No tempo das carreteras

Centro Histórico, por Emílio Chagas

 

Hoje seria praticamente impensável, mas houve um tempo em que as ruas de Porto Alegre se transformavam num grande autódromo. As corridas eram realizadas em circuitos e disputadas pelas chamadas “carreteras”, automóveis adaptados especialmente para as heroicas e perigosas provas urbanas.

 

 

A época de ouro dessas emocionantes corridas foi entre as décadas de 1940 e 1960, quando a população comparecia em peso nas ruas para acompanhar e torcer pelos seus pilotos favoritos. Em Porto Alegre realizaram-se corridas importantes de até 500 quilômetros, sendo o chamado Circuito da Pedra Redonda um dos mais importantes. Ele passava pelos bairros Tristeza, Vila Conceição, Cavalhada e Ipanema, na Zona Sul da cidade. As ruas: Coronel Marcos, Juca Batista, Otto Niemayer e Venceslau Escobar. Outro circuito envolvia a Avenida Farrapos, principalmente no Grande Prêmio de Porto Alegre, quando os pilotos largavam e chegavam na Farrapos, cumprindo um trajeto que incluía as artérias Sertório, Presidente Roosevelt, Cairu, Voluntários da Pátria e Ramiro Barcelos. Registra Eloy Terra no seu “As ruas de Porto Alegre” que no início dos anos 50 começaram as provas no Circuito da Redenção. “Era uma pista improvisada, com quatro quilômetros de extensão, percorrendo a Osvaldo Aranha, Sarmento Leite, João Pessoa, José Bonifácio e retornando à José Bonifácio.”

 

Provas em todo o estado

A velocidade chegava aos 200 km/h e nas curvas consideradas como as mais perigosas eram colocados fardos de alfafa que funcionavam como proteção. Ou seja, eram os guard-rails da época. Um pouco desta história está registrada no livro “Aristides Bertuol: o piloto da carretera nº 4”, biografia do piloto de Bento Gonçalves que conquistou 15 títulos, escrita por Fabiano Mazzotti e Gilberto Mejolaro. O livro reúne o acervo do piloto e recupera boas histórias do período. As provas, contudo, não se limitavam à capital: também se realizavam em cidades do interior, havendo circuitos nas estradas estaduais, inclusive. Mais do que corridas, as provas representavam um acontecimento social, com multidões torcendo pelos pilotos das suas cidades. Também era muito comum entre o público que assistia churrascos assados e cervejadas enquanto aconteciam as disputas. Uma verdadeira confraternização.

 

Fotos: Cristine Rochol/PMPA

Os pilotos, levando no “braço”

Os pilotos tinham que ser muito habilidosos: os carros não tinham quase nenhuma tecnologia e as condições de segurança eram praticamente inexistentes. Não existia cinto de segurança e os capacetes eram quase simbólicos. A caixa de câmbio, por exemplo, era chamada “caixa-seca” e o piloto tinha que ter muita atenção – não só na corrida, mas principalmente com o público que ficava em volta, nas calçadas ou na beira das estradas, como acontecia nas provas com o percurso Porto Alegre-Passo Fundo-Porto Alegre, por exemplo. Muitos que presenciaram as corridas afirmam que elas eram mais emocionantes do que as que acontecem atualmente nos autódromos. Grandes pilotos se destacaram, como os irmãos Catarino e Julio Andreata, Breno Fornari, Irineu Correa, João Caetano Pinto, Norberto Jung, Olynto Pereira, Oscar Bins e muitos outros. As provas acabaram por mortes de pilotos e torcedores, mas deixaram muitas saudades.

COMENTÁRIOS