos vespertinos: já era motivo para pescaria. Entre sete ou oito pirralhos, com um pouco de paciência, catávamos umas duas dúzias de camarão e corríamos para o trapiche do Valverde (antes da construção da passarela), caminhando com a tralha na cabeça, para não molhar, ou no “caíco” do Darcy, funcionário encarregado de cuidar do transporte e da manutenção. Chegando à casinha, que servia de abrigo para qualquer intempérie, tomávamos nossas posições seguindo a hierarquia de idade. O seu Antoninho tinha cadeira cativa na asa norte, bem à esquerda. Era a figura símbolo da plataforma, com o seu indefectível molinete Paoli e o Ford Modelo T verde, diariamente estacionado na beira da praia.

Por justiça, o seu Antoninho foi quem mais pescou no antigo trapiche. A estatística estava a seu favor, já que ele frequentava diariamente o pesqueiro. Maior quantidade, qualidade e variedade. Quando encostava um cardume de peixe-rei era uma festa. Certa feita, o Bucky e o Zeca, meu irmão e meu primo, sete anos mais velhos do que eu, pescaram 204 peixes-rei num intervalo de menos de 3h! Eu vi! Havia fartura e todos os vizinhos ganhavam peixe.

Saíamos à noite para arrastar camarão com as velhas redes do meu avô e um lampião à querosene — depois veio o “liquinho”. Bastavam algumas redadas para voltarmos para casa com 5 kg dos mais saborosos camarões cinza que já se provou! Jamais experimentei, em minhas andanças pelo Brasil (e até fora), uma carne com igual textura e sabor. Não são grandes como os pitus nordestinos ou os camarões VG de Itajaí, ou ainda os camarões-rosa de Búzios. Mas são inigualáveis. Limpávamos os 5 kg separando os miúdos para a isca da próxima pescaria ou para fritar. Os maiores eram descascados e temperados à baiana pela minha avó ou feitos com arroz, um típico prato litorâneo.

Voltando ao presente e à dura realidade, constatamos que anos e anos de extração de pescado com métodos rudimentares e prejudiciais à fauna e à flora, o ataque dos grandes grupos pesqueiros de Santa Catarina, a falta de uma política adequada para o setor, a ação destrutiva do homem em relação aos mananciais, a força pesqueira na entrada da barra do Rio Grande, acabando com o pouco pescado que tenta entrar no estuário para reproduzir-se, e a tirania do clima exauriram a capacidade da pesca da nossa lagoa. Depois de praticamente quatro anos de ausência de camarão nativo, esse ano parece que teremos uma pequena safra que, mesmo sendo modesta, já ajuda a recuperar um pouco a combalida economia das nossas colônias pesqueiras, já que a safra da corvina não foi lá essas coisas…

As peixarias do Mercado Público de Porto Alegre sempre foram entreposto dessa iguaria, mas tome o cuidado de perguntar ao seu peixeiro de confiança se o camarão cinza que está exposto não é proveniente de criatórios. Nada contra, mas o sabor e a textura definitivamente não são os mesmos.

Para harmonizar, vinho branco, vinho verde, espumante Rose Brut ou cerveja. Mas não qualquer cerveja: experimente diferentes pratos de camarão com Belgian Blonde, Weissbier, Witbier, Export e Sours. A Catharina Sour, citada na coluna passada, é uma boa pedida para o início dos trabalhos!

 

Abraço do Burgomestre!

 

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