O Abrigo dos Bondes

O Abrigo dos Bondes

 

A história de Porto Alegre pode ser contada a partir de alguns e lugares que a simbolizam, o Mercado Público é certamente uma destas referências, assim como o próprio bairro que o abriga, o Centro Histórico. São maneiras de se conhecer uma cidade. E um dos seus registros é a fotografia. E é o caso deste flagrante da Porto Alegre por volta da década de 1930 – onde se destaca o Abrigo dos Bondes da Praça XV de Novembro.

 

A professora e pesquisadora Zita Rosane Possamai, Doutora em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, num trabalho divulgado em 2006 aponta uma das formas de se entender estas imagens. Para ela é preciso ’’ver a fotografia como objeto que fazia parte da realidade social, tomando assento na vida das pessoas de determinado período histórico’’.

No seu artigo, Zita Possamai apresenta o que chama de: “o circuito social da fotografia na cidade de Porto Alegre, nas décadas de 1920 e 1930”. Convém lembrar que a fotografia e suas máquinas ainda não eram algo tão popular e de fácil acesso como nos dias de hoje. Por isso mesmo, além do documento histórico em si, uma fotografia antiga também tem sua importância pela maneira como foi obtida. Imagens clicadas há 80 ou 90 anos nos trazem de volta um pedaço da cidade; como ela era, coisas que já não existem, os bondes, por exemplo. Ou produtos anunciados cujas algumas fábricas ou estabelecimentos já desapareceram.

A fotografia era algo que estúdios e ateliês fotográficos faziam na época. Um destes profissionais era Olavo Dutra que segundo a pesquisa da professora Zita formou mais de uma sociedade no ramo: “Na segunda metade dos anos vinte, encontrei o registro da Photo Pacheco e Dutra, localizada na travessa Itapiru (Acilino de Carvalho), cujos proprietários associados eram Pacheco e Olavo Dutra. Para o final daquela década, o primeiro fotógrafo estava presente nas assinaturas das imagens fotográficas apenas como Studio Pacheco, enquanto o segundo veio a constituir sociedade com o artista Augusto Azevedo, passando a assinar as imagens fotográficas como Photografia Azevedo Dutra”.

 

Origem

Abrigo de bondes da Praça XV de Novembro, que foi construído em duas etapas. No início da década de 1930, junto à Rua José Montaury, foi construído um abrigo pela Companhia Carris Porto-Alegrense. Em 1935, o abrigo foi prolongado, uma ala voltada para o edifício Delapieve. O abrigo atendia aos usuários das linhas de bondes Floresta e Independência, com acesso pelo lado voltado para a Praça XV, e a linha para a Cidade Baixa e Partenon pela ala do Edifício Malakof. Servia como ponto de confluência e baldeação.

 

A voz-do-poste no Abrigo

Outra pesquisa, a do professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS), jornalista Luiz Artur Ferraretto, aponta uma curiosidade, uma emissora de rádio sediada no Abrigo.”O que pouca gente sabe é que, na capital também houve uma voz-do-poste. Como registra o Guia Otten, publicação comercial daqueles tempos, chamava-se Rádio Cruzeiro. Tempos de poucos automóveis e muitos bondes. Milhares de pessoas convergindo para a Praça XV, no centro da cidade, encruzilhada do transporte urbano. Como dizia um anúncio da época, há, então,”uma voz nos abrigos da Praça XV ouvida por toda Porto Alegre.

 

Ateliê Livre

Numas de suas últimas entrevistas, o escultor, gravador e caricaturista, Xico Stockinger (1919-2009), lembrou que em 1961, ele e mais um grupo de artistas fundaram o Ateliê Livre da Prefeitura Municipal. A primeira sede funcionou em cima do Abrigo dos Bondes “ali naquele troço redondo do abrigo, depois nos mudamos para cima do Mercado”, contou Xico em novembro de 2008. 

Em pleno século XIX, o Abrigo da Praça XV resiste ao tempo e se renova. Atualmente possui 26 pontos de venda,  a maioria, lancherias. São estabelecimentos para refeições rápidas, com os temperos e sabores característicos do Abrigo desde o tempo do bonde. Lá, ainda é possível aplacar a sede com um tradicional caldo de cana.

Por falar em tradição, está em fase de licitação para um projeto de estudo da viabilidade técnica de instalação de uma linha de bonde no Centro Histórico.

 

*Jornalista e poeta

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